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Carlos Graieb
5 minutos de leitura 02.04.2022 11:00 comentários
Brasil

Partido quer deputado

Como O Antagonista revelou nesta quinta (31), uma das razões por que Sergio Moro retirou sua candidatura à presidência pelo Podemos foi um pedido direto da presidente da legenda, Renata Abreu, para que o fizesse. Moro tinha a maior musculatura entre os candidatos da Terceira Via. Assim, como costumava dizer Ulysses Guimarães, por quê?...

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Carlos Graieb
5 minutos de leitura 02.04.2022 11:00 comentários 0
Partido quer deputado
Fotos: Adriano Machado/Crusoé
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Como O Antagonista revelou nesta quinta (31), uma das razões por que Sergio Moro retirou sua candidatura à presidência pelo Podemos foi um pedido direto da presidente da legenda, Renata Abreu, para que o fizesse. Moro tinha a maior musculatura entre os candidatos da Terceira Via. Então, por quê?  

Num Brasil ideal, lançar um candidato à presidência seria o objetivo primordial de qualquer partido: o momento de apresentar projetos concretos, a serem implementados nos quatro anos seguintes, e de oferecer uma visão para o futuro do país.

No Brasil real, não é nada disso. Exceto quando um político tem um grande eleitorado cativo, como é o caso de Lula e de Bolsonaro, candidaturas à presidência não são um fim em si próprias, mas uma ferramenta a ser usada com cautela, para favorecer a verdadeira razão de ser das legendas: eleger deputados federais.

Obviamente, tem a ver com grana. 

Partido que fracassa na disputa pelas cadeiras da Câmara, e com isso não supera a cláusula de barreira, perde acesso ao dinheiro do fundo partidário. Entre os partidos que superam a cláusula, a única variável que importa para a distribuição do fundo é o número de deputados. Em 2021, cerca de 940 milhões de reais foram divididos proporcionalmente, conforme o tamanho das bancadas. 

Em anos de campanha, há também o fundo eleitoral – são 4,9 bilhões de reais em 2022. O tamanho da representação na Câmara não é o único critério de partilha. Mas é o principal.

Nada disso é segredo, mas a maneira como essa contabilidade influencia as decisões dos partidos sobre candidaturas majoritárias nem sempre fica evidente. Candidaturas presidenciais que começam pequenas ou médias, em especial, são um investimento de risco. Se não chegarem a lugar nenhum, mas ajudarem de alguma forma a eleger deputados federais, valeram a pena. Se consumirem recursos escassos e atrapalharem a superação da cláusula de barreira, são um desastre. 

Com ou sem Terceira Via, a candidatura de Simone Tebet (atualmente, 1% nas pesquisas) compensa para o MDB. Primeiro, porque o partido precisa gastar dinheiro com candidaturas femininas de qualquer maneira, e ter uma mulher concorrendo à presidência é um jeito inteligente de cumprir a obrigação. Em segundo lugar, porque ela evita que o MDB tenha de se alinhar logo de cara com um dos dois líderes da corrida, afastando assim os eleitores do outro. Nos estados, um candidato a deputado federal emedebista pode fazer uma campanha light para Tebet e, ao mesmo tempo, deixar claro que estará com Lula ou Bolsonaro no segundo turno, a depender do gosto de sua freguesia. 

A cada dia que passa, a candidatura de João Doria compensa menos para o PSDB. Nos últimos três anos, o agora ex-governador paulista distribuiu caneladas sem dó, à esquerda e à direita, alijando os apoiadores de Lula e de Bolsonaro. Para quase todos os tucanos que pretendem chegar à Câmara, aparecer ao seu lado significa desagradar imediatamente uma grande fatia do eleitorado. Além disso, seu projeto não dá sinais de decolar. Nessas circunstâncias, ninguém fica feliz em injetar milhões numa candidatura.

A briga por dinheiro de campanha é fundamental para explicar por que Doria surtou nesta quinta, quando ameaçou ficar no cargo até o final do ano e bagunçar todos os planos do PSDB no maior estado da federação. Doria quer recursos que boa parte dos caciques tucanos resiste em lhe dar. O partido precisa voltar a eleger deputados federais, revertendo a tendência de encolhimento dos últimos anos. 

E Moro? Com seus índices nas pesquisas, ele poderia ser um extraordinário puxador de votos para um partido pequeno como o Podemos. O problema é que o jogo ainda nem começou e as contas com prestadores de serviços já estavam ficando atrasadas. O passo foi maior que a perna. A candidatura presidencial deixaria o partido sem dinheiro para mais nada, correndo o risco de não superar a cláusula de barreira e morrer de inanição. Daí o gentil pedido para que o ex-juiz desistisse.

Moro agora entrou em um partido grande, a União Brasil, onde muita gente o detesta por causa da Lava Jato. Mas o pessoal fez os cálculos e concluiu que, se ele disputar uma vaga de deputado federal, poderá carregar com seus votos até outros dez companheiros. Uma enorme gritaria começou nesta sexta-feira (1), quando ele disse que não pretende concorrer a esse cargo. 

Como dizem os economistas, as pessoas agem conforme os incentivos que recebem. O sistema político brasileiro está organizado de tal forma que os milhões do fundo partidário são uma enorme cenoura dourada, que os partidos só podem alcançar se elegerem deputados federais. Todos se movem em busca desse prêmio. O resto, se não deixa de existir, fica em segundo plano.  

 

 

 

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Carlos Graieb

Carlos Graieb é jornalista formado em Direito, editor sênior do portal O Antagonista e da revista Crusoé. Atuou em veículos como Estadão e Veja. Foi secretário de comunicação do Estado de São Paulo (2017-2018). Cursa a pós-graduação em Filosofia do Direito, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

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