O centro de uma geleira antártica pode contribuir até duas vezes mais para o nível do mar em alguns cenários atualizados da NASA
Simulações mostram que a água oceânica infiltrada sob o gelo pode acelerar o recuo de Thwaites e ampliar sua contribuição para o nível do mar até 2100
Novas simulações da NASA indicam que o glaciar Thwaites pode contribuir até duas vezes mais para a elevação do nível do mar até 2100 do que a média de projeções anteriores, sob condições comparáveis. Publicado em outubro de 2026, o estudo revela como a entrada de água oceânica sob o gelo modifica a estabilidade dessa região crítica da Antártida Ocidental.
Por que o glaciar Thwaites preocupa tanto os cientistas?
Localizado na Antártida Ocidental, Thwaites é uma das geleiras mais importantes para compreender o aumento futuro do nível dos oceanos. Sua massa de gelo contém água suficiente para elevar o nível médio global do mar em aproximadamente 65 centímetros, caso desaparecesse completamente.
O problema está na interação entre gelo e oceano. Parte da geleira repousa sobre rochas abaixo do nível do mar, enquanto sua extremidade flutua. A entrada de água relativamente quente nessa transição favorece o derretimento basal e pode acelerar o deslocamento do gelo continental.
O que as novas projeções da NASA revelaram sobre o glaciar Thwaites?
Os pesquisadores descobriram que modelos capazes de representar a penetração da água oceânica por vários quilômetros sob o gelo reproduzem melhor o comportamento observado desde 1996. Em determinadas configurações, a contribuição projetada para 2100 alcançou aproximadamente 30 milímetros de elevação global do mar.
Essa estimativa equivale a cerca do dobro da média de 15,2 milímetros calculada por um conjunto anterior de modelos, sob condições climáticas comparáveis. Entretanto, os pesquisadores destacam que os resultados são projeções condicionais, não uma previsão definitiva do futuro.
Os principais resultados incluem:
- Reconstrução do comportamento glacial entre 1996 e 2023;
- Identificação de zonas de contato com vários quilômetros;
- Projeções de até 30 milímetros até 2100;
- Melhor correspondência com observações de satélites;
- Possibilidade de perda antecipada de apoios naturais da geleira.
O vídeo oficial da NASA mostra a perda de massa de gelo antártico entre 2002 e 2023, destacando regiões como Thwaites e Pine Island por meio de observações dos satélites GRACE.
Como a água oceânica consegue acelerar o derretimento sob a geleira?
Modelos tradicionais frequentemente representam o limite entre gelo apoiado no solo e gelo flutuante como uma linha bem definida. Entretanto, observações recentes mostram que a água marinha pode avançar quilômetros sob regiões aparentemente apoiadas no fundo oceânico.
As marés levantam temporariamente partes do gelo, permitindo a entrada de água relativamente quente. Esse processo aumenta o derretimento subterrâneo, reduz o contato com o leito rochoso e facilita o recuo da geleira. A intensidade depende da temperatura oceânica, da geometria submarina e da extensão dessas intrusões.
Como os pesquisadores da NASA atualizaram as simulações antárticas?
O estudo publicado na Nature Communications, em 12 de outubro de 2026, foi desenvolvido por Mattia Poinelli, Eric Rignot, Helene Seroussi e colaboradores, envolvendo o Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, a Universidade da Califórnia em Irvine e o Dartmouth College.
A equipe utilizou o modelo computacional ISSM e dados de satélites para reconstruir velocidades, espessuras e posições da margem glacial. Simulações que incorporaram zonas de contato entre dois e cinco quilômetros apresentaram correspondência significativamente superior aos registros históricos.

Quais cenários mostram maior perda de gelo no glaciar Thwaites?
A extensão da água sob o gelo modificou fortemente os resultados. Sem considerar uma zona de intrusão, a contribuição calculada foi de aproximadamente 8,3 milímetros. Com três quilômetros, chegou a 19,4 milímetros; com cinco quilômetros, alcançou 30,1 milímetros até 2100.
Esses valores foram obtidos mantendo constante a influência climática oceânica, permitindo investigar isoladamente o mecanismo estudado. As diferenças mostram que representar corretamente o contato entre gelo e fundo marinho pode ser tão importante quanto estimar mudanças futuras na temperatura.
| Intrusão oceânica simulada | Elevação estimada até 2100 |
|---|---|
| Sem zona de intrusão | 8,3 milímetros |
| Zona de 1 quilômetro | 14,3 milímetros |
| Zona de 3 quilômetros | 19,4 milímetros |
| Zona de 5 quilômetros | 30,1 milímetros |
O que ainda precisa ser esclarecido sobre a estabilidade da geleira?
Uma das maiores incertezas envolve o momento em que Thwaites poderá perder contato com elevações submarinas que atualmente ajudam a conter seu movimento. Algumas simulações indicam que essa separação poderia acontecer já em 2038, dependendo das condições consideradas.
Os pesquisadores também precisam aperfeiçoar a representação da topografia submarina, das marés e da circulação oceânica. O resultado não significa que a geleira desaparecerá neste século. Ele demonstra que processos anteriormente simplificados podem alterar significativamente as estimativas utilizadas no planejamento costeiro.
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