A sombra de Zanin nas eleições
Intervenção do ministro do STF abriu espaço para a contestação do resultado das eleições pela campanha de Flávio Bolsonaro
Com 64 milhões de votos, 10 milhões a mais que no primeiro turno, Lula venceu a disputa pela presidência neste domingo, numa virada surpreendente. Há boas explicações para esse resultado. Mas uma intervenção do ministro do STF Cristiano Zanin, prorrogando em duas horas o horário de votação em todo o país, lançou uma sombra sobre as eleições. Por causa dela, Flávio Bolsonaro se negou a reconhecer a derrota e afirmou que vai brigar na justiça pela a anulação do resultado.
O que explica a votação de Lula
Há pelo menos x possíveis razões para que Lula tenha dado um salto entre o primeiro e o segundo turnos.
- Populismo eleitoral: o petista não hesitou em usar a máquina pública para buscar a reeleição. Ao longo das três últimas semanas, ele conseguiu aprovar no Congresso o fim da jornada de trabalho 6 x 1; lançou o programa Desenrola 3, que vai comprar dívidas antigas e pagar 5 mil reais aos MEIs; antecipou o pagamento do Bolsa Família com valores reajustados; prometeu ônibus de graça nos fins de semana e bolsas de 700 reais para universitários. Tudo isso se juntou a medidas anteriores, como a isenção de imposto de renda para quem recebe até cinco mil reais por mês e o anúncio de que canetas emagrecedoras serão oferecidas pelo SUS.
- Campanha do medo: assim como fez com Marina Silva em 2014, o PT trabalhou com afinco e de maneira eficiente para mostrar Flávio Bolsonaro como uma ameaça a direitos adquiridos. O senador adotou uma postura defensiva na reta final da eleição – isso ficou bastante claro no debate da Rede Globo – procurando convencer os eleitores de que não aboliria os aumentos reais do salário mínimo, não congelaria benefícios previdenciários e pensões, nem promoveria o retorno da jornada 6 x 1.
- Mobilização nas redes e nas ruas: o deputado federal André Janones conseguiu dar a Lula uma presença digital que o petista jamais teve. O canal de WhatsApp Exército do Lula distribuiu tarefas diárias aos seus seguidores e chegou à véspera do segundo turno com 10 milhões de usuários e alto engajamento. Enquanto isso, a juventude de esquerda foi às ruas em diversas capitais. Desde que os sindicatos ligados ao PT perderam recursos e capacidade de arregimentar manifestantes, há cerca de uma década, o partido não conseguia reunir multidões como a que esteve na avenida Paulista, em São Paulo, no sábado, 24.
Efeitos
1. Combinada com a alta rejeição que Flávio Bolsonaro já trazia de largada, a campanha do medo petista parece ter sido eficiente em limitar o crescimento do adversário. O senador obteve 56,1 milhões de votos no primeiro turno, contra 53,8 milhões de Lula. No segundo, Flávio ampliou seu capital em 3,7 milhões de votos, totalizando 59,8 milhões. O presidente saltou para 64,2 milhões de votos.
2. Historicamente, por seu perfil social e demográfico, o eleitor do PT tende mais à abstenção. Além disso, numa eleição em que 20 governadores já haviam sido eleitos no primeiro turno, poderia haver menos estímulo para que as pessoas saíssem de casa para votar neste domingo. Por isso a virada de Lula parecia tão difícil. Ao final, no entanto, a abstenção entre o primeiro e o segundo turnos caiu de 33,4 milhões de eleitores (21,0%) para 30,5 milhões de eleitores (19,2%). Mais uma vez o esforço petista – desta vez de mobilização – parece ter sido eficaz.
Mas…
A sombra
Os números de abstenção sofreram impacto da decisão de Cristiano Zanin que, de maneira inédita, estendeu a votação por duas horas em todo o Brasil. A ordem foi proferida pouco depois das 17h, quando inúmeras seções eleitorais pelo país (são quase 500 mil) já haviam fechado as urnas. Alguns dados já haviam chegado ao TSE e a divulgação dos resultados já estava em andamento. Por isso, a ordem de Zanin causou confusão e ele teve de divulgar um esclarecimento por volta das 18h, dizendo que a prorrogação só valia para seções que ainda estavam abertas quando a decisão original foi divulgada.
É impossível saber, por enquanto, quantas pessoas que não teriam participado da eleição de outra maneira votaram no tempo extra. O impacto da intervenção de Zanin ainda terá de ser mensurado. Mas ela se somou a um repertório de interferências do STF em questões eleitorais que jamais havia ocorrido. Esse é o ponto em que a campanha de Flávio Bolsonaro deve se apoiar para pedir a anulação do segundo turno. Zanin não atua no TSE. Ele respondeu a uma representação do PT que chegou ao STF às 16h29 e foi distribuída ao seu gabinete, por sorteio, às 16h33.
É fato que a questão da prorrogação ficou horas o TSE sem ser decidida. A primeira petição para que o horário de votação fosse estendido no país todo chegou ao tribunal às 15h, protocolada pelo PT, que alegou que problemas no transporte público haviam difcultado o voto em diversas localidades. Pouco mais tarde, às 15h27, um pedido semelhante foi apresentado pela campanha de Flávio Bolsonaro. Às 17h, a corte ainda não havia se manifestado. Ainda assim, é uma anomalia que um ministro do STF tenha atropelado a competência da Justiça Eleitoral para tomar uma decisão de tanto impacto.
Cabe lembrar que Zanin foi advogado pessoal de Lula, que o indicou ao STF. Num país polarizado, isso aumenta a sombra desse episódio.
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