A era do PT acabou, diz Flávio. E agora?
Se o antipetismo funciona como motivação para inúmeros eleitores, o que acontece quando ele sai da equação?
Flávio Bolsonaro comemorou seu resultado nas eleições deste domingo dizendo que “a era do PT acabou”.
Ele provavelmente está certo.
Lula saiu do primeiro turno em desvantagem e terá dificuldade em reverter a situação.
Para tanto, precisa atrair às urnas uma parcela dos 24% de eleitores que se abstiveram, um recorde.
Ou conquistar um grande número dos 8% de votos que couberam a Augusto Cury, Ronaldo Caiado e Renan Santos.
Isso implica despertar entusiasmo em gente que não vê um bom motivo para reelegê-lo. Ou então fomentar o medo – fazer de Flávio Bolsonaro um bicho-papão.
Os eleitores desaprovam o governo Lula 3, como as pesquisas já vinham mostrando e as urnas confirmaram.
Nem mesmo 320 bilhões de reais despejados em projetos com um claro componente eleitoreiro, neste ano de 2026, mudaram a situação.
A fórmula petista esgotou sua eficácia.
Sendo derrotado agora, é difícil imaginar que Lula faça uma nova tentativa em 2030, na passagem de 84 para 85 anos de idade.
Sem a sua grande figura carismática, o PT não tem a mesma força eleitoral. É apenas um partido com ideias velhas.
A pergunta interessante é como a política brasileira pode se reorganizar nessa era pós-Lula. O próprio bolsonarismo deveria se dedicar a esse exercício de imaginação.
O antipetismo tem funcionado como uma poderosa motivação para inúmeros eleitores. Uma parte significativa dos votos recebidos por Flávio Bolsonaro se deve a ele, mais do que aos encantos do senador.
Eliminado esse fator da equação eleitoral, o que acontece?
O bolsonarismo é a força dominante da direita brasileira e tem conseguido sufocar ou bloquear alternativas no seu próprio campo.
Tarcísio de Freitas, por exemplo, desistiu de concorrer à presidência em 2026 porque sofreria um bombardeio inclemente dos seguidores de Jair. Disputou a reeleição ao governo de São Paulo e conseguiu uma vitória extraordinária, com 62,6% dos votos no primeiro turno. Ainda assim, seu futuro está ligado às vontades de seu padrinho político.
Mas a direita não é monolítica.
O caso óbvio é o partido Missão, de Renan Santos, que rejeita explicitamente o bolsonarismo. A legenda ficou aquém das próprias metas neste domingo, mas tem militância, sabe usar as redes sociais e mira o longo prazo.
Há também um personagem como Nikolas Ferreira. Ele não bate de frente com o bolsonarismo, mas tem capital político suficiente para não ter de demonstrar submissão. Conquistou a maior votação da história na disputa pela Câmara dos Deputados, com mais de 3 milhões de votos. Além disso, exerce liderança sobre um grupo de jovens políticos igualmente bem votados, como Lucas Pavanato, que também superou a barreira dos 3 milhões em São Paulo.
Se o eventual governo de Flávio Bolsonaro começar a naufragar, pode ver a autoridade do bolsonarismo confrontada dentro da própria direita.
Será acusado de abrir caminho para mais uma ressurreição petista. Seria a segunda vez: depois dos desastres da pandemia, Jair Bolsonaro devolveu o poder a Lula em 2022 (embora tenha sonhado em não fazê-lo, convidando os militares para uma aventura).
Ao contrário de seu pai, que chegou ao poder sem base parlamentar, Flávio terá condição de implementar projetos desde o início do mandato, caso se confirme sua vitória.
Na Câmara, a direita terá nada menos que 260 deputados federais. No Senado, serão 48 assentos. Considerando-se as bancadas de partidos centro-direita, os números podem chegar a 340 deputados e 56 senadores.
Essa força pode ser desperdiçada ou aplicada a problemas reais, que precisam tratamento urgente. A começar pela questão fiscal.
Embora Lula insista em não reconhecer essa verdade, o modelo econômico petista, baseado na inclusão pelo consumo e no desenvolvimento induzido pelos gastos do governo, encontrou seu limite estrutural na trajetória insustentável da dívida pública. Ela impede que os juros de curto e longo prazos caiam. No dia a dia, isso se traduz em famílias endividadas e poder de compra que ainda não voltou aos níveis de antes da pandemia.
Mas um modelo liberal de economia também não pode conviver com juros tão altos – não há iniciativa privada que sobreviva a isso. O ajuste fiscal terá de ser feito.
Conselheiros econômicos de Flávio Bolsonaro já disseram que pretendem arrumar a economia em 18 meses, fazendo os sacrifícios necessários. Será? Os sinais da campanha são opacos. Seria bom ter mais clareza antes do segundo turno, sobre esse e outros pontos do programa de governo.
O fim da era petista não é um objetivo por si só. O Brasil precisa de mais.
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Comentários (1)
Joaquim Duran
05.10.2026 16:39Muito mais.