Uma enzima com formato de Pac-Man ajuda bactérias a desmontar certos plásticos e revelou uma conexão inesperada com resistência a antibióticos
Proteína descoberta em bactérias do solo degrada poliésteres biodegradáveis e também rompe moléculas de antibióticos, levantando novas questões ambientais
Pesquisadores alemães descobriram uma enzima que degrada plásticos biodegradáveis e também consegue destruir determinados antibióticos. Apelidada de enzima Pac-Man, sua estrutura molecular apresenta uma abertura que facilita o contato com polímeros. A descoberta, publicada em setembro de 2026, revela uma conexão inesperada entre decomposição de resíduos e resistência bacteriana.
Por que a enzima Pac-Man representa uma descoberta importante sobre os plásticos?
Bactérias presentes no solo conseguem decompor materiais naturais, como celulose e componentes vegetais. Entretanto, muitos plásticos convencionais possuem estruturas químicas resistentes às enzimas microbianas, permanecendo no ambiente durante períodos prolongados e frequentemente se fragmentando em microplásticos.
Pesquisadores da Universidade de Konstanz, na Alemanha, investigaram poliésteres alifáticos de cadeia longa, chamados LCAPs. Esses materiais podem apresentar propriedades semelhantes às do polietileno convencional, mas contêm ligações químicas que determinados microrganismos conseguem romper, permitindo sua decomposição biológica.
O que os experimentos revelaram sobre a enzima Pac-Man?
Os cientistas enterraram filmes de bioplástico aproximadamente dez centímetros abaixo da superfície de um solo florestal. Posteriormente, observaram pequenas cavidades no material, com dimensões semelhantes às de células bacterianas, sugerindo que microrganismos conseguiam atacar diretamente sua superfície.
Nos experimentos laboratoriais, diferentes bioplásticos foram degradados em aproximadamente 250 a 330 dias. A celulose desapareceu em cerca de 80 dias, enquanto o polietileno de alta densidade apresentou degradação praticamente inexistente durante o período analisado.
Os principais resultados observados foram:
- Decomposição de bioplásticos entre 250 e 330 dias;
- Degradação da celulose em aproximadamente 80 dias;
- Resistência elevada do polietileno convencional;
- Identificação de uma enzima associada à membrana bacteriana;
- Capacidade experimental de degradar poliésteres e antibióticos betalactâmicos.

Como a enzima Pac-Man consegue quebrar cadeias de plástico?
A enzima pertence à família VIII das esterases, proteínas capazes de romper determinadas ligações químicas. Sua estrutura apresenta uma cavidade catalítica ampla e aberta, lembrando a boca do personagem Pac-Man, permitindo que cadeias relativamente grandes de polímeros alcancem a região responsável pela reação.
Os pesquisadores também identificaram sinais de que essa proteína pode permanecer ancorada à membrana externa das bactérias. Essa localização facilitaria o ataque direto ao plástico e a captura dos fragmentos produzidos, embora o funcionamento dessa estratégia na natureza ainda precise ser demonstrado.
Como os pesquisadores identificaram a conexão com antibióticos?
O estudo publicado na revista The ISME Journal, em 2 de setembro de 2026, foi conduzido por pesquisadores incluindo Harry Lerner e David Schleheck, da Universidade de Konstanz. A equipe combinou sequenciamento genético de comunidades do solo, modelagem estrutural e testes bioquímicos.
As análises revelaram semelhanças entre a enzima e as betalactamases, proteínas bacterianas capazes de inativar antibióticos. Experimentos confirmaram que ela também rompe ligações presentes em determinados medicamentos betalactâmicos, incluindo penicilinas. Entretanto, essa atividade laboratorial não comprova resistência clínica em bactérias vivas.
Quais materiais apresentaram diferenças na decomposição biológica?
A comparação demonstrou que a composição química influencia decisivamente a biodegradação. Poliésteres possuem ligações suscetíveis à hidrólise enzimática, enquanto o polietileno convencional apresenta uma cadeia de carbono muito mais difícil de atacar biologicamente.
Essa diferença explica por que materiais com propriedades mecânicas semelhantes podem apresentar destinos ambientais distintos. Os resultados também indicam que a biodegradabilidade depende das condições experimentais, da comunidade microbiana e da estrutura química do produto.
| Material analisado | Degradação observada |
|---|---|
| Celulose | Aproximadamente 80 dias |
| Bioplásticos testados | Cerca de 250 a 330 dias |
| Polietileno convencional | Degradação praticamente ausente |
Quais aplicações e riscos estão associados à enzima Pac-Man?
A descoberta poderá orientar pesquisas sobre reciclagem biológica e desenvolvimento de materiais mais facilmente degradáveis. Enzimas capazes de atuar diretamente sobre polímeros também interessam à criação de processos industriais que recuperem componentes químicos para reutilização.
Entretanto, existem limitações importantes. A enzima não demonstrou capacidade de eliminar indiscriminadamente plásticos convencionais, e sua relação com resistência a antibióticos exige investigação adicional. Pesquisadores precisarão avaliar eficiência, segurança microbiológica e possíveis consequências ambientais antes de considerar aplicações industriais.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)