Correção depois de tumulto não é sinal de que tudo está bem na economia
Dólar e juros futuros retrocederam nesta terça, mas persistem as dúvidas sobre a disposição do governo de conter dívida pública
Depois do tumulto de segunda-feira os mercados financeiros passaram por uma correção nesta terça, 27. O dólar, que havia disparado 8,21% após a reeleição de Lula, recuava 1,09%, para R$ 5,34, por volta das 13h15. Os juros futuros também caíam: a taxa negociada para janeiro de 2031 passou de 15,28% para 14,95% ao ano. A bolsa, porém, continuava volátil, com leve queda no início da tarde, depois de ter perdido quase 14% na véspera.
A correção dos excessos não significa que a desconfiança tenha desaparecido. Persistem dúvidas sobre a disposição do governo de conter o crescimento da dívida pública e sobre a política econômica que Lula adotará em seu quarto mandato.
Por que isso interessa
O pânico de segunda-feira não é prenúncio de uma crise inevitável, assim como a recuperação parcial desta terça como garantia de normalidade.
Importa separar os efeitos passageiros da reação eleitoral daqueles que podem persistir caso o governo não consiga restabelecer a confiança na condução das contas públicas.
O mais prudente para as empresas é trabalhar desde já com cenários mais e menos otimistas para dólar, juros e crescimento, avaliando os efeitos de cada um sobre custos, investimentos e fluxo de caixa.
Panorama
O primeiro canal de transmissão é o câmbio. A valorização do dólar encarece matérias-primas importadas, máquinas, componentes e dívidas contratadas em moeda estrangeira. Parte desse aumento pode chegar aos preços finais, alimentando a inflação.
O segundo são os juros. As taxas negociadas para os próximos anos influenciam o custo dos empréstimos e a avaliação de novos investimentos. Se permanecerem elevadas, projetos antes rentáveis podem deixar de compensar.
Há ainda um terceiro efeito: o crédito. Os bancos já vinham adotando critérios mais rigorosos diante da inadimplência empresarial. Um ambiente de maior incerteza pode reforçar exigências de garantias, encurtar prazos e elevar o custo dos financiamentos.
A combinação é especialmente delicada para empresas endividadas, dependentes de importações ou que vendem produtos financiados ao consumidor.
Lupa: a influência do dólar
O comportamento do câmbio nas próximas semanas será decisivo para o governo.
Se a valorização do dólar for temporária, o Banco Central poderá preservar espaço para continuar reduzindo a Selic, hoje em 13,75% ao ano. Se a moeda americana permanecer pressionada, a inflação poderá interromper esse processo e até exigir juros maiores.
A margem política para um ajuste já foi estreitada pelas promessas eleitorais de Lula, incluindo aumentos reais de benefícios e novos programas de transferência e renegociação de dívidas.
Radar empresarial
A primeira providência é revisar projeções financeiras com diferentes cenários de dólar e juros, identificando os efeitos sobre margens, dívidas e necessidade de capital de giro.
A segunda é examinar o calendário de vencimentos. Empresas que precisarão renovar empréstimos nos próximos meses devem antecipar negociações, avaliar garantias disponíveis e evitar depender de uma única fonte de financiamento.
Também é necessário revisitar contratos com fornecedores e clientes, identificando custos que precisarão ser absorvidos.
No plano institucional, entidades empresariais têm uma pauta objetiva: cobrar do governo medidas fiscais com valores, prazos e efeitos verificáveis, em vez de compromissos genéricos com a estabilidade.
Em entrevista publicada pelo Valor nesta terça, o economista Eduardo Giannetti afirma que Lula precisa agir logo no começo do próximo mandato.
Diz ele: “A mensagem que Lula tem que dar é a seguinte: “Eu não vou trair minhas promessas de campanha, mas preciso colocar a economia em ordem para poder atendê-las para valer”. É uma sequência. Ele tem que usar muito bem o início do mandato. Os primeiros três meses dão o tom do que será o mandato.”
Na verdade, não há por que conceder tanto tempo ao presidente reeleito. É legítimo cobrar desde já a demonstração de que o próximo mandato não será mera continuação do atual no campo da economia.
Resumo da ópera
A reação à eleição pode perder intensidade nos próximos dias. Seus efeitos sobre a economia, porém, dependerão da resposta do governo.
Para as empresas, a prioridade não é tentar adivinhar a cotação do dólar. É preparar o caixa para um período de incerteza e exigir clareza sobre as decisões que definirão o custo de operar e investir no Brasil.
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