A futurista Amy Webb aconselha: prepare-se para o caos
"Toda civilização que realmente importou foi construída por pessoas que decidiram, no meio do medo e da incerteza, que tinham capacidade de ação"
Ela estava nos convidando para um funeral. Ao som de Hallelujah, adentramos um auditório decorado com corbélias fúnebres. Fomos recepcionados por pessoas cabisbaixas que nos davam as condolências ao entregar um broche com o símbolo do luto.
Amy Webb (foto) chegou ao palco e exibiu um vídeo em homenagem ao falecido, como é tradicional aqui nos Estados Unidos. Descobrimos então que estávamos nos despedindo do seu “Tech Trends Report”, o tradicional relatório de tendências que há mais de uma década ela lança no South by Southwest (SXSW).
A análise de tendências tornou-se obsoleta. Numa era em que tantas inovações isoladas surgem o tempo todo e poucas vingam, a nova metodologia avalia convergências delineando três grandes mudanças na sociedade: Ampliação Humana (Human Augmentation), Força de Trabalho lIlimitada (Unlimited Labor) e Terceirização Emocional (Emotional Outsourcing).
Os super-humanos
Se a falta de acesso à educação de qualidade já era um fator de segregação social, a batalha por igualdade de oportunidades está prestes a ficar ainda mais utópica.
Em 2024, Amy Webb já dizia que estávamos entrando num novo Superciclo Tecnológico, alavancado pela evolução simultânea da Inteligência Artificial, da Biotecnologia e dos Dispositivos Vestíveis:
“Os equipamentos vestíveis vão deixar de ser apenas relógios ou pulseiras. Eles vão se transformar em connectables — uma rede inteligente de dispositivos e sensores que coletam dados do mundo físico, do nosso corpo e do ambiente, alimentando a IA com informações impossíveis de obter só com texto ou redes sociais.”
Naquele momento eu já usava o Oura Ring, um anel que analisa o tempo e a qualidade do meu sono. Os relógios inteligentes já são meus companheiros há anos, medindo a performance na academia. E há oito meses adquiri os óculos inteligentes Ray-ban Meta.
Sempre tive o sonho de poder apenas piscar e registrar uma imagem em foto, principalmente quando estava andando de bicicleta. Meu desejo foi praticamente realizado: não é através de um piscar de olhos, mas hoje posso fotografar ou filmar clicando na haste dos óculos ou apenas por comando de voz.
Sou a personificação de que a previsão da futurista há dois anos (“em breve todos estaremos usando vários vestíveis”) é a pura realidade.
Ampliação Humana
Foi exatamente ali que ela previu o que hoje, em 2026, chama de Ampliação Humana: vestíveis, Interface Cérebro-Computador, edição genética, exoesqueletos (estruturas vestíveis que ampliam as capacidades físicas do corpo humano), implantes neurais e sistemas de sono otimizados por IA criando humanos absolutamente superiores.
A barreira ou divisão que se forma será biológica e permanente. Os super-humanos não são mais ficção científica: quem tiver acesso prioritário a essas tecnologias não será apenas “mais produtivo”, mas objetivamente superior: mais forte, mais rápido, mais focado, mais resiliente. Amy foi direta no palco:
“A desigualdade biológica não é reversível como a desigualdade de renda ou de educação.”
Optar por não se otimizar pode virar desvantagem competitiva em contratações, promoções e até na própria sobrevivência econômica. A nova “classe” não é mais rica ou pobre, formada ou não formada. É a dos super-humanos versus humanos de fábrica.
Força de Trabalho Ilimitada
A segunda grande convergência é a Força de Trabalho Ilimitada.
Robôs humanoides avançados, agentes de IA autônomos e fábricas “lights-out” estão criando mão de obra infinita que não dorme, não reclama, não exige salário e não faz greve.
Pela primeira vez na história, o crescimento econômico se desconecta completamente da necessidade de trabalho humano em escala.
Empresas poderão produzir, inovar e atender clientes 24 horas por dia, sete dias por semana, sem limitação de número de funcionários.
O contrato social que conhecemos há séculos, salário como medida de valor, entra em colapso.
Amy questionou o auditório: quando a produção explodir sem gerar empregos equivalentes, como vamos distribuir renda, propósito e dignidade para bilhões de pessoas?
Terceirização Emocional
A terceira convergência: Terceirização Emocional.
Milhões de pessoas já delegam terapia, companheirismo, validação e até orientação espiritual a inteligências artificiais. Há pessoas se casando com parceiros criados por Inteligência Artificial.
O que antes exigia relacionamentos humanos complexos e demorados agora se torna um serviço escalável e personalizado.
Esta intimidade entre humanos e a IA gera um desafio alarmante: surge a dependência emocional de plataformas que podem ser ajustadas para influenciar compras, votos e comportamentos.
A solidão virou mercado, a empatia virou mercadoria. Quem controla as emoções controla as decisões mais íntimas das pessoas.
Após explodir nossas cabeças com o anúncio de toda essa distopia, Amy encerrou sua apresentação:
“Eu comecei hoje com uma eulogia e vamos terminar com um sermão.”
Preparação para o caos
Assim veio a declaração final, em tom quase bíblico, da futurista visivelmente irritada e determinada:
“Estou cansada de pessoas poderosas tomando decisões de curto prazo por medo, ego ou estupidez. Se você se preparar para o caos e adotar uma visão de longo prazo, ficará bem. Às vezes você tem que queimar o que construiu para dar espaço ao que o futuro exige. Toda civilização que realmente importou foi construída por pessoas que decidiram, no meio do medo e da incerteza, que tinham capacidade de ação. Você tem autonomia. Use-a.”
Esta foi a quarta vez que assisti a uma palestra da Amy Webb. Sempre saio da sala absolutamente zonza com tanta informação, porque as apresentações dela são muito intensas.
Ela fala rápido e apresenta uma quantidade absurda de dados, conclusões e previsões.
O tom catastrófico dela já é usual, assim como a minha sensação de ter levado um soco no estômago ao deixar a sala.
Desta vez, o incômodo foi ainda maior.
Abismo
Se a sociedade atual já não dá conta dos desafios de desigualdade, como lidaremos com o abismo entre os super-humanos e os que não puderem bancar os aperfeiçoamentos?
Como haverá ocupação e renda para uma força de trabalho pouco qualificada que se tornará desnecessária para a indústria?
Qual será o apelo das relações sociais, sempre cheias de atritos, se pudermos apenas nos relacionar com máquinas que nos escutam, nos acolhem e nos enaltecem?
Como Amy exaltou, temos autonomia. Se investirmos nos relacionamentos reais que só nós sabemos construir, o futuro poderá ser mais humano.
Precisamos resgatar e valorizar as conexões verdadeiras, ou seremos os últimos humanos de fábrica a aplaudir o próprio funeral.
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