A estupidez autoritária da ideologia de gênero já foi longe demais

28.10.2026

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O Antagonista
A estupidez autoritária da ideologia de gênero já foi longe demais
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Catarina Rochamonte
6 minutos de leitura 10.06.2024 16:02 comentários
Análise

A estupidez autoritária da ideologia de gênero já foi longe demais

É estarrecedor o grau de servilismo ideológico das mais diversas instituições e dos mais diversos setores a uma militância identitária autoritária que quer impor sua visão amalucada de mundo modificando a linguagem, censurando palavras e criminalizando opiniões

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Catarina Rochamonte
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A estupidez autoritária da ideologia de gênero já foi longe demais
Reprodução/X

A fim de manter a cobertura dos jogos olímpicos de Paris sob o cabresto do politicamente correto, o Comitê Olímpico Internacional (COI) anexou ao documento “Gender-equal, fair, and inclusive representation in sport” páginas de orientações específicas para o trato dos jornalistas com relação a atletas transgêneros, não binários e intersexo.

O documento dá a entender, no início, que a mulher é o foco principal das orientações para uma cobertura jornalística mais equilibrada e equânime, com quebra de estereótipos e de preconceitos. Avançando um pouco na leitura, porém, descobrimos que o documento abrange “as mulheres em toda a sua diversidade”, incluindo e focando as mulheres trans, isto é, os homens, que não deverão ser chamados de homens e que deverão ter toda a cobertura generosa dedicada às mulheres.

Isso ilustra como as políticas de igualdade de gênero, que visavam antes combater as disparidades de tratamento entre mulheres e homens, foram capturadas pela militância LGBTQIA+, a despeito das injustiças que essa captura acarreta para as mulheres.

Com o pretexto de “oferecer algumas definições-chave, boas práticas e considerações para promover uma comunicação mais precisa, responsável, respeitosa e inclusiva” o COI impõe à cobertura dos jogos uma linguagem identitária que vai até o extremo de orientar a negação deliberada da realidade.

Classificar atletas mulheres trans como “biologicamente homem” é considerado “problemático” no relatório do COI; os termos “nascido homem” ou “geneticamente homem” também são rechaçados: “é sempre preferível enfatizar o gênero real de uma pessoa em vez de potencialmente questionar sua identidade ao se referir à categoria de sexo que estava registrada em sua certidão de nascimento original”, explica o documento.

Que vocabulário sobra para o comentarista esportivo que quiser informar que a pessoa que porventura venceu outras mulheres em uma prova de levantamento de peso ou outra prova qualquer é, na verdade, um homem? Nenhum. Inclusive há uma diretriz para que se substitua a expressão “identifica-se como mulher” por simplesmente “é mulher.”

Paradoxalmente, esse documento cheio de clichês, que atesta servilismo à agenda radical identitária, vai na contramão das últimas decisões das principais federações olímpicas como a do atletismo, da natação e do ciclismo, que proibiram a competição, na categoria feminina, de mulheres transgênero que passaram pela puberdade masculina.

Anteriormente, o COI tinha diretrizes em vigor que permitiam que atletas trans competissem se os seus níveis de testosterona estivessem abaixo de 10 nanomoles por litro um ano antes da competição, mas a revisão das políticas para transgênero nos esportes olímpicos nos últimos dois anos acrescentou que as mulheres trans devem ter concluído a sua transição de gênero antes dos 12 anos.

Se, por um lado, essa última restrição protege as atletas contra injustiças na disputa desportiva, a própria indicação de normalização da possibilidade de transição de gênero em crianças é um atestado da falência moral de uma época.

Crianças usadas como cobaias de uma militância perversa

O ativismo trans tem empurrado, em quase todo o mundo livre, mas principalmente na Europa, crianças para tratamentos experimentais a fim de corroborar uma visão de mundo distorcida e doentia.

O suposto aumento de crianças e jovens que se identificam como trans é menos um fato empiricamente verificável ou espontâneo e muito mais o resultado da propaganda massiva e de uma educação sugestiva e indutiva que busca provocar confusões em termos de gênero no quadro do desenvolvimento infantil.

Em muitos países europeus – e de modo mais alarmante no Reino Unido – existem ativistas transexuais em todos os níveis do serviço de saúde e de educação.

Em 2019 um jovem escocês de 17 anos chamado Murray Allan foi suspenso por duas semanas da escola por afirmar que “existem apenas dois gêneros”. Na conversa, gravada por Allan, seu professor lhe disse para guardar a sua “opinião para a sua própria casa”, porque “dizer que não existe outra coisa senão homem ou mulher não é inclusivo”.

No ano passado, foi registrada e divulgada a reação histérica de uma professora de uma escola de East Sussex, condado do sudeste da Inglaterra, no Reino Unido que, ao ser confrontada por uma garota de 13 anos, que não entendia como alguém poderia se identificar como sendo do sexo oposto, respondeu de modo grosseiro que era “desprezível” afirmar que só existem dois gêneros: “Existem muitos gêneros. Há transgênero, há agênero – pessoas que não acreditam que tenham gênero algum”, explicou a educadora visivelmente irritada, ameaçando em seguida denunciar a menina a funcionários superiores.

Professores têm escandalosamente punido crianças por declararem fatos biológicos e têm abusado da sua posição como professores para promover uma ideologia nefasta, encorajando crianças vulneráveis a questionar a sua identidade de gênero. Profissionais de saúde, por sua vez, ao serem procurados pelas crianças confusas quanto ao gênero, encorajam o uso de bloqueadores da puberdade que acabam sendo um caminho irreversível até a cirurgia. É um ciclo vicioso, aberrante e criminoso que precisa acabar.

O controle da linguagem

Há poucos dias, a Sociedade Canadense do Câncer pediu desculpas por usar o termo “colo do útero” em uma página da web dedicada aos exames de câncer do colo do útero para membros da comunidade LGBTQ+. Na página, a organização afirmou reconhecer “que muitos homens trans e pessoas não binárias podem ter sentimentos confusos ou se sentirem distanciados de palavras como ‘colo do útero’”. A instituição admitiu, em uma seção intitulada “Words Matter”, que alguns membros da comunidade podem preferir usar outros termos, como “buraco frontal”.

É estarrecedor o grau de servilismo ideológico das mais diversas instituições e dos mais diversos setores a uma militância identitária autoritária que quer impor sua visão amalucada de mundo modificando a linguagem, censurando palavras e criminalizando opiniões.

Recentemente, em uma conversa com algumas pessoas lúcidas, ainda não cooptadas pela mentalidade woke que aparentemente vai conquistar o mundo, descobri que algumas escolas, aqui mesmo no Brasil, eliminaram da escolinha das crianças a tradicional festa do dia das mães, a fim de não ferir as susceptibilidades dos novos formatos de família e preparar as crianças para acolher as diferenças.

Tudo isso é uma estupidez sem tamanho. Não me ocorre outra explicação para que isso esteja sendo aceito com naturalidade a não ser constatar que o processo de estupidificação em massa promovido pela cultura woke está dando certo.

Leia mais: Wokismo – o destrutivo tsunami ideológico que ameaça o Ocidente

J.K. Rowling contra a tirania dos ideólogos de gênero

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Catarina Rochamonte

Professora e escritora, com graduação, mestrado e doutorado em Filosofia, e pós-doutorado na área de Direito.

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