A praga do caudilhismo

26.10.2026

logo-crusoe-new
O Antagonista
A praga do caudilhismo
avatar
Miguel Sanches Neto
5 minutos de leitura 10.04.2021 16:15 comentários
Opinião

A praga do caudilhismo

No final dos anos 1980, em viagem pelas cidades barrocas de Minas Gerais, cheguei à Igreja de São Francisco de Assis, em São João Del-Rei, cujo projeto original é de Aleijadinho. Depois de contemplar o interior e o traçado do templo, já na saída, um guardião me interpelou. Eu tinha esquecido de visitar o túmulo de Tancredo Neves. Por delicadeza, me deixei levar ao “locus sacratus”. E ouvi do meu guia acidental que, morto, Tancredo fazia milagres...

avatar
Miguel Sanches Neto
5 minutos de leitura 10.04.2021 16:15 comentários 0
A praga do caudilhismo
Foto: Isac Nóbrega/PR

No final dos anos 1980, em viagem pelas cidades barrocas de Minas Gerais, cheguei à Igreja de São Francisco de Assis, em São João Del-Rei, cujo projeto original é de Aleijadinho. Depois de contemplar o interior e o traçado do templo, já na saída, um guardião me interpelou. Eu tinha esquecido de visitar o túmulo de Tancredo Neves. Por delicadeza, me deixei levar ao “locus sacratus”. E ouvi do meu guia acidental que, morto, Tancredo fazia milagres. A morte dele tinha criado, de fato, uma comoção nacional, com a manifestação de grande devoção a uma pessoa que já pertencia ao plano hagiográfico.

O caso de Tancredo não é isolado, antes reflete um padrão que conduz as escolhas políticas no Brasil. Entre nós, atua a lógica do caudilho. O caudilho é um líder que se confunde, entre os seus, com a figura acima do bem e do mal, que cria um exército de seguidores que dão a sustentação a um desejo de refundar o país. Na história curta da República, quando a democracia pôde ser exercida, houve recorrentes líderes com tais traços.

Só isso explica que Getúlio Vargas, depois de ter mudado o curso sucessório com um exército paralelo sob seu comando, em 1930, exercendo o poder ditatorial até 1945, retorne pelo voto livre em 1951. Ele já não pertencia à própria biografia, pois havia sido santificado. Tanto que seu suicídio faz parte da consolidação do mártir. É da natureza do caudilho criar esta crença no seu poder messiânico. Com mais ou com menos elementos caudilhescos, muitos presidentes do Brasil podem ser aproximados a esta categoria. Jânio Quadros, um pernóstico professor de português, se encaixa nela, tendo chegado à presidência com um apelo populista de saneador político, não conseguindo, no entanto, se sustentar. Outro exemplo bem–acabado deste perfil precário foi Fernando Collor de Mello, “o caçador de marajás”, um então jovem bem-apessoado que se elegeu como uma espécie de He-Man nacional, fazendo-se confundir com um super-herói que tiraria o paísda mão dos predadores. Collor se aproximou de Frei Damião, um frade italiano (hoje em processo de beatificação) radicado no Nordeste, tentando colar sua imagem à dele. Não foi muito diferente o caminho do presidente Luís Inácio Lula da Silva, que também construiu uma imagem de pai dos pobres, focando as classes sociais mais sofridas do país, que sempre tiveram restrições de direito, e constituindo uma militância com conexões internacionais.

Mas foi o presidente Jair Bolsonaro que mais se valeu desta estrutura caudilhesca para criar um legião de seguidores, agora unida virtualmente e promovendo compartilhamentos viralizantes de materiais de toda natureza na internet,principalmente no whatsApp, que é um rede secreta, propondo-o como o “o salvador da pátria”, título aliás de uma novela da Rede Globo de 1989 sobre a figura do líder escolhido diretamente pelo povo – não por acaso, em 1990, Collor seria eleito. Outras personalidades guardam uma construção similar, sem terem chegado à presidência. Um Luiz Carlos Prestes, eleito por Jorge Amado como “o cavaleiro da esperança”, pelas ações da coluna paramilitar que ele comandava. Ou mesmo um Antônio Carlos Magalhães, tratado na Bahia como milagreiro, o que levava as pessoas humildes a quererem tocar em “seo Antônio”.

Faz parte da dinâmica eleitoral brasileira a busca do assinalado, que vai nos tirar de um estado de sofrimento. Uma das matrizes desta crença está traduzida na figura de Antônio Conselheiro, que se opõe à República e cria um país alternativo em Canudos, atraindo milhares de discípulos a um regime religioso de gestão.Canudos viria de uma tradição judaica da terra prometida aos excluídos e estava baseada em uma proposta de volta “à idade de ouro dos apóstolos”, “revivendo vetustas ilusões”, nas palavras de Euclides da Cunha. Esta força mística também vai criar um exército santo em torno dos monges na Guerra do Contestado, no sul do Brasil.

A pergunta a se fazer é: de onde vem este modelo? Tudo indica que nosso imaginário, enquanto nação, reflete o sebastianismo, muito difundido ao longo dos séculos nos meios populares brasileiros. O desaparecimento do rei Dom Sebastião, na batalha de Alcácer-Quibir, em 1578, criou o mito de que ele voltaria com um exército mágico para tirar Portugal da crise e conduzir a pátria a um novo momento de grandeza: “louco, sim, louco, porque quis grandeza”, segundo um verso de Fernando Pessoa. Estaremos sempre esperando um políticoque fará este papel?

