Um sítio no vale do Jordão ficou centenas de milhares de anos mais velho e colocou humanos fora da África há pelo menos 1,9 milhão de anos
Três técnicas de datação revelaram que ferramentas e fósseis do vale do Jordão podem registrar uma ocupação humana muito mais antiga do que se pensava
Uma nova análise de sedimentos revelou que o sítio arqueológico de ‘Ubeidiya, no vale do Jordão, pode ter pelo menos 1,9 milhão de anos. A estimativa, publicada em 2026, modifica a cronologia de um dos assentamentos humanos mais antigos conhecidos fora da África. Ao combinar três técnicas de datação, pesquisadores descobriram que ferramentas de pedra e fósseis preservados na região podem contar uma história muito mais antiga das primeiras migrações humanas.
Como o sítio arqueológico de ‘Ubeidiya se tornou tão importante para a evolução humana?
Localizado ao sul do mar da Galileia, no atual território de Israel, ‘Ubeidiya foi identificado em 1959. Desde então, escavações revelaram ferramentas de pedra, restos de antigos hominínios e fósseis de animais que habitaram a região durante o Pleistoceno Inferior.
Durante décadas, o sítio foi situado entre aproximadamente 1,2 milhão e 1,6 milhão de anos atrás. A nova cronologia aproxima sua ocupação daquela registrada em Dmanisi, na Geórgia, onde fósseis humanos têm cerca de 1,8 milhão de anos. Essa proximidade temporal levanta perguntas sobre diferentes movimentos populacionais para fora da África.
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Como três técnicas conseguiram determinar a idade do sítio arqueológico de ‘Ubeidiya?
A equipe investigou sedimentos de um antigo ambiente lacustre, combinando métodos que registram acontecimentos geológicos diferentes. A estratégia foi necessária porque as camadas passaram por processos complexos de erosão, transporte e soterramento ao longo de milhões de anos.
Cinco evidências ajudaram a reconstruir essa história:
- Isótopos cosmogênicos revelaram períodos de exposição e soterramento;
- Partículas magnéticas preservaram a orientação antiga do campo terrestre;
- Conchas fossilizadas forneceram limites cronológicos por urânio-chumbo;
- Camadas sedimentares permitiram comparar os resultados;
- Ferramentas acheulenses associaram a sequência geológica à presença humana.
Um vídeo publicado em 4 de abril de 2024 pelo canal oficial da Autoridade de Antiguidades de Israel apresenta ‘Ubeidiya, seus instrumentos de pedra e sua importância arqueológica. O material antecede a nova datação, mas mostra o próprio sítio.
Por que ferramentas de pedra e fósseis ajudam a reconstruir as primeiras migrações humanas?
As escavações revelaram machados de mão bifaciais, raspadores e instrumentos utilizados para cortar materiais. Essas peças pertencem à tradição acheulense, caracterizada pela produção de ferramentas com formas planejadas e superfícies trabalhadas em diferentes lados.
O sítio também preservou restos de grandes mamíferos, incluindo animais associados a ambientes africanos e eurasiáticos. A combinação sugere uma paisagem que funcionava como corredor ecológico entre continentes. Entretanto, as ferramentas não identificam sozinhas qual espécie humana as produziu, nem demonstram quantas migrações ocorreram.
Qual estudo científico reposicionou ‘Ubeidiya entre os assentamentos mais antigos fora da África?
O estudo publicado na revista Quaternary Science Reviews, em abril de 2026, foi conduzido por Ari Matmon, Alyona Kuzmenko, Ron Shaar e colaboradores de instituições internacionais.
Os pesquisadores combinaram magnetoestratigrafia, datação urânio-chumbo de conchas do gênero Melanopsis e isótopos cosmogênicos de fragmentos rochosos. O modelo indicou que parte dos sedimentos havia sido depositada, erodida e novamente transportada. Considerar essa reciclagem foi fundamental para evitar interpretações excessivamente antigas dos resultados isotópicos.

Quais números mostram quanto a idade de ‘Ubeidiya mudou?
A análise apresentou dois intervalos possíveis para os sedimentos estudados: entre 1,19 milhão e 1,77 milhão de anos, ou entre 1,93 milhão e 2,14 milhões de anos. A distribuição estatística favoreceu a alternativa mais antiga, com idade mediana aproximada de 2,05 milhões de anos.
Os métodos paleomagnético e urânio-chumbo estabeleceram um limite mínimo próximo de 1,1 milhão de anos. Já os cálculos cosmogênicos, interpretados com o histórico de reciclagem sedimentar, sustentaram a estimativa mais antiga. Portanto, 1,9 milhão de anos representa a interpretação favorecida pelo conjunto das evidências, não uma data absoluta sem incerteza.
| Indicador arqueológico | Resultado da pesquisa |
|---|---|
| Datação anteriormente utilizada | 1,2 a 1,6 milhão de anos |
| Intervalo mais antigo favorecido | 1,93 a 2,14 milhões de anos |
| Mediana do modelo isotópico | 2,05 milhões de anos |
| Limite mínimo independente | Cerca de 1,1 milhão de anos |
| Técnicas de datação combinadas | 3 métodos |
O que a nova idade de ‘Ubeidiya muda na história da saída dos humanos da África?
Se a estimativa mais antiga for confirmada, populações humanas associadas à tecnologia acheulense já ocupavam o vale do Jordão aproximadamente na mesma época em que outros hominínios viviam em Dmanisi, utilizando conjuntos de ferramentas diferentes.
Isso sugere uma dispersão humana mais complexa do que uma única migração acompanhada de uma tecnologia uniforme. A pesquisa não prova qual espécie chegou primeiro nem estabelece uma rota definitiva de saída da África. Seu principal avanço é mostrar que a cronologia das ocupações depende de compreender corretamente a história dos sedimentos que preservaram seus vestígios.
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