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A derrota da China na guerra da Ucrânia

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Mario Sabino
4 minutos de leitura 22.03.2022 10:55 comentários
Opinião

A derrota da China na guerra da Ucrânia

A China também perdeu a guerra na Ucrânia. O acordo de "parceria privilegiada" e “amizade sem limites” que Xi Jinping assinou com Vladimir Putin, no início de fevereiro, ultrapassa o aspecto comercial, como ficou evidente depois da agressão de Moscou a Kiev. É um pacto com entrelinhas militares. A China apoia a Rússia nas suas pretensões territoriais no leste da Europa; a Rússia apoia a China numa eventual invasão de Taiwan. Tudo sob o manto do "multilateralismo", que é como Xi Jinping e Vladimir Putin chamam o objetivo de enfraquece a influência dos Estados Unidos e expandir os seus tentáculos ditatoriais no mundo...

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Mario Sabino
4 minutos de leitura 22.03.2022 10:55 comentários 0
A derrota da China na guerra da Ucrânia
Foto: Presidência da Rússia, Divulgação
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A China também perdeu a guerra na Ucrânia. O acordo de “parceria privilegiada” e “amizade sem limites” que Xi Jinping assinou com Vladimir Putin (foto), no início de fevereiro, ultrapassa o aspecto comercial, como ficou evidente depois da agressão de Moscou a Kiev. É um pacto com entrelinhas militares. A China apoia a Rússia nas suas pretensões territoriais no leste da Europa; a Rússia apoia a China numa eventual invasão de Taiwan. Tudo sob o manto do “multilateralismo”, que é como Xi Jinping e Vladimir Putin chamam o objetivo de enfraquecer a influência dos Estados Unidos e expandir os seus tentáculos no mundo.

Vladimir Putin vendeu a Xi Jinping a ideia de que a invasão da Ucrânia seria um passeio. Que ele ocuparia rapidamente o país vizinho, por meio de uma blitzkrieg, e que, em certas regiões ucranianas, as suas tropas seriam até mesmo recebidas como “libertadoras” de um povo oprimido por um regime “nazista”, cujo presidente, Volodymyr Zelensky, contava com baixíssima popularidade. Vladimir Putin mostraria a Xi Jinping, principalmente, que, assim como ocorreu em 2014, com a invasão da Crimeia, o Ocidente esbravejaria um pouco, mas não abriria mão dos seus interesses comerciais para defender a Ucrânia — e que, da mesma forma, permaneceria inerte se a China se arriscasse em Taiwan. O erro de cálculo foi gigantesco. O exército russo se revela incompetente para avançar sobre as linhas adversárias, a resistência da Ucrânia é não menos do que heróica, além de estrategicamente brilhante, e mesmo entre os ucranianos de língua russa, os invasores estão sendo vistos como o que realmente são: um bando de criminosos fardados que aterroriza a população civil. Quanto a Volodymyr Zelensky, graças à sua coragem e à sua capacidade de comunicação, para além da sua esperteza, ele tem hoje a admiração e a confiança de praticamente a unanimidade dos seus compatriotas e se tornou referência internacional. Por último, o Ocidente, que demorou a mostrar os dentes para Vladimir Putin, já demonstrou que não se comportará como em 2014.

A política da China para aumentar a sua influência planetária vinha sendo feita por meio de investimentos de infraestrutura no Terceiro Mundo, em especial na África, e pelo estreitamento de parcerias comerciais com os países democráticos da Europa, por meio do estabelecimento da chamada “rota da seda”. Tais iniciativas, sim, vinham incomodando os Estados Unidos, porque diversos países, independentemente do regime, começaram a ver na China, a outra superpotência econômica, dona de um mercado consumidor infinito, um polo de atração que contrabalançaria a dependência dos americanos. Em razão das vantagens oferecidas pelos chineses, esses mesmos países fecharam os olhos para os abusos do totalitarismo chinês, considerado uma peculiaridade impossível de ser exportada.

A guerra na Ucrânia mudou tudo. Como confiar numa potência que firmou um pacto com a Rússia, para chancelar uma agressão militar de contornos imperialistas, e que ajuda a difundir fake news vergonhosas, como a de que os Estados Unidos se associaram à Ucrânia para desenvolver armas biológicas? E isso, enfatize-se, depois de toda a falta de transparência de Pequim na investigação promovida pela OMS, para tentar descobrir a origem do vírus da Covid-19. Como lembrou o francês Phillipe Le Corre, especialista em China e Hong Kong, o então secretário de estado adjunto americano Robert Zoellick lançou a seguinte interrogação, em 2005: “A China poderia se tornar um ator responsável na cena mundial?” A julgar pela atuação na guerra da Ucrânia, a resposta é não.

A irresponsabilidade da China demoliu o seu “multilateralismo” e, no plano imediato, deverá causar prejuízos à sua economia, se a agressão à Ucrânia se prolongar. A alta do preço do petróleo e a escassez de alimentos que se avizinha, frutos diretos do conflito, têm o potencial de afetar duramente muitos países que importam produtos chineses. Tudo bastante inteligente, como se vê, inclusive a parceria privilegiada comercial com a Rússia, em detrimento do estreitamento dos laços que estreitava com a União Europeia. Xi Jinping hoje morde e assopra quando o assunto é a guerra na Ucrânia, porque não sabe o que fazer. Perdeu, juntamente com Vladimir Putin.

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Mario Sabino é jornalista, escritor e sócio-fundador de O Antagonista. Escreve sobre política e cultura. Foi redator-chefe da revista Veja.

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