Poucos dias de cigarro eletrônico já bastam para danificar células do pulmão, aponta estudo
Pesquisa da JCI Insight, feita em laboratório e com hamsters, registrou lesão após 24 horas de vapor e defesa mais fraca contra o vírus da covid
Uma exposição curta ao vapor do cigarro eletrônico foi suficiente para ferir células do pulmão e enfraquecer a defesa contra vírus respiratórios. É o que mostra um estudo publicado na revista JCI Insight por pesquisadores do National Jewish Health e da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos.
O trabalho foi feito em laboratório, não em pessoas. Segundo o artigo na JCI Insight, células humanas do pulmão mostraram danos após 24 horas de contato com o aerossol, e hamsters expostos por cinco dias seguidos ainda tinham sinais de estresse pulmonar dez dias depois.
Como o estudo sobre cigarro eletrônico e pulmão foi feito
O artigo se chama “E-cigarette exposure triggers distal lung cell injury, persistent lung stress response, and antiviral immune suppression”. Os primeiros autores são Tanner C. Rivera e Kelly S. Schweitzer, e a autora sênior é a pneumologista Irina Petrache, chefe da divisão de pulmão e terapia intensiva do National Jewish Health. A publicação saiu em 2026, no volume 11 da JCI Insight.

A equipe usou três modelos: células humanas que revestem os alvéolos e os vasos do pulmão, fatias finas de pulmão humano mantidas vivas em laboratório e hamsters sírios. Os animais receberam vapor de cigarro eletrônico uma vez por dia, durante cinco dias consecutivos, conforme descrito no estudo.
Os próprios autores tratam os resultados como preliminares. Eles afirmam que os achados precisam ser confirmados em humanos antes de qualquer conclusão definitiva sobre o efeito em quem usa vape.
O que acontece com as células do pulmão
O alvo foi a parte mais profunda do pulmão, onde ficam os alvéolos, os saquinhos que fazem a troca de oxigênio com o sangue. Ali existe uma barreira fina de células que impede a passagem de líquido e de microrganismos.
No laboratório, o aerossol enfraqueceu essa barreira. As células também passaram a ter dificuldade para eliminar seus próprios componentes danificados, se multiplicaram menos, se reparavam mais devagar e morriam com mais frequência.
Em resumo: a parede que protege o pulmão ficou mais porosa, e as células que deveriam consertá-la perderam fôlego. Nos hamsters, essas alterações seguiam presentes mesmo após o fim da exposição, segundo o artigo.
Em entrevista ao jornal americano Deseret News, Petrache disse que os dados sugerem que mesmo um uso de curto prazo do vape pode iniciar lesões nas regiões mais delicadas do pulmão.
Defesa contra vírus mais fraca
Depois da exposição, os hamsters foram infectados com o SARS-CoV-2, o vírus da covid-19, e em parte dos testes também com o vírus da gripe A. Os animais que tinham recebido vapor apresentaram mais vírus nas vias aéreas superiores.
O estudo também registrou menor atividade de genes ligados à resposta antiviral e prejuízo na chamada imunidade Th1, braço do sistema de defesa especializado em combater vírus. O efeito sobre a perda de peso dos animais variou conforme o sexo.
Para os autores, isso ajuda a explicar por que o uso de cigarro eletrônico aparece associado a lesões pulmonares e a maior risco de infecções respiratórias. A ligação direta em pessoas, porém, ainda depende de novos estudos.
No Brasil, a venda é proibida
A Anvisa proíbe a fabricação, a importação, a venda, a distribuição, o armazenamento, o transporte e a propaganda de dispositivos eletrônicos para fumar desde 2009. A regra foi mantida e atualizada pela Resolução RDC nº 855, de 23 de abril de 2024, que também veta o uso desses aparelhos em ambientes coletivos fechados.
A proibição vale para acessórios, peças e refis, e inclui produtos trazidos por viajantes na bagagem. Quem tenta entrar no país com o aparelho pode ter problemas, como no caso do turista abordado no aeroporto com um vape na mala.
Onde buscar ajuda para parar
O SUS oferece tratamento gratuito para quem quer largar o cigarro, dentro do Programa Nacional de Controle do Tabagismo, coordenado pelo INCA. De acordo com a página de tratamento do tabagismo do INCA, o atendimento inclui avaliação clínica e acompanhamento individual ou em grupo, com base na abordagem cognitivo-comportamental.
Quando necessário, a rede pública fornece adesivo e goma de nicotina, além da bupropiona, sempre junto com o acompanhamento. Para saber onde há atendimento perto de casa, a orientação do INCA é procurar a secretaria de saúde do seu município ou estado.
Quem usa vape pode levar a dúvida ao médico da unidade de saúde, que avalia cada caso. Mudanças de rotina também contam, como mostram estas dicas para abandonar o vício em cigarro. O estudo completo está disponível no site da JCI Insight.
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