Agro vive a ressaca da inadimplência rural
Se Brasília achou que o agro seguraria o rojão fiscal do país para sempre, o balanço de 2025 veio provar que até a galinha dos ovos de ouro tem limite
Por Guto Gioielli*
O fechamento dos dados de 2025 trouxe um banho de água fria para quem achava que as porteiras do Brasil estavam blindadas. A inadimplência rural atingiu o maior patamar da história recente.
O motor do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro se engasgou no crédito, e a poeira levantada por esse tombo vai demorar a baixar.
A inadimplência recorde observada no fechamento de 2025 é o resultado da queda acentuada nas receitas combinada com a alta dos custos de produção.
As razões
Produtores fecharam safras recentes enfrentando preços de commodities (soja e milho, principalmente) em patamares muito mais baixos se comparados ao rali de 2021/2022.
O custo do pacote tecnológico (fertilizantes, defensivos e maquinário), adquirido em momento de alta do dólar e carregado com juros elevados, não acompanhou a queda dos preços dos grãos.
O volume do Plano Safra (crédito subsidiado) tornou-se insuficiente para o tamanho do agro brasileiro. Isso empurrou o produtor para as vias de mercado: Fiagros, CPRs (Cédulas de Produto Rural) financeiras, e CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio).
O resultado da inadimplência subindo, fez o mercado de capitais reagir:
- Aumento de Spreads: Os investidores passaram a exigir prêmios de risco muito maiores para comprar títulos do agro;
- Restrição de Liquidez: Fundos de investimento (Fiagros) enfrentaram resgates e tornaram-se consideravelmente mais seletivos. O dinheiro ficou mais caro e escasso;
- O “Roll-Over” Travado: A capacidade do produtor de rolar a dívida travou. Sem conseguir postergar o vencimento, o default (inadimplência) tornou-se inevitável para muitos.
Recuperação judicial
O Fenômeno das Recuperações Judiciais no Campo, com um dos dados mais alarmantes do fechamento de 2025, foi o salto vertical no número de pedidos de Recuperação Judicial por produtores rurais (pessoas físicas).
O agronegócio registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial no Brasil em 2025, um recorde histórico que representou um aumento de 56,4% em relação a 2024.
O setor concentrou cerca de 30% de todos os processos de recuperação judicial abertos no país. Os principais números e destaques do cenário incluem: 853 pedidos de produtores rurais Pessoa Física (PF) e 753 de produtores rurais Pessoa Jurídica (PJ) (SERASA)
A possibilidade de o produtor rural pessoa física pedir Recuperação Judicial (RJ) foi pacificada pela Lei 14.112/2020. O que era uma exceção jurídica virou uma ferramenta de defesa em massa em 2024 e consolidou-se em 2025.
“Apagão de insumos”
Se por um lado a RJ protege o patrimônio do produtor contra execuções imediatas, por outro, ela destrói o rating de crédito do tomador.
As tradings, revendas de insumos e bancos fecham as portas para quem entra em RJ.
Isso gera um “apagão de insumos” para as safras seguintes, arrastando o problema no tempo (a poeira que vai demorar a baixar).
Para entender a velocidade de recuperação desse cenário, os indicadores técnicos fundamentais são:
- A taxa de recuperação de crédito das revendas e cooperativas: Elas funcionam como o “banco real” do produtor via operações de barter. Se elas quebrarem, o sistema entra em colapso;
- A curva de juros futuros (DI): Juros longos altos inviabilizam a tomada de crédito para investimentos de longo prazo (maquinários etc.);
Mesa do consumidor
A engrenagem não está quebrada definitivamente, mas o agro brasileiro entrou em um ciclo de depuração. Apenas os produtores com excelente gestão de caixa e governança conseguirão acessar o crédito escasso que restou para desenhar a retomada.
O campo inadimplente significa menos investimento em tecnologia, menos compra de maquinário e, inevitavelmente, um repasse de custos que vai bater na mesa do consumidor.
Se Brasília achou que o agro seguraria o rojão fiscal do país para sempre, o balanço de 2025 veio provar que até a galinha dos ovos de ouro tem limite. Em 2026, a conta chegou — e não tem Pix governamental que resolva o estrago de curto prazo.
*Guto Gioielli é analista de investimentos (CNPI) e fundador do Portal das Commodities.
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