A democracia, para ser forte e duradoura, deve ser a construção de um projeto coletivo de país que garanta a igualdade de acesso às oportunidades, acima dos populismos demagógicos e das promessas de milagreseconômicos e sociais que acabam sempre em farsa ou tragédia.

Miguel Sanches Neto é escritor, autor, entre outros do romance A Bíblia do Che (Companhia das Letras, 2016).

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

Flávio: “É impossível reconhecer o resultado das eleições”

Flávio: “É impossível reconhecer o resultado das eleições”
2

As definições de golpismo foram atualizadas

As definições de golpismo foram atualizadas
3

Alcolumbre pede pacificação e respeito ao resultado das urnas

Alcolumbre pede pacificação e respeito ao resultado das urnas
4

Lula promete regular redes e chama Flávio de “representante do milicianismo”

Lula promete regular redes e chama Flávio de “representante do milicianismo”
5

Em pronunciamento, Kassio chama prorrogação da votação de “inusitada”

Em pronunciamento, Kassio chama prorrogação da votação de “inusitada”
6

Seif anuncia pedido de impeachment de Zanin após prorrogação da votação

Seif anuncia pedido de impeachment de Zanin após prorrogação da votação
7

Renan Santos: “O resultado das eleições está sendo maculado”

Renan Santos: “O resultado das eleições está sendo maculado”
8

Renan ironiza participação de Marçal na campanha de Flávio: “Craque do jogo”

Renan ironiza participação de Marçal na campanha de Flávio: “Craque do jogo”
9

Lula vira eleição e conquista quarto mandato à Presidência

Lula vira eleição e conquista quarto mandato à Presidência
10

Janones já fala em golpe

Janones já fala em golpe
1

Lula promete regular redes e chama Flávio de “representante do milicianismo”

Lula promete regular redes e chama Flávio de “representante do milicianismo”
2

Zanin prorroga votação até as 19h após pedido do PT ao STF

Zanin prorroga votação até as 19h após pedido do PT ao STF
3

TSE pausa apuração após decisão de Zanin sobre horário de votação

TSE pausa apuração após decisão de Zanin sobre horário de votação
4

Moro vota com camiseta em defesa da Lava Jato

Moro vota com camiseta em defesa da Lava Jato
5

Urnas já fechadas não serão reabertas, esclarece Zanin

Urnas já fechadas não serão reabertas, esclarece Zanin
6

Evair de Melo compara prorrogação da votação a estratégia de Maduro

Evair de Melo compara prorrogação da votação a estratégia de Maduro
7

Ativo no primeiro turno, STF fica ‘neutro’ na reta final da eleição

Ativo no primeiro turno, STF fica ‘neutro’ na reta final da eleição
8

Federação israelita condena saudação nazista em local de votação no Rio

Federação israelita condena saudação nazista em local de votação no Rio
9

TRE-DF descarta estender votação até as 19h

TRE-DF descarta estender votação até as 19h
10

MP Eleitoral se manifestou contra prorrogar votação

MP Eleitoral se manifestou contra prorrogar votação
1

Alcolumbre pede pacificação e respeito ao resultado das urnas

Alcolumbre pede pacificação e respeito ao resultado das urnas
2

Flávio: “É impossível reconhecer o resultado das eleições”

Flávio: “É impossível reconhecer o resultado das eleições”
3

“Dia de alegria”, diz Hugo Motta ao celebrar vitória de Lula

“Dia de alegria”, diz Hugo Motta ao celebrar vitória de Lula
4

Zema: “A vida do brasileiro vai continuar estagnada”

Zema: “A vida do brasileiro vai continuar estagnada”
5

Lula promete regular redes e chama Flávio de “representante do milicianismo”

Lula promete regular redes e chama Flávio de “representante do milicianismo”
6

“Pela segunda vez, salvou a democracia brasileira”, diz Alckmin a Lula

“Pela segunda vez, salvou a democracia brasileira”, diz Alckmin a Lula
7

Em pronunciamento, Kassio chama prorrogação da votação de “inusitada”

Em pronunciamento, Kassio chama prorrogação da votação de “inusitada”
8

Taxa de abstenção cai a 19,22% no segundo turno

Taxa de abstenção cai a 19,22% no segundo turno
9

“Maior exército democrático do mundo venceu”, diz Guimarães

“Maior exército democrático do mundo venceu”, diz Guimarães
10

Presidente do Paraguai parabeniza Lula por vitória nas eleições

Presidente do Paraguai parabeniza Lula por vitória nas eleições

Tags relacionadas

artigo caudilhismo Fernando Collor de Mello Jair Bolsonaro Jânio Quadros Miguel Sanches Neto O Antagonista sebastianismo Tancredo Neves
< Notícia Anterior

Fiocruz: casos de Covid aumentaram 700% entre janeiro e março

10.04.2021 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

Bolsonaro diz que CPI da Covid é "feita pela esquerda para tumultuar"

10.04.2021 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Miguel Sanches Neto

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (0)

Torne-se um assinante para comentar

Início

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.