Bari Weiss quer salvar o jornalismo tradicional de si mesmo, mas pode ser tarde demais

08.10.2026

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Bari Weiss quer salvar o jornalismo tradicional de si mesmo, mas pode ser tarde demais
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Alexandre Borges
6 minutos de leitura 07.10.2025 11:03 comentários
Análise

Bari Weiss quer salvar o jornalismo tradicional de si mesmo, mas pode ser tarde demais

Da ascensão no New York Times ao comando da CBS News, a trajetória de uma jornalista que desafiou o consenso e tenta reconectar o jornalismo ao país real

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Alexandre Borges
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Bari Weiss quer salvar o jornalismo tradicional de si mesmo, mas pode ser tarde demais
Foto: Reprodução

Bari Weiss está prestes a fazer história no jornalismo americano.

Nascida em Pittsburgh, em 1984, em uma família judaica ativa na vida comunitária, cresceu em um ambiente de debate, leitura e senso de responsabilidade.

Formada na Universidade de Columbia, onde foi editora do jornal estudantil Spectator, desde o início acreditou que o jornalismo tinha a missão de aproximar realidades diferentes e provocar reflexão.

Começou a carreira no Jerusalem Post, cobrindo política e cultura, e depois trabalhou no Wall Street Journal, onde se destacou pela clareza e pela disposição em enfrentar temas sensíveis.

Em 2017, foi contratada pelo New York Times, que prometia ampliar a diversidade de vozes em sua redação depois do “trauma político” da eleição de Trump de 2016.

Weiss encontrou na nova casa uma cultura de conformismo e patrulha ideológica. Em julho de 2020, ela publicou uma carta de demissão endereçada a A.G. Sulzberger, publisher do jornal, que se tornou um marco na história recente da imprensa americana.

Ela explicou que havia sido contratada para “trazer vozes que de outra forma não apareceriam em suas páginas”, mas que esse esforço foi engolido pela pressão de agradar a uma audiência ideologicamente homogênea.

Num dos trechos mais duros, Weiss escreveu: “O Twitter não está listado entre os editores do New York Times, mas o Twitter se tornou o seu editor definitivo. À medida que as éticas e normas daquela plataforma passaram a ser as do jornal, o próprio jornal tornou-se cada vez mais um tipo de palco performático.”

Ela descreveu um ambiente onde “as histórias são escolhidas e contadas para satisfazer o público mais estreito, em vez de permitir que um público curioso leia sobre o mundo e tire suas próprias conclusões.”

A carta detalhou episódios de hostilidade interna.

“Minhas tentativas de pensamento dissidente me tornaram alvo de bullying constante de colegas que discordam das minhas ideias. Me chamaram de nazista e racista. Aprendi a ignorar comentários sobre como estou ‘escrevendo sobre judeus de novo’. (…) Alguns colegas insistem que eu preciso ser eliminada para que essa empresa seja realmente inclusiva, enquanto outros postam emojis de machado ao lado do meu nome”. disse.

Ela escreveu ainda: “Ser um centrista num jornal americano não deveria exigir coragem. Mas aprendi que a coragem é necessária.”

A carta se tornou um marco não apenas pelo conteúdo, mas pelo tom. Weiss não atacava o jornalismo. Ela pedia sua alma de volta.

“Como cultura, fracassamos ao criar lugares de investigação livre e confiança”, escreveu. “Espero que você leve a sério as lições deste momento, não apenas para o New York Times, mas para o jornalismo como um todo.”

A repercussão foi enorme. A demissão de Bari Weiss foi coberta pelos principais veículos do mundo e expôs uma ferida profunda na imprensa americana: a substituição da curiosidade pelo novo puritanismo woke.

Weiss se tornou alvo de ataques e linchamento digital. Foi acusada de racismo, oportunismo, reacionarismo e até de trair a causa judaica. Mas ela reagiu do único modo possível: trabalhando.

Criou, em novembro de 2020, a newsletter Common Sense. Em poucos meses, reuniu centenas de milhares de leitores.

Em dezembro de 2022, o projeto evoluiu para The Free Press, uma redação independente com mais de 1,5 milhão de leitores e 170 mil assinantes pagos, como eu.

O nome era também uma promessa: provar que jornalismo livre e honesto ainda podia prosperar.

O Free Press publicou reportagens e análises que as grandes redações ignoravam.

Em 2022 e 2023, Weiss participou dos Twitter Files, revelando a cooperação entre governo e empresas de tecnologia na censura de conteúdo.

O trabalho rendeu o Dao Prize de Jornalismo Investigativo de 2023 e reforçou sua reputação de independência e rigor.

O sucesso chamou atenção da indústria.

Em outubro de 2025, a Paramount Skydance comprou o Free Press por 150 milhões de dólares e nomeou Weiss editora-chefe da CBS News. O acordo foi aprovado com o compromisso de garantir diversidade real de pontos de vista.

A mulher que saiu do Times denunciando o conformismo agora lidera uma das maiores redações do planeta.

Essa virada não é apenas um movimento empresarial.

É a materialização de um fenômeno descrito brilhantemente pelo historiador Christopher Lasch. Ele alertou que o maior desafio das democracias modernas não viria das massas, mas das elites.

As elites do passado tinham raízes e responsabilidades locais. As de hoje vivem de abstrações, formadas por acadêmicos, jornalistas, consultores e gestores que veem o mundo como rede e não como comunidade.

Essa elite compartilha uma fé quase religiosa no progresso constante. Tudo o que remete a tradição, limite ou pertencimento é visto como atraso. O resultado é o que Lasch chamou de “rebelião das elites”: uma ruptura moral entre os que narram e os que vivem a realidade.

O geógrafo francês Christophe Guilluy descreveu o mesmo processo na Europa.

As metrópoles globalizadas concentram poder e influência cultural, enquanto a periferia, onde vive a maioria, é tratada com desdém.

O jornalismo, concentrado nessas metrópoles, passou a falar apenas consigo mesmo. As preocupações do cidadão comum — segurança, energia, custo de vida — foram desqualificadas como “retrocesso”.

A chegada de Bari Weiss à CBS é a resposta a esse divórcio.

A Paramount entendeu que a crise da imprensa não é tecnológica, mas moral.

Weiss representa um jornalismo que volta a ser serviço público.

Um jornalismo com os pés no chão, que escuta antes de dar palestras morais de uma moralidade duvidosa. Um jornalismo que não confunde empatia com condescendência aos inimigos do Ocidente.

Com a força corporativa da Paramount Skydance e a credibilidade que construiu sozinha, Weiss tem a chance de liderar essa reconstrução e simbolizar a convergência entre independência intelectual e poder institucional.

Depois de anos de arrogância e alienação, o jornalismo tradicional pode ter passado do ponto de ser salvo. É a hora de descobrir.

Bari Weiss pode entrar para a história como uma heroína moderna do jornalismo. O tempo dirá. Mas sua trajetória já simboliza algo essencial: a coragem de desafiar o jacobinismo woke sem ódio e reconstruir a confiança do público recolocando a imprensa a serviço do cidadão comum.

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Alexandre Borges

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