Política para controlar inflação pode dificultar vida de Bolsonaro em 2022

14.08.2026

logo-crusoe-new
O Antagonista

Política para controlar inflação pode atrapalhar campanha de Bolsonaro em 2022

avatar
Brenno Grillo
5 minutos de leitura 27.06.2021 15:01 comentários
Economia

Política para controlar inflação pode atrapalhar campanha de Bolsonaro em 2022

Jair Bolsonaro não terá um ano eleitoral fácil em 2022. Mesmo com a expectativa de que o PIB cresça 4,6%, o presidente vê sua popularidade em queda, com a CPI da Covid de olho em corrupção no Ministério da Saúde e sem tanta margem para aumentar gastos...

avatar
Brenno Grillo
5 minutos de leitura 27.06.2021 15:01 comentários 0
Política para controlar inflação pode atrapalhar campanha de Bolsonaro em 2022
Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Jair Bolsonaro não terá um ano eleitoral fácil em 2022. Mesmo com a expectativa de que o PIB cresça 4,6%, o presidente vê sua popularidade em queda, com uma CPI da Covid de olho em corrupção no Ministério da Saúde e sem tanta margem para aumentar gastos.

O custo da pandemia tem sido alto e o orçamento público tem limites. Se em 2020 foram R$ 509 bilhões para enfrentar os efeitos do coronavírus em todas as áreas, da saúde à economia; o desembolso em 2021 foi de R$ R$ 74,1 bilhões até o começo de abril.

Com pouco espaço para gastar e fazer populismo fiscal, Bolsonaro enfrentará um cenário de preços sob pressão — as expectativas do último Boletim Focus preveem inflação de 5,9% no fim de 2021, com queda para 3,75% ao longo de 2022 — e um país mais vacinado, já pensando em de onde virá o dinheiro para a retomada econômica.

As preocupações inflacionárias que levaram o BC a aumentar a Selic de 3,5% para 4,25% na última reunião do Copom não são recentes e já há previsão de novo aumento de 0,75% na próxima reunião, em agosto.

Os sucessivos aumentos encarecem o custo do dinheiro, reduzindo a participação do setor privado na retomada econômica. “O efeito é catastrófico para a economia e sempre pior para quem é mais pobre”, diz a economista especializada em contas públicas Deborah Bizarria.

E o auxílio emergencial — que já foi de R$ 600 e manteve a economia artificialmente aquecida —, mesmo podendo ser prorrogado enquanto durar a pandemia, segundo o próprio Paulo Guedes, perderá parte de seu poder de compra.

“Qualquer governo que tenta se reeleger num cenário como o nosso fica tentado a baixar a taxa de juros artificialmente. As empresas vão pegar dinheiro, vai ter aumento artificial da atividade econômica e nós já vimos o custo disso”, afirma a economista.

Em 2014, Dilma, que também enfrentava um cenário econômico ruim e de aumento da Selic, que chegou a 11,75% em dezembro daquele ano, usou os bancos públicos para baratear o custo dos empréstimos.

O cientista político Magno Karl afirma que exemplos como esse só reforçam o “histórico de populismo” praticado no Brasil e que foi esse “um dos motivos para a independência do BC”, para impedir que “o governo use a instituição como instrumento de política econômica”.

“Vimos o uso ativo do BC no governo Dilma, que interviu em preços controlados, assim como para baixar a taxa de juros, mesmo com inúmeras indicações de que, em 2014, poderíamos ter um quadro inflacionário mais complicado.”

A bem da verdade, Bolsonaro pede até a Deus para que o STF confirme a constitucionalidade da lei que deu autonomia ao BC. Mas, mesmo com o populismo e a chiadeira sobre as altas de juros não serem mais habituais, como foram com Lula, Dilma e FHC, o presidente nunca foi um liberal.

Vale lembrar que Bolsonaro disse, após intervir na Petrobras para trocar o presidente da estatal, que o mercado fica “irritadinho” por “qualquer negocinho, qualquer boato na imprensa”, e das ocasiões em que o capitão reformado reclamou das altas no preço dos combustíveis.

