A politização de tudo
Quando até mesmo um erro médico é tratado como marcador ideológico, o que sobra além do fanatismo?
Perdida entre as ameaças de Trump à sanidade mundial e as ameaças do Centrão à institucionalidade brasileira, encontro a seguinte notícia: “Polícia prende médico suspeito de causar morte de paciente no Rio”. O lead me explica: o referido médico é acusado de provocar a morte de uma mulher de apenas 28 anos, perfurando seu estômago em um procedimento estético malsucedido. A família acusa negligência. O erro custou 5 mil reais e uma vida inteira.
Eu poderia criticar a imperícia de açougueiros fantasiados de doutores. Poderia especular sobre a qualidade dos cursos de medicina. Poderia lamentar que moças e moços cedam às pressões estéticas de uma sociedade cujos valores estão cheios de rugas, sulcos, olheiras. Poderia relembrar que Hipocrates jurou que um médico “nunca [deveria] para causar dano ou mal a alguém”. Poderia olhar para os céus e me perguntar o porquê de tantos azares.
Poderia tudo isso, mas resolvi rolar a página e espiar os comentários. Triste (ainda que pedagógica) decisão.
Omito os nomes dos ilustres autores que, presumo, bem gostariam da fama. Mas transcrevo como li sem edição.
“Alguma dúvida que esse desfilava de camiseta patriota golpista?”
Para o primeiro, o erro médico é uma inequívoca demonstração de reacionarismo. Um médico que perfura o estômago de uma paciente só pode ser bolsonarista. Dúvida? Nenhuma! Todos sabemos que o patriotismo não só é o último refúgio do canalha, como o último subterfúgio do profissional da saúde. Eles querem matar, matar, matar.
“Seria mais médico com camisa do MST e adesivo do Lule?”
Para o segundo, o erro médico é indisfarçável confissão de progressismo. Um médico que perfura o estômago de uma paciente só pode ser petista. Dúvida? Nenhuma! Todos sabemos que MST significa, para os iniciados, Médicos Sem Ternura, e que não só eles querem matar, matar, matar, como fazem questão de matar os pronomes masculinos e colocar os pronomes neutros em seu lugar.
Eu não devia fazer graça com a desgraça, mas a piada não é vã.
Uma das teorias a respeito do humor é a de Freud, para quem o riso é uma espécie de mecanismo de defesa, uma das possíveis formas de sublimação de um sentimento agressivo em sua versão socialmente aceita. A mente está prestes a sucumbir em desprazer, está acumulada de violência, está enfastiada de interdições, e então explode no chiste, na piada, na gracinha. No ensaio O chiste e sua relação com o inconsciente, rir pode não ser o melhor remédio, mas, às vezes, é o analgésico que se tem à mão.
É por isso que não consigo fazer outra coisa senão rir – e sei o quanto de sujeira esse riso carrega – de tamanha estupidez, como a dos hipnotizados autores dos comentários.
Felipe Moura Brasil, no texto O julgamento das mentes binárias, apontou que o binarismo do nós-contra-eles, do branco-ou-preto, do a-favor-ou-contra, é uma das manifestações de um curto-circuito cognitivo que sabota a inteligência e, com ela, as condições de possibilidade para o debate público e a consciência cívica.
Outra manifestação dessa pane intelectual é o reducionismo cognitivo. A desidratação de todos os assuntos, valores, problemas. O ultraprocessamento das camadas conceituais até que só restem partículas ideológicas sem qualquer valor nutritivo à vida em sociedade e ao convívio com os semelhantes.
Nilos de tinta têm sido usados para imprimir livros a respeito da polarização. Mas talvez o problema primário seja a polititização.
A politização de tudo – da Graça divina ao assassinato, da sorte no amor ao erro médico – nos transforma em reprodutores passivos de discursos que sequer compreendemos. Quando tudo é politizado, a própria política é inviável.
Perdemos a capacidade de chorar quando é para chorar, de rir quando é para rir. A morte alheia – de uma moça, de um ativista, de um conservador, de um progressista – só nos serve enquanto servir à manutenção das nossas paixões políticas.
Paixões políticas…
A respeito delas, disse Nelson Rodrigues – que seria apedrejado por pedras à direita e à esquerda:
“Nada mais cretino e mais cretinizante do que a paixão política. É a única paixão sem grandeza, a única que é capaz de imbecilizar o homem.”
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Comentários (3)
Rosa
16.09.2025 19:28Que grande texto!
Luiz Claudio Rezende
16.09.2025 19:21Nada mais parecido que um petista do que um bolsonarista.
Andre Luis Dos Santos
16.09.2025 18:19Excelente! E uma triste realidade. E a classe politica quer mais e que as coisas continuem assim.