Um sítio australiano hoje submerso preservou ferramentas e rotas de uma paisagem indígena que desapareceu quando o mar avançou
Ferramentas encontradas a até 15 metros de profundidade revelam circulação de materiais e antigos territórios indígenas inundados há milhares de anos
Uma investigação na costa da Austrália revelou ferramentas de pedra preservadas em paisagens indígenas submersas há pelo menos 9 mil anos. Publicado em outubro de 2026, o estudo identificou antigos caminhos de circulação, áreas de obtenção de matéria-prima e vestígios de atividades humanas que sobreviveram à elevação do nível do mar.
Como a arqueologia subaquática revelou uma paisagem indígena desaparecida?
A região de Murujuga, no noroeste da Austrália Ocidental, reúne ilhas e formações rochosas que anteriormente integravam uma extensa paisagem continental. Durante a última Era do Gelo, o nível oceânico era muito mais baixo, permitindo que comunidades indígenas circulassem por territórios hoje cobertos pela água.
Com o aquecimento climático e o derretimento das geleiras, aproximadamente 2,12 milhões de quilômetros quadrados da plataforma continental australiana foram inundados. A transformação modificou rios, fontes de água doce e caminhos tradicionais, mas parte dos objetos deixados pelos antigos habitantes permaneceu preservada no fundo marinho.
O que os arqueólogos encontraram nos sítios submersos de Murujuga?
Pesquisadores identificaram dois novos sítios arqueológicos em profundidades entre 11 e 15 metros. Um deles está associado a uma antiga nascente de água doce, enquanto o outro ocupa uma elevação rochosa próxima ao canal de um rio que atravessava a região antes da inundação.
Os mergulhadores encontraram mais de 20 artefatos de pedra, incluindo núcleos utilizados na fabricação de ferramentas, lascas e instrumentos retocados. Algumas peças foram produzidas com rochas provenientes de locais situados a aproximadamente 23 quilômetros, indicando transporte de materiais pela paisagem.
Entre os principais resultados estão:
- Dois novos sítios arqueológicos documentados no fundo marinho;
- Profundidades entre 11 e 15 metros;
- Ferramentas associadas a uma antiga nascente;
- Rochas transportadas de aproximadamente 23 quilômetros;
- Paisagens inundadas há pelo menos 9 mil anos.
O vídeo Deep History of Sea Country: Investigating the Seabed in Western Australia, associado à pesquisa da Flinders University, mostra as investigações subaquáticas realizadas em Murujuga.
Como a arqueologia subaquática identifica antigas rotas de circulação?
A composição mineral das ferramentas oferece pistas sobre sua procedência. Os pesquisadores utilizaram fluorescência de raios X portátil, técnica capaz de identificar elementos químicos presentes nas rochas e comparar artefatos com possíveis fontes naturais de matéria-prima.
Algumas peças apresentaram características compatíveis com rochas da região de Rosemary Island. Essa correspondência sugere que os antigos habitantes transportavam materiais entre diferentes localidades. Entretanto, os objetos não permitem reconstruir trajetos exatos nem distinguir definitivamente deslocamentos individuais de possíveis trocas entre comunidades.
Como os pesquisadores investigaram os vestígios encontrados sob o mar?
O estudo publicado na Quaternary Science Reviews, disponibilizado em 13 de outubro de 2026, foi liderado por Jonathan Benjamin, da Flinders University, com participação de Michael O’Leary, Louise Brooke e especialistas de instituições australianas e britânicas.
A pesquisa combinou levantamentos geofísicos marinhos, análises geomorfológicas, mergulho científico e estudos químicos das ferramentas. Guardiões indígenas da Murujuga Aboriginal Corporation participaram diretamente das operações, contribuindo com conhecimentos sobre o território e sua importância cultural.

Quais características diferenciavam os ambientes ocupados pelos antigos habitantes?
A nascente submersa provavelmente oferecia acesso à água doce, recurso fundamental para grupos humanos. Já a elevação rochosa próxima ao antigo rio apresentava condições favoráveis à obtenção de pedras utilizadas na fabricação de ferramentas.
Essas diferenças sugerem que as comunidades exploravam espaços com funções distintas. A distribuição dos artefatos indica escolhas relacionadas à disponibilidade de recursos, mas não permite afirmar que os locais eram ocupados permanentemente ou utilizados exclusivamente para determinadas atividades.
| Evidência arqueológica | Informação revelada |
|---|---|
| Nascente submersa | Possível ponto de obtenção de água doce |
| Elevação rochosa | Área favorável à produção de ferramentas |
| Pedras transportadas | Deslocamentos de aproximadamente 23 quilômetros |
| Antigo canal fluvial | Referência geográfica para circulação humana |
O que a arqueologia subaquática ainda pode revelar sobre a ocupação australiana?
As descobertas ampliam o registro conhecido da ocupação indígena anterior à transformação das costas australianas. Também demonstram que a história dessas comunidades não termina na linha costeira atual, pois antigos territórios culturais continuam preservados sob o oceano.
Ainda existem dúvidas sobre a posição original de alguns artefatos, já que correntes marinhas podem deslocar materiais. Essa interpretação foi debatida em estudos recentes. Novas escavações, análises sedimentares e datações serão essenciais para compreender a formação dos sítios e proteger esse patrimônio diante de atividades industriais e mudanças costeiras.
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