“Pessoal, se o Brasil aí não tiver um rumo, todo o mundo vai perder. Vocês também, pô”, afirmou o capitão reformado na ocasião.

“Muitos ficaram apreensivos na primeira alta de juros [a Selic, pelo BC], se Bolsonaro faria algum comentário. Mas ele não deu nenhum sinal de desconforto. Não o vejo com esse populismo sobre a política monetária na cabeça. É diferente na política fiscal. Falou esses dias do Bolsa Família mais forte, sem um alinhamento direto com o Ministério da Economia. Embora Paulo Guedes tenha vencido as disputas, elas não têm sido suaves”, afirmou Caio Megale, economista-chefe da XP.

Medidas anticíclicas

A autonomia impõe que o Banco Central, antes sob o guarda-chuva do Ministério da Economia e consequentemente do presidente, seja classificado em lei como autarquia sem “vinculação a ministério, de tutela ou de subordinação hierárquica”.

O presidente e os oito diretores do BC passam a cumprir mandatos de quatro anos não necessariamente coincidentes com as mudanças na Presidência da República. Mas as indicações continuam sendo analisadas pelo Senado.

O presidente do BC assumirá o posto no terceiro ano de mandato do chefe da República, em 1º de janeiro. Já os diretores serão nomeados escalonadamente, a cada biênio.

E essa vigilância independente do Banco Central sobre a inflação tem impacto direto sobre o Brasil que Bolsonaro precisará agradar para convencer que merece mais quatro anos no Planalto.

Não à toa tem se gastado muito para terminar obras não finalizadas por governos anteriores, inaugurar conjuntos habitacionais — previsão de R$ 12 bilhões no orçamento — e viajar pelo país fazendo showmícios antecipados, tudo transmitido pela TV Brasil — com dinheiro do contribuinte.

“As medidas anticíclicas já estão acontecendo”, diz a economista Deborah Bizarria.

E tudo isso é para manter o apoio do Centrão, que cobrará um preço mais alto depois das denúncias de Luis Miranda reveladas por O Antagonista, sobre esquema de corrupção no Ministério da Saúde para compra privilegiada da Covaxin.

“O Centrão não é sócio de fracasso. É um grupo político muito pragmático, que não nasceu colado com Bolsonaro, assim como não nasceu com Lula, Dilma, Temer e FHC. Se o presidente der sinais de que não consegue cumprir acordos, não há nada que segure o Centrão”, diz o cientista político Magno Karl.

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

Lindbergh aciona PF e pede acareação de Flávio e Renan

Lindbergh aciona PF e pede acareação de Flávio e Renan
2

Flávio declara R$ 8,1 milhões em bens à Justiça Eleitoral

Flávio declara R$ 8,1 milhões em bens à Justiça Eleitoral
3

Renan desafia Flávio a fazer “acareação” sobre filiação à Missão

Renan desafia Flávio a fazer “acareação” sobre filiação à Missão
4

Crusoé: PT debocha de filiação de Flávio à Missão

Crusoé: PT debocha de filiação de Flávio à Missão
5

Flávio Bolsonaro registra candidatura no TSE

Flávio Bolsonaro registra candidatura no TSE
6

Datafolha: Ciro lidera disputa pelo governo do Ceará com 52%

Datafolha: Ciro lidera disputa pelo governo do Ceará com 52%
7

Sigilo de fonte não é “escudo protetivo” para atividade ilícita, diz Moraes

Sigilo de fonte não é “escudo protetivo” para atividade ilícita, diz Moraes
8

O óbvio de Fachin sobre a liberdade de imprensa e o recado a Moraes

O óbvio de Fachin sobre a liberdade de imprensa e o recado a Moraes
9

Crusoé: Ex-ministra de Lula liga terremotos à “extrema-direita”

Crusoé: Ex-ministra de Lula liga terremotos à “extrema-direita”
10

Flávio diz que e-mails do Missão viraram “spam”

