A história em quadrões de Mainardi
Permanecer existindo para aqueles que ainda não morreram é o máximo que se pode almejar em vida
Mesmo a obra de arte mais intima — aliás, principalmente a obra de arte mais íntima — fala muito mais sobre quem a contempla do que sobre seu autor. Essa é a verdadeira medida do tamanho do quadro, do livro ou da música, para além de qualquer teoria estética.
Ainda estou longe da morte. Ela pode estar me esperando na esquina, mas, como não sei, não sinto medo. Ou finjo não sentir medo, todos fingimos. Já foi mais fácil. Vai ficando mais difícil ignorar a próprio fim com o tempo, à medida que ele se aproxima.
Diogo Mainardi, criador de O Antagonista, escreveu uma história em quadrinhos (ou uma fotonovela, uma graphic novel) para lidar com a morte — a própria e as de seu pai, sua mãe e seu irmão — escorando-se em quadros de Ticiano, Rubens e Rembrandt enquanto passeia com o filho Nico e o cão Palmiro por Veneza.
Parece preguiça, mas a opção por se expressar por frases curtas não passa de mais uma exibição pornográfica — para entrar no clima de Ticiano — de sua absurda capacidade de síntese. Meus Mortos: um autorretrato (Record) é, ao mesmo tempo, uma tentativa de se consolar diante da aproximação da morte por todos os lados e um desafio à brevidade da vida, como toda obra de arte.
Permanecer
Cada quadro exposto no livro — e principalmente aqueles que, mesmo consumidos pelo fogo, deram um jeito de sobreviver por meio de réplicas feitas por seus admiradores décadas depois — serve de manifesto contra a morte, de monumentos à eternidade.
Ticiano continua existindo — mesmo que não se saiba onde foi parar seu corpo, vítima da peste no século 16 —, e com ainda mais vida após a publicação de Meus Mortos, assim como ocorre com Van Dyck, Cézanne e Lucian Freud, outros pintores citados e analisados no livro.
Essa existência póstuma pode não ser o bastante para o próprio Ticiano, mas enche de vida quem lê o livro e também o próprio autor — é possível sentir isso enquanto se vira as páginas, o vigor de quem percebe a aproximação da morte, mas tem a consciência de que também a desafia, de que vai permanecer vivo após morrer, como Ticiano, Rubens e Rembrandt, por mais que Mainardi se lamente obsessiva e charmosamente de ter fracassado em suas pretensões e tente não se levar a sério (é o ideal).
Permanecer existindo para aqueles que ainda não morreram é o máximo que se pode almejar em vida. Permanecer como uma lembrança boa, por pior e mais difícil que a vida tenha sido, por mais erros que se tenha cometido, por mais dor que se tenha sentido ou causado.
Isso vale para a família e os amigos em primeiro lugar. E basta, e dura anos, talvez um século ou dois, para quem tiver muita sorte. Para sobreviver além disso, é preciso pintar como Ticiano, Rubens e Rembrandt. Ou escrever como Mainardi.
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Comentários (4)
Sandra Machado
14.12.2025 21:03Eu aprendi muito sobre Arte, vida e sentimento de perda, após ter lido o livro do Diogo .
ALDO FERREIRA DE MORAES ARAUJO
01.12.2025 18:59O pintor Ticiano está sepultado na basílica Santa Maria Gloriosa dei Frari em Veneza.
Liana
28.11.2025 16:21Parabéns Rodolfo Borges, o texto é muito bom! Esqueceram de te dar os créditos.
Liana
28.11.2025 16:19Nao tem autoria o texto?