Bolsas em alta, mas guerra comercial segue no ar
Bloqueio de parte das tarifas impostas por Trump reacende apetite por risco, mas otimismo precisa ser lido com cautela
A decisão tomada pelo Tribunal de Comércio Internacional dos EUA na quarta-feira, 28, de bloquear parte das tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (foto), reacendeu o apetite por risco nos mercados globais.
A reação foi imediata: bolsas da Ásia e Europa avançaram com força, impulsionadas pela expectativa de um alívio na guerra comercial e pela esperança de que o ímpeto protecionista do presidente republicano encontre resistências institucionais mais duradouras.
Mas o otimismo do mercado precisa ser lido com cautela. O pano de fundo ainda é de incerteza.
Apetite por risco no Pacífico
O desempenho das bolsas asiáticas nesta quinta-feira, 29, refletiu claramente o impacto da decisão judicial americana.
Bolsas da Coreia e do Japão subiram quase 2%, enquanto Hong Kong e China continental reverteram a maré de pessimismo que dominava os pregões anteriores.
Ainda que o movimento tenha sido generalizado, vale destacar o alívio técnico observado em Xangai e Shenzhen, que vinham de uma sequência de perdas.
Trata-se de um clássico rally pós-notícia, com traders corrigindo posições exageradamente defensivas.
A exceção ficou por conta de Taiwan, cuja queda discreta foi mais reflexo de movimentos setoriais do que de tendência regional.
Europa embala o otimismo
Na Europa, o entusiasmo também foi evidente.
O Reino Unido avançava 0,36% pela manhã, com Frankfurt, Paris e Milão acompanhando a alta.
Além do fator Trump, o bom humor se intensificou com os resultados acima do esperado da Nvidia, que turbinaram ações ligadas à inteligência artificial — ASML e Schneider Electric, entre outras.
É a velha história: quando o cenário político melhora um pouco, os fundamentos corporativos voltam a brilhar.
Ainda assim, é bom lembrar que as tarifas suspensas não envolvem setores-chave como aço, alumínio e automóveis, que continuam sujeitos às sobretaxas.
Um respiro ou só um intervalo?
Para analistas da Capital Economics, o bloqueio das tarifas representa mais um capítulo da novela comercial que se arrasta desde a primeira gestão Trump.
O problema é que a decisão judicial, embora relevante, pode ser revertida. A Casa Branca já anunciou recurso à Suprema Corte, indicando que a instabilidade se prolongará.
A trégua de 90 dias com a China e outros parceiros comerciais fica comprometida.
No fundo, o mercado celebra não uma solução, mas a suspensão temporária de um problema maior.
É um intervalo no conflito, não o fim da guerra.
Trump, o roteirista do mercado
O que se observa é que a política comercial dos EUA tem funcionado como roteiro de série dramática: reviravoltas, vilões caricatos, heróis de ocasião e plateia em suspense.
A decisão do tribunal não desativa a máquina tarifária de Trump — apenas tira dela uma de suas engrenagens.
Como lembrou o Goldman Sachs em um relatório na manhã desta quinta, outras ferramentas continuam à disposição da Casa Branca, como as seções 232 e 301, que permitem imposições por motivos de segurança nacional ou práticas comerciais desleais.
Ou seja, mesmo que o palco mude, o espetáculo continua.
A lição dos mercados
A euforia das bolsas nesta quinta precisa ser lida com os óculos certos.
Não se trata de um novo ciclo de otimismo econômico global, mas de um suspiro aliviado diante da possibilidade de menos interferência política nas relações comerciais.
É a velha máxima do mercado: quando o imprevisível diminui, ainda que levemente, os preços se ajustam para a racionalidade.
Mas o investidor atento sabe que o barulho de curto prazo costuma esconder os ruídos estruturais. E, nesse enredo, o protecionismo não saiu de cena — apenas perdeu o microfone por alguns episódios.
Pedro Kazan é profissional do mercado financeiro desde 1999, empreendedor e palestrante, formado em Engenharia de Produção com ênfase em Engenharia Econômica pela UFRJ. De 2002 a 2004, fez parte do Controle Operacional da Mesa Proprietária do Banco BBM, de onde saíram os fundadores das mais renomadas Assets do Brasil, como SPX, Kapitalo e Navi. Desde 2004 dedica-se à Gestão de Recursos e Assessoria de Investimentos Private. Fundador do canal de educação financeira KZN Investimentos. Nascido no Rio de Janeiro. Vivendo em Lisboa.
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