Presos sem salário: tripulantes do cruzeiro Odyssey seguem esperando no Camboja depois que a volta ao mundo acabou
Mais de 150 trabalhadores relatam pagamento atrasado em Sihanoukville depois que a Villa Vie suspendeu a viagem do navio por causa da alta do combustível
A alta do combustível vem encarecendo viagens no mundo inteiro e já deixou uma conta pesada para quem trabalha no mar. Desde a terça-feira passada (27), mais de 150 tripulantes do cruzeiro Odyssey esperam em Sihanoukville, no Camboja. A operadora americana Villa Vie Residences suspendeu a volta ao mundo do navio, e parte da equipe relata salário atrasado há mais de um mês, sem data para voltar para casa.
Tripulantes do Odyssey relatam salário atrasado no Camboja
Os relatos de pagamento atrasado vêm de tripulantes ouvidos pela rede americana NBC News em Sihanoukville. Alguns disseram estar sem receber há mais de um mês. Um trabalhador indiano afirmou não ver dinheiro desde setembro. Segundo autoridades cambojanas, o navio levava 203 passageiros, a maioria americanos, e 156 pessoas na tripulação.
Nem todos vivem a mesma situação. Parte da equipe é contratada por empresas terceirizadas de gestão de pessoal marítimo, e uma enfermeira ucraniana disse à imprensa que não teve atraso. Algumas dezenas de trabalhadores com saída marcada ficaram retidas por um impasse: ninguém sabia quem pagaria os vistos para deixar o país.
Por que a volta ao mundo do Odyssey terminou no Camboja?
Segundo a própria Villa Vie Residences, a volta ao mundo terminou por causa do combustível. Em comunicado divulgado pela agência Associated Press, a empresa disse que o gasto mensal com combustível por cabine saltou de cerca de US$ 1.800 para algo entre US$ 6.000 e US$ 8.000 em partes da Ásia. A companhia atribuiu a alta à guerra envolvendo o Irã.

O Odyssey zarpou de Belfast, na Irlanda do Norte, em 3 de outubro de 2024, como um condomínio flutuante: os moradores compravam ou alugavam cabines para viver a bordo enquanto rodavam o planeta. A empresa fala agora em reestruturação e busca de capital nos próximos 60 dias. Outros cruzeiros já foram interrompidos com gente a bordo, como mostra o caso abaixo.
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Quem garante o salário de um tripulante abandonado no porto?
Pela regra internacional, o salário é responsabilidade do armador, e existe um seguro obrigatório para quando ele deixa de pagar. A Convenção sobre Trabalho Marítimo, de 2006, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), trata da remuneração e das condições de vida de quem trabalha embarcado. Até agora, 113 países ratificaram o tratado, e eles somam 96,6% da tonelagem da frota mundial.
Pelas emendas à convenção, o tripulante é considerado abandonado quando o armador não paga a repatriação, corta o sustento a bordo ou passa ao menos dois meses sem pagar o salário do contrato. A nota de orientação MGN 480 do governo britânico mostra como isso funciona: o seguro cobre até quatro meses de salários atrasados e os custos da volta para casa.
No caso do Odyssey, os relatos falam em atrasos de um mês ou pouco mais, ainda abaixo do prazo de dois meses previsto na regra. A OIT também publicou diretrizes para lidar com casos de abandono de marítimos, voltadas aos países onde fica o porto, ao país da bandeira do navio e aos países de origem dos trabalhadores.

Residentes do navio juntaram dinheiro para ajudar tripulantes
Diante do salário atrasado, os próprios residentes passaram a ajudar a tripulação. Passageiros contaram à imprensa que, de tempos em tempos, aparecia uma caixa de doações a bordo, e uma moradora disse ter dado centenas de dólares aos funcionários. Alguns chegaram a oferecer 15% a mais no valor das cabines para manter a viagem, mas a ideia perdeu força com a suspensão.
Também pesa sobre o grupo a indefinição sobre quem manda no navio. Segundo a emissora CBS News, uma mensagem enviada aos residentes informou que o credor passou a controlar a embarcação. A Sagar Capital, que negociava a compra do Odyssey, desistiu do negócio e disse que a Villa Vie tinha dívidas bem maiores do que o previsto.
Contrato e seguro definem a proteção de quem trabalha a bordo
Quem protege o trabalhador embarcado é o contrato, junto com o seguro exigido pela convenção, e não a boa vontade dos passageiros. O fundador da Villa Vie, Mikael Petterson, disse à CBS que a empresa avalia todas as opções para recuperar o navio e procura um parceiro para operá-lo. A imprensa americana informa que o cruzeiro pode seguir para Singapura, mas ainda não há data confirmada.
Se você trabalha ou pensa em trabalhar em navios, o passo prático é pedir agora uma cópia do contrato e do certificado de garantia financeira contra abandono que a embarcação é obrigada a ter. Guarde os comprovantes de pagamento e anote o contato da empresa que contratou você. Faça isso hoje mesmo, com calma: esse cuidado faz toda a diferença quando a viagem sai do roteiro.
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