O que sobrou do bolsonarismo
Com seus três principais atores praticamente neutralizados, família Bolsonaro dependerá do acaso, como sempre, para seguir mandando
O bolsonarismo surgiu por uma sucessão de acasos do destino. Um obscuro deputado federal do baixo clero recebeu atenção de programas de tevê popularescos pelo discurso reacionário em meio ao avanço de pautas progressistas, a ponto de achar que poderia se candidatar a presidente.
Sua campanha estava destinada a ser uma entre tantas outras, mas Jair Bolsonaro levou uma facada em público, enquanto estava nos braços do povo, e concorria, naquela eleição de 2018, contra um ex-presidente preso por corrupção pela revolucionária Operação Lava Jato.
Além disso, o ex-capitão do Exército cativou parte da população pela personalidade tosca e espontânea — por vezes calculadamente espontânea —, que lhe permitiu, como nenhum outro político tinha conseguido até então, suportar os mais baixos ataques petistas na campanha.
Por acaso
Bolsonaro chegou assim, por acaso, ao poder, e ainda deu o azar de pegar uma pandemia durante seu governo. O presidente reagiu da pior forma possível, ficou marcado como insensível e ainda tentou corrigir os problemas de seu governo com subterfúgios para permanecer no Palácio do Planalto.
Acabou preso por tentativa de golpe de Estado, num processo que se confunde com a tentativa de enrolados ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) de salvar a própria pele.
O ex-presidente escalou seu filho para tentar voltar ao poder e, como consequência, tirá-lo da cadeia, mas o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ, à esquerda na foto) foi rejeitado pelas urnas, contra aquele mesmo presidente que concorreu contra seu pai de dentro da cadeia em Curitiba.
O filho 01 de Bolsonaro acrescentou à rejeição do pai a sua própria rejeição, graças a um passado não muito honroso, a um plano aloprado de patrocinar um filme sobre o pai, a uma campanha suja de Lula e a centenas de bilhões de reais dos brasileiros, investidos em sua reeleição.
Quem sobrou?
Agora, quem corre risco de prisão é o próprio Flávio.
O ministro Alexandre de Moraes, que comandou a condenação de seu pai e está no topo da lista para se tornar alvo de um processo de impeachment no novo Senado, atendeu ao pedido da Polícia Federal para apreender seus passaportes 7 minutos depois do fim da eleição.
Terceiro na linha sucessória da família, o deputado federal Eduardo Bolsonaro vive autoexílio nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025, onde acabou perdendo o mandato por faltas, e também já foi condenado pelo mesmo STF, sob acusação de coação em favor do pai.
Restam o senador eleito Carlos Bolsonaro (PL-SC) e o deputado federal eleito Jair Renan (PL), que nunca foram tratados como alternativa relevantes pelo clã, além de Renato Bolsonaro (PL-SP), irmão do ex-presidente que também se elegeu deputado federal, e de Michelle Bolsonaro (à direita na foto).
Michelle
A ex-primeira-dama foi tolerada pelos enteados na reta final da campanha após anos de desentendimentos e se elegeu senadora pelo Distrito Federal. Ironicamente, parece hoje a bolsonarista mais bem posicionada para carregar a bandeira da família.
É muito cedo para falar sobre as próximas eleições, mas as municipais de 2028 devem começar a responder o que será do bolsonarismo. Antes disso, ainda há muito a ocorrer, contudo.
Michelle conseguirá se destacar como senadora? A oposição erguida pelo bolsonarismo conseguirá eleger o presidente do Senado no início do próximo ano? Abrirá o primeiro processo de impeachment contra o qual Moraes tenta se blindar ao ameaçar Flávio de prisão?
Os frutos do bolsonarismo, como o deputado federal reeleito Nikolas Ferreira (PL-MG) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), florescerão sozinhos?
Qualquer previsão, por mais calculada e razoável que pareça, será muito arriscada. Não é apenas a história da família Bolsonaro que foi escrita por acasos, é a história de um país pobre e caótico.
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