A Meta falhou e o TSE também
Plataformas digitais podem influir nas eleições, mas o medo dessas gigantes não justifica o cerceamento do discurso politico
A Meta falhou na aplicação das regras estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para as eleições de 2026. A própria empresa reconheceu esse fato.
Isso confirma que as plataformas digitais, deliberadamente ou por erros de sistema, podem favorecer a circulação de conteúdos de uma candidatura em detrimento de outra.
Seria um erro lógico, no entanto, saltar daí para a conclusão de que a regulamentação criada pelo TSE é a melhor possível.
As plataformas precisam responder pelo poder que exercem sobre a circulação de informações? Sim.
A Justiça Eleitoral ainda precisa se livrar da mania de querer controlar o discurso político? Sim, igualmente.
Falhas
As falhas da Meta suscitaram suspeitas de favorecimento a Flávio Bolsonaro. A empresa admitiu problemas técnicos, mas nega qualquer intenção de interferir na eleição.
O Ministério Público Eleitoral examinou o caso.
O parecer divulgado nesta quinta, 22, apontou indícios de quebra de isonomia no tratamento das candidaturas por sistemas automatizados.
Também registrou que a Meta cumpriu apenas em parte as medidas impostas na semana anterior pelo TSE para assegurar tratamento igual às candidaturas da esquerda e da direita.
A empresa corrigiu procedimentos, incluindo a reversão de restrições publicitárias e a suspensão de anúncios irregulares. Mas algumas das 17 demandas só foram implementadas pela metade.
Outra informação relevante sobre o caso vem de um estudo do Instituto Democracia em Xeque. Ele aponta discrepâncias significativas na maneira como as diversas plataformas digitais implementaram as restrições do TSE.
O TikTok, por exemplo, registrou queda de 95% nas visualizações dos perfis de candidatos durante a campanha.
No Instagram, pertencente à Meta, não houve redução equivalente.
Qual regulamentação?
Até agora, não surgiu prova cabal de que a Meta agiu de má fé. Mas as falhas documentadas, inclusive no cumprimento de determinações judiciais, apoiam a tese de que alguma espécie de regulamentação é necessária. Qual?
A redução do alcance orgânico dos perfis políticos está no centro da estratégia adotada pelo TSE.
As plataformas foram obrigadas a excluir os perfis oficiais dos candidatos de seus sistemas de recomendação.
A ideia era impedir que os algoritmos (ou as empresas por trás deles) escolhessem quais conteúdos mereciam ou não ser vistos.
Em nome dessa finalidade, no entanto, outros tipos de desigualdade entre os candidatos foram toleradas ou até mesmo ampliadas.
Criou-se uma barreira para a renovação política.
Nova filosofia
Para muitos candidatos de primeira viagem, o principal patrimônio político é o perfil que construíram nas redes sociais. Foi ali que defenderam ideias e estabeleceram uma relação direta com os eleitores.
Ao entrar na disputa, eles foram impedidos de tirar proveito máximo dos seus perfis e de ampliar seu alcance.
Enquanto isso, políticos tradicionais, além de contar com “recall”, costumam ter acesso privilegiado a estruturas partidárias.
Campanhas com recursos financeiros puderam recorrer ao impulsionamento pago nas redes sociais, que continuou permitido.
Só isso já deveria ser suficiente para forçar o TSE a mudar de filosofia nas próximas eleições.
A integridade eleitoral exige transparência, responsabilização das plataformas e combate a práticas ilícitas. Não exige que a Justiça Eleitoral determine como os cidadãos devem descobrir conteúdos políticos.
Restringir a circulação de discurso político legítimo não pode ser o meio de evitar que as gigantes digitais influenciem as eleições.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)