A tragédia de Messias é um mero detalhe
Rejeição do burocrata merecia ser contada por Sófocles com patrocínio da Petrobras, mas fica pequena perto da desgraça de Lula e do impeachment preventivo no STF
A voz embargada logo no início da sabatina, ao falar sobre sua origem humilde e ressaltar o avanço na burocracia de Brasília, já indicava que Jorge Messias (foto) temia pelo pior.
A rejeição de sua indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF) já parecia traçada quando o relator do caso na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, Weverton Rocha (PDT-MA), conclamou, também no início da sessão, os colegas a não encerrar “a carreira de um jovem que começou sem padrinho político, sem ninguém botando a mão por cima, só ele, Deus, a vida, e ele lutando para passar em seu concurso, para chegar onde ele chegou”.
Talvez, do ponto de vista da burocracia brasileira, não haja em Brasília, hoje, ninguém mais moldado para ser premiado com um cargo vitalício do que Messias — o que está longe de significar que isso seja bom. Mas o fato é que a tragédia de Bessias não tem par na história da administração pública nacional e mereceria ser contada por Sófocles ou Eurípedes — com patrocínio da Petrobras.
Lula
O advogado-geral da União de Lula não passou apenas em concursos. Ele serviu fielmente a um grupo político, e de forma tão intensa que foi apresentado ao Brasil inteiro como “Bessias”, por um erro de pronúncia, ao levar um documento de Dilma Rousseff para Lula na tentativa de proteger o petista da prisão durante os anos da Lava Jato.
Esse histórico, que, em outras épocas, teria contado a favor da indicação de Messias — e contou a favor de alguns dos ministros que compõem o STF atualmente —, influiu ao contrário. O valor de Lula despencou em Brasília e as vontades do presidente passaram a ter caráter negativo.
O petista não percebeu isso — ou não quis aceitar — e foi derrotado de forma humilhante num governo que já tinha acumulados derrotas o bastante para saber que não deveria se arriscar tanto. Essa é uma queda monumental.
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Impeachment preventivo
A outra grande história da tragédia de Messias diz respeito ao próprio STF, que assistiu ao impeachment preventivo de um ministro. Aliás, a ironia — também trágica, como costumam ser a ironias no Brasil — é que seus membros não apenas assistiram, mas participaram do processo.
É como se Alexandre de Moraes, Flávio Dino e outros dos ministros mais dispostos e enrolados do tribunal tivessem entregado a cabeça de Messias antes mesmo de ele virar um dos seus.
Esse impeachment preventivo pode atenuar o clima, que se armava, para um impeachment de fato no Supremo, caso os ministros do STF estejam dispostos a jogar o jogo a partir da nova configuração das peças.
Mas a rejeição de Messias é, também, a prova de que o STF pode sangrar. Seria, sob esse ponto de vista, o primeiro passo em direção ao golpe mais duro que se pode impingir ao Supremo.
Mundo real
Quem ainda alimenta ilusões sobre convicções ideológicas em Brasília recebeu nesta semana mais uma demonstração de como as coisas funcionam no mundo real. Tudo depende, antes de tudo, do acaso, e, depois, da capacidade dos envolvidos de lidarem com o imponderável.
Assim como ocorreu com a Operação Lava Jato, o escândalo do Banco Master se impôs como guia dos destinos em Brasília. Os envolvidos terão de repetir o truque para escapar, mas, desta vez, a plateia está muito mais atenta aos ilusionismos e com bem menos paciência do que antes.
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Comentários (1)
Clayton de Souza Pontes
02.05.2026 17:15A aprovação do Bessias aprofundaria o aparelhamento petista do STF, como provam as suas recentes ações na AGU, que foram brilhantemente descritas pela Madá e pelo Senador Rogério Marinho, esse na própria sabatina