Capital Brasileira do Vinho e berço da primeira denominação de origem do país: a cidade da Serra Gaúcha que nasceu das famílias italianas de 1875
A imigração italiana deixou marcas na gastronomia e na produção de vinhos
Em algumas cidades, o vinho é produto; em outras, é sobrenome. Em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, parreirais plantados por imigrantes do norte da Itália viraram vinícolas de família, trem a vapor e estradas rurais de pedra, tudo a cerca de 120 km de Porto Alegre, no alto da Serra Gaúcha.
Por que a cidade gaúcha é chamada de Capital Brasileira do Vinho?
O título nasceu de uma festa. Em 1967, a primeira Fenavinho, a Festa Nacional do Vinho, levou a produção local para o país inteiro e consolidou a fama da cidade, que desde então se apresenta como Capital Brasileira do Vinho. Em maio de 2026, um projeto de lei que transforma o apelido em título nacional oficial foi aprovado em comissão da Câmara dos Deputados e segue em tramitação.
O reconhecimento técnico veio antes. De acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Vale dos Vinhedos recebeu em 2002 a primeira Indicação de Procedência do Brasil e, em 2012, a primeira Denominação de Origem, selo que exige uvas, técnicas e qualidade ligadas ao território.

Os números que acompanham essa trajetória ajudam a medir o peso do vinho na identidade da cidade:
Como famílias italianas transformaram uma colônia imperial em terra de parreirais?
Tudo começou na Colônia Dona Isabel, criada em 1870 pelo governo imperial e batizada em homenagem à princesa. Segundo estudo publicado na revista Research, Society and Development, a ocupação ganhou força com os imigrantes vindos principalmente do norte da Itália, que receberam lotes de terra em encostas íngremes e cobertas de mata.
Nas pequenas propriedades, as famílias repetiram o que sabiam fazer em casa: plantar uva e guardar vinho nos porões. Em 1890, a colônia virou município com o nome do general Bento Gonçalves da Silva, líder da Revolução Farroupilha. O saber dos parreirais, passado de pais para filhos, acabou atraindo a pesquisa: a cidade sedia a Embrapa Uva e Vinho e um campus do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), herdeiro de uma escola de viticultura e enologia criada em 1959.

O que fazer em Bento Gonçalves além das degustações?
A maior parte das vinícolas está no Vale dos Vinhedos, onde também se concentram restaurantes, pousadas e lojas de produtos coloniais. A cidade, porém, tem outras rotas rurais, como o distrito de Faria Lemos e os arredores de Pinto Bandeira, conhecidos pelos espumantes.
Fora das vinícolas, o passeio que mais encanta é o do trem a vapor. Segundo o Melhores Destinos, a Maria Fumaça percorre o trecho até Carlos Barbosa, região conhecida pelos vinhos e queijos herdados dos imigrantes, com parada em Garibaldi.
Vinícolas, trilhos e casarões de pedra
Entre parreirais, estações de trem e estradas do interior, alguns programas resumem a experiência na capital do vinho:
- Vale dos Vinhedos: estrada cercada de parreirais, com vinícolas de todos os tamanhos, almoços harmonizados e lojas de produtos coloniais.
- Maria Fumaça: viagem em locomotiva a vapor com degustação de vinho, espumante e suco de uva, além de música típica nos vagões.
- Caminhos de Pedra: antiga Linha Palmeiro, roteiro rural com casarões coloniais de pedra e madeira erguidos pelas famílias imigrantes, hoje com cantinas e pousadas.
- Casa da Erva-Mate: parada pouco lembrada dos Caminhos de Pedra, dedicada à erva do chimarrão, outra tradição forte da serra.
- Faria Lemos: distrito que forma outro núcleo de vinícolas nos arredores da cidade, alternativa ao roteiro mais conhecido.
- Pinto Bandeira: município vizinho, emancipado de Bento Gonçalves, procurado por quem quer provar espumantes direto na origem.
As vinícolas e as paisagens do Vale dos Vinhedos aparecem neste vídeo do canal Bora com RafaLu, que apresenta passeios e experiências ligadas à produção de vinho em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha:
Como montar o roteiro e garantir vinícolas e trem?
O ideal é planejar cada dia por região. O guia de roteiros do Melhores Destinos sugere reservar cerca de um dia e meio para o Vale dos Vinhedos, tempo suficiente para três ou quatro vinícolas com calma, e deixar outro dia para os Caminhos de Pedra.
A Maria Fumaça tem horários que variam conforme a época do ano, então vale comprar o passeio com antecedência. Nas vinícolas, almoços harmonizados e visitas guiadas também pedem reserva. Como as distâncias são curtas, mas o roteiro envolve degustação, o melhor é contratar transfer ou eleger um motorista que não beba. O calendário da uva muda bastante a paisagem, e isso pesa na escolha da data.

Qual é a melhor época para visitar Bento Gonçalves?
A colheita da uva, a vindima, acontece entre janeiro e março, de acordo com o guia de atrações do Melhores Destinos, e é quando os parreirais ficam carregados e as vinícolas operam no ritmo máximo. No inverno, o frio de serra combina com vinhos encorpados e mesas fartas, enquanto a chuva se distribui ao longo de todo o ano, sem estação seca definida.
Bento Gonçalves em cada estação
Cada período do ano traz temperaturas e volumes de chuva bem diferentes:
Faixas baseadas nas médias climatológicas de 30 anos do Climatempo. As condições podem variar entre os anos por fenômenos como El Niño e La Niña; para a previsão atual, consulte a previsão do tempo para Bento Gonçalves.
Uma serra onde cada garrafa tem sobrenome
Bento Gonçalves cresceu sem apagar a própria origem. Os lotes de mata que as famílias italianas abriram há 150 anos viraram uma paisagem de parreirais, porões e cantinas que hoje recebe visitantes de todo o país.
Você precisa conhecer Bento Gonçalves e brindar no lugar onde o vinho brasileiro ganhou nome, endereço e história de família.
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