Flávio diz que e-mails do Missão viraram “spam”
1

Moraes violou sigilo da fonte para investigar crimes que dão até 2 anos de detenção cada

Moraes violou sigilo da fonte para investigar crimes que dão até 2 anos de detenção cada
2

Lindbergh aciona PF e pede acareação de Flávio e Renan

Lindbergh aciona PF e pede acareação de Flávio e Renan
3

O óbvio de Fachin sobre a liberdade de imprensa e o recado a Moraes

O óbvio de Fachin sobre a liberdade de imprensa e o recado a Moraes
4

Crusoé: MST escorrega no inglês ao pichar Embaixada dos EUA

Crusoé: MST escorrega no inglês ao pichar Embaixada dos EUA
5

Lula avalia timing para indicar Messias ao STF após reaproximação com Alcolumbre

Lula avalia timing para indicar Messias ao STF após reaproximação com Alcolumbre
6

Sigilo de fonte não é "escudo protetivo" para atividade ilícita, diz Moraes

Sigilo de fonte não é "escudo protetivo" para atividade ilícita, diz Moraes
7

Gilmar relativiza sigilo da fonte ao defender decisão de Moraes

Gilmar relativiza sigilo da fonte ao defender decisão de Moraes
8

EUA planejam ofensiva terrestre contra o narcotráfico

EUA planejam ofensiva terrestre contra o narcotráfico
9

Centrão não está neutro, diz Kassab

Centrão não está neutro, diz Kassab
10

Crusoé: Plano de Flávio mantém Bolsa Celular

Crusoé: Plano de Flávio mantém Bolsa Celular
1

Air fryer e micro-ondas fazem mal à saúde? Descubra o que diz a ciência

Air fryer e micro-ondas fazem mal à saúde? Descubra o que diz a ciência
2

Caminho de ajuste fiscal em 2027 começou a ser traçado nesta semana

Caminho de ajuste fiscal em 2027 começou a ser traçado nesta semana
3

Censura? Veja casos em que o STF interferiu na atividade jornalística

Censura? Veja casos em que o STF interferiu na atividade jornalística
4

Alcolumbre envia PEC do fim da 6×1 para a CCJ do Senado

Alcolumbre envia PEC do fim da 6×1 para a CCJ do Senado
5

CCJ do Senado aprova biometria para evitar troca de bebês em maternidades

CCJ do Senado aprova biometria para evitar troca de bebês em maternidades
6

Crusoé: “Eu não sou contra as pessoas estarem endividadas”, diz Lula

Crusoé: “Eu não sou contra as pessoas estarem endividadas”, diz Lula
7

Entenda como o fluxo intestinal e a conduta alimentar influenciam a saúde mental

Entenda como o fluxo intestinal e a conduta alimentar influenciam a saúde mental
8

Gilmar relativiza sigilo da fonte ao defender decisão de Moraes

Gilmar relativiza sigilo da fonte ao defender decisão de Moraes
9

Border terrier: uma raça de cachorro que se destaca pela coragem e alegria

Border terrier: uma raça de cachorro que se destaca pela coragem e alegria
10

Janones abre turnê 2026 de fake news eleitoral

Janones abre turnê 2026 de fake news eleitoral

Tags relacionadas

Banco Central CPI da Covid eleições 2022 Jair Bolsonaro Luis Miranda Ministério da Economia Ministério da Saúde
< Notícia Anterior

Na viagem do 'spray milagroso', Netanyahu cobrou do Brasil investimento no setor cibernético

27.06.2021 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

Negociação da vacina da CanSino na mira da CPI

27.06.2021 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Brenno Grillo

Brenno Grillo é jornalista desde 2012 e pós-graduado em Política e Relações Internacionais. Cobre Judiciário em Brasília. Trabalhou em veículos como Estadão, Consultor Jurídico, The Brazilian Report e Poder360. Também atuou em campanhas políticas.

Suas redes

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (0)

Torne-se um assinante para comentar

Início

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.