Agricultor fura um poço artesiano de 120 metros para irrigar 8 hectares de hortaliças e descobre que a água do subsolo não é dele e precisa de outorga do estado
A água que fica abaixo do terreno segue regras diferentes da propriedade da terra
Para salvar a horta da seca, seu Toninho mandou abrir um poço artesiano sem outorga de 120 metros no próprio terreno. A água saiu limpa e farta, o bastante para irrigar 8 hectares de alface e couve durante o ano inteiro. Meses depois, a fiscalização estadual bateu na porteira. A história é fictícia, mas a regra está na Lei das Águas.
Como seu Toninho decidiu furar o poço?
Seu Toninho (nome fictício) vende hortaliças na feira há 25 anos. Com estiagens cada vez mais longas, o córrego que atravessa o sítio passou a secar em agosto, e ele perdeu duas plantações seguidas por falta d’água.
Juntou economias, contratou uma empresa de perfuração e investiu num sistema de gotejamento. Já tinha ouvido falar da Lei das Águas, de 1997, mas achava que ela só valia para quem tira água de rio grande.

O que aconteceu quando a fiscalização chegou?
Um vizinho denunciou, desconfiado de que o poço novo estava secando o dele. Os fiscais do órgão estadual de recursos hídricos pediram a outorga, a autorização oficial para usar a água, e seu Toninho não tinha nenhum papel.
O poço foi lacrado até a regularização, e veio um auto de infração. A horta, que dependia da irrigação diária, começou a murchar em plena época de venda.
Mas afinal, a água do subsolo é de quem cava o poço?
Não. A Constituição Federal, no art. 26, inclui as águas subterrâneas entre os bens dos estados. O dono do terreno manda no solo, porém a água que corre por baixo dele pertence a todos.
Por isso, o art. 12 da Lei 9.433/1997 exige outorga para tirar água de aquífero, o reservatório natural debaixo da terra, seja para consumo ou produção. Só usos muito pequenos, chamados de insignificantes, ficam dispensados.

Quais são as exigências e as punições para quem usa poço?
A mesma lei trata como infração perfurar ou operar poço sem autorização e usar água sem outorga. As penalidades, explicadas pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal, vão de advertência a multa e embargo.
Os pontos que a lei cobra de quem usa água do subsolo são estes:
As regras da água existem para punir quem produz?
Para seu Toninho, a fiscalização chegou como castigo. A regra existe porque o aquífero é compartilhado: quando muitos poços tiram água sem controle, o nível baixa, os poços rasos dos vizinhos secam e a reserva pode levar anos para se recuperar.
A outorga permite ao estado saber quanta água sai de cada região e dividir com justiça entre lavoura, criação e abastecimento das cidades. A autorização garante o direito de uso, sem transformar a água em propriedade de ninguém.
O que muda quando comparamos o poço de seu Toninho com o caminho legal?
A diferença entre o poço de seu Toninho e uma captação regular não está na profundidade nem no equipamento, mas no processo.
A comparação entre o caminho que seu Toninho seguiu e o que a lei pede fica clara na tabela:
| Etapa | O que seu Toninho fez | O que a lei exige |
|---|---|---|
| Perfuração Antes da obra | Contratou a sonda direto | Autorização do órgão estadual |
| Uso da água Na irrigação | Irrigou 8 hectares sem papel | Outorga com volume definido |
| Controle No dia a dia | Nenhuma medição da vazão | Registro do volume captado |
| Fiscalização Após a denúncia | Teve o poço lacrado | Multa e embargo para uso irregular |
Leia também: Família empresta casa ao irmão por 14 anos e ao pedir o imóvel de volta descobre que ele quer virar dono
O que se aprende com a história de seu Toninho?
Seu Toninho buscou água para salvar o próprio sustento, e ninguém pode culpá-lo por querer produzir. O tropeço foi achar que o que está debaixo do terreno pertence ao dono da terra, quando a lei trata o aquífero como bem de todos.
Quem realmente quer irrigar com poço artesiano precisa seguir esse roteiro: procurar o órgão estadual de recursos hídricos antes da perfuração, contratar geólogo ou empresa habilitada, pedir a outorga com o volume necessário e instalar medição. Com os papéis em ordem, a horta de seu Toninho voltou à feira.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)