As definições de golpismo foram atualizadas
Estratagemas de Lula para permanecer no poder não tornam o bolsonarismo mais confiável; apenas não credenciam o petista como alternativa democrática
Os eleitores de Lula (PT, foto) passaram a campanha inteira, e especialmente o segundo turno contra Flávio Bolsonaro (PL-RJ), martelando o discurso de que seu candidato era a única opção democrática da eleