Crusoé: Por que a delação premiada incomoda as elites econômicas?
O colaborador rompe a confortável ficção de que certos sistemas funcionam exclusivamente por técnica, meritocracia e racionalidade financeira
Toda estrutura de poder produz seus próprios mecanismos de silêncio.
Nas organizações criminosas, o silêncio protege a sobrevivência.
Nas elites econômicas, protege reputações, relações, mercados, acessos e zonas de influência.
Em ambos os casos, porém, existe um ponto em comum: quem rompe o pacto raramente é visto apenas como colaborador. Passa a ser tratado como traidor/delator.
Talvez seja por isso que a colaboração premiada, chamada vulgarmente de delação, provoque tamanho desconforto quando atravessa os corredores do poder financeiro brasileiro.
O problema nunca foi apenas jurídico.
É também psicológico, social e simbólico. Porque a colaboração não rompe apenas cadeias de ilegalidade. Ela rompe estruturas de invisibilidade.
No debate público brasileiro, consolidou-se uma visão simplificada da colaboração premiada.
Para uns, ela representa a degradação moral do processo penal. Para outros, uma espécie de atalho heroico de combate à corrupção. Ambas as leituras são insuficientes.
A colaboração premiada não nasceu para premiar arrependidos. Tampouco exige pureza ética do colaborador.
O instituto existe porque determinadas estruturas de poder se tornam praticamente indevassáveis sem informação interna. Trata-se menos de um mecanismo moral e mais de um instrumento epistemológico do Estado.
Em sociedades complexas, o poder raramente opera de forma explícita.
Crimes financeiros sofisticados, estruturas societárias opacas, redes informais de influência, engenharia patrimonial, circulação privilegiada de informações e pactos reputacionais não funcionam como organizações rudimentares. Funcionam por camadas de proteção, silêncio e racionalização técnica.
E talvez resida aí o verdadeiro desconforto.
O mercado financeiro brasileiro — cuja expressão simbólica mais conhecida se convencionou chamar de “Faria Lima” — construiu ao longo do tempo não apenas um centro de produção de riqueza, mas também uma cultura própria de discrição, lealdade e blindagem reputacional.
Não há nada de ilegítimo na existência de elites econômicas.
Toda sociedade complexa possui centros financeiros sofisticados. O problema começa quando determinadas estruturas passam a acreditar que seus códigos internos de silêncio devem permanecer imunes ao interesse público de conhecimento.
Mercados vivem de confiança.
Mas confiança também produz…
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