"Adolescência", uma tragédia contemporânea

09.10.2026

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O Antagonista
“Adolescência”, uma tragédia contemporânea
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Catarina Rochamonte
7 minutos de leitura 12.04.2025 17:01 comentários
Análise

“Adolescência”, uma tragédia contemporânea

Li e assisti algumas das várias análises disponíveis por aí. Eis uma interpretação com a qual concordo: Adolescência, da Netflix, é uma tragédia contemporânea

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Catarina Rochamonte
7 minutos de leitura 12.04.2025 17:01 comentários 6
“Adolescência”, uma tragédia contemporânea
Reprodução

Adolescência, a minissérie de quatro episódios, da Netflix, está fazendo sucesso. O motivo da grande repercussão pode ser o fato de que a produção toca em várias feridas abertas do mundo contemporâneo, vários pontos delicados, várias fissuras no tecido social com as quais aparentemente não estamos sabendo ainda como lidar.

Como, hoje em dia, quase nada passa incólume pelo estúpido processador dos cérebros ideológicos e militantes que costumam deturpar qualquer obra até transformá-las em teses favoráveis a seus limitados pontos de vistas, com Adolescência não foi diferente.

Inicialmente percebi, nas redes, o movimento de rejeição da série dentro da bolha da direita mais reacionária.

Nesse caso, a tentativa de cancelamento vinha acompanhada de pouca argumentação e uma fake news: a mesma Netflix, que costuma mudar a cor da pele de personagens icônicos, como fez com a branca de neve, por exemplo, teria retratado, dessa vez, o criminoso real negro (Hassan Sentamu, de 17 anos, que esfaqueou Elianne Andam, de quinze anos) como um menino branco de classe média e conservador.

Essa tentativa de desqualificar a série foi compartilhada por inúmeros perfis de direita, em vários países, inclusive no Brasil. A série, porém, não é um documentário sobre nenhum caso real específico, mas uma ficção que obviamente se inspira nos inúmeros casos reais de crimes violentos envolvendo adolescentes que aconteceram nos últimos anos no Reino Unido e no resto do mundo.

No outro extremo, temos a militância progressista, explorando exaustivamente a série como se se tratasse ali apenas da corroboração da ideia de uma “masculinidade tóxica”: o menino que esfaqueou a menina não é “mau”, é o resultado da sociedade estruturalmente machista, do pai bruto, brutalmente educado e da permissividade das redes sociais.

A série, porém, é maior do que o debate ideológico que se criou em torno dela. Li e assisti algumas das várias análises disponíveis por aí. Eis uma interpretação com a qual concordo: a série Adolescência, da Netflix, é uma tragédia contemporânea.

A tragédia, gênero literário clássico, que surgiu na Grécia, era profundamente marcada pela fatalidade, pelo confronto entre a vontade dos homens e a vontade dos deuses; esses últimos simbolizavam as forças desconhecidas, que estavam acima da compreensão humana, que não se deixavam racionalizar. Os conflitos entre razão e paixão, ética e desejo eram expostos em toda a sua crueza, induzindo à catarse do público, mas os dilemas morais apresentados não apresentavam uma solução clara.

Assim me parece que o enredo de Adolescência é trabalhado. Ou, pelo menos, foi assim que ele ressoou em mim. Um menino de 13 anos, Jamie, esfaqueou e matou uma sua colega de mesma idade. Durante todo o filme, nós, os espectadores, tentamos digerir, acomodar internamente esse fato.

Assim como Eddie, o pai do menino, passamos o começo do filme negando a realidade, acreditando nas palavras do garoto: “eu não fiz nada errado. Eu sou inocente”. Diante das provas cabais, passamos, então, a esperar uma explicação razoável, algo que justifique o ocorrido.

Muitos contextos são levantados: o bullying sofrido, a radicalização online, o ambiente escolar caótico e desrespeitoso, o machismo, o universo dos incels, a falta de vigilância, a agressividade latente do pai…todos esses contextos têm algum potencial explicativo, mas a conta não fecha. Parece faltar alguma peça nessa quebra-cabeça. De quem é afinal a culpa? Eis a questão.

Todos têm um pouco de culpa. A culpa é de todos. E se é de todos, não é de ninguém. Isso gera no espectador um profundo mal-estar. E por falar em mal-estar…Freud continua, em muitos aspectos, incontornável.

A civilização é um verniz, uma superfície. Nas suas entranhas, no psiquismo dos indivíduos que formam a coletividade, estão reprimidos instintos sexuais e agressivos profundos. Em “O mal-estar da civilização”, Freud trabalha o conceito de Thanatos, a pulsão de morte, o impulso destrutivo presente no ser humano.

A série deixa transparecer, principalmente na caracterização do ambiente escolar, uma sociedade fragilizada e neurótica. Jovens entrando em contato com seu universo interior em erupção sem encontrar nos adultos modelos, freios, valores claros, diretrizes morais firmes.

Mas esse caos é menos uma descrição do que vivenciamos do que a explicação que buscamos. Um jovem de treze anos, inteligente, de classe média e família normal esfaqueia a sua colega. Esperamos entender o porquê. Mas o mal é absurdo e o absurdo não tem explicação.

O primeiro passo para combater o mal é admitir que ele existe. Santo Agostinho negou a existência ontológica do mal, mas admitiu a existência do mal moral ou pecado. Ele é resultado da má escolha da vontade humana; é a privação do bem causada pelo uso incorreto da vontade pelo ser humano.

Todos nós somos livres, imperfeitos e por isso vulneráveis ao mal. Os adolescentes são mais vulneráveis ainda. Eles precisam de nós para lhes apontar o certo e o errado, o bem e o mal, para ajudá-los a solidificar valores, lidar com frustrações, entender o mundo, moldar seu caráter, formarem-se a si mesmos.

Entendo a importância de se discutir, a partir da série, o problema da misoginia, do bullying, das redes sociais, da radicalização, do hiato que existe entre essa geração totalmente digital e nós que nos formamos em um mundo ainda analógico.

O problema é que, no fundo, ninguém sabe muito bem como fazer isso e, normalmente, os especialistas que oferecem alguma panaceia para tantos problemas contemporâneos não são as pessoas mais confiáveis.

Não sei se há mérito ou demérito nisso, mas eu costumo optar por expor minha incipiência e limitação quando estou diante de algo que não consigo abarcar. Como mãe de adolescente, sinto-me, muitas vezes, perplexa e insegura diante da responsabilidade que essa função requer.

Abraço o meu filho muitas vezes, oriento, cuido, educo, brigo, beijo, vigio, alerto, mas sei que há muitas coisas que fogem ao meu controle. Preciso confiar nele, na sua força interior, na luz que ele traz em si e na luz que ele recebe do alto.

Apesar de todos os cuidados no ambiente doméstico, o futuro se abre diante de nós como um misto de ameaça e esperança.

Somos constantemente tensionados pela expectativa em torno da felicidade de nossos filhos. Esses filhos, porém, são indivíduos. Maduros ou não, estão no mundo. Caberá a eles trabalharem em si suas potencialidades e suas limitações.

O aspecto social reflete os indivíduos que somos e somos o que fazemos de nós mesmos. Nossos pais fizeram o possível; nós também estamos fazendo o nosso melhor. Será suficiente? Não sabemos.

Estamos todos como Eddie, o pai de Jamie, na cena final da série: desesperadamente agarrados aos ursinhos dos nossos filhos adolescentes, tentando reter um pouco mais a infância, a ingenuidade, a inocência, a pureza que se esvai.

Apertamos o ursinho contra o peito, querendo proteger com nosso corpo, com nossa própria vida aquele que agora precisaremos proteger à distância.

Para além da nossa presença física, a nossa proteção se dará doravante como eco das nossas palavras corretas em suas consciências, em um momento de dilema ético; como lembrança das nossas demonstrações inequívocas de afeto, em um momento de aguda angústia moral.

Eles sabem das nossas fragilidades e das nossas limitações. Eles perdoarão os nossos deslizes e nós deveríamos nos perdoar também. O nosso amor os acompanhará para sempre. Essa é a única proteção possível que estará sempre ao nosso alcance.

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Catarina Rochamonte

Professora e escritora, com graduação, mestrado e doutorado em Filosofia, e pós-doutorado na área de Direito.

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Comentários (6)

Clayton De Souza pontes

19.04.2025 08:27

Também busco educar meus filhos e torço pra que eles façam boas escolhas


Carlos Renato Cardoso Da Costa

13.04.2025 18:08

A tecnologia potencializa o perigo da vida por acelerá-la e encurtar distâncias. Os riscos que cada jovem enfrentará serão menores ou mais fácil de ultrapassar caso lhe sejam dadas ferramentas para refletir e agir segundo um padrão moral erigido no seio FAMILIAR.


Washington

13.04.2025 12:17

Não assisti, mas o artigo mostra que é coisa muito séria.


Beth 11

13.04.2025 11:43

Parabéns Catarina por mais uma bela análise


Marcia Elizabeth Brunetti

13.04.2025 08:59

Gosto muitos das críticas da Catarina. sempre bem embasadas. E tenho a mesma visão. Fui professora de adolescentes universitários e encerrei minha carreira por não conseguir mais fazer o papel de educadora. Foram 35 anos de trabalho e, por isso, tive oportunidade de conhecer a geração sem redes sociais e internet. Era muito bom lecionar e os alunos respeitavam os professores. Realmente me senti incapaz de lidar com a geração TikTok.


João Bento Corrêa Lima

12.04.2025 21:02

Um dilema de hoje - Diante dos perigos que cercam nossos adolecentes nas redes sociais; e considerando que somos de uma geração "analógica"; nos dias atuais, não estamos preparados para protegê-los. É de tirar o sono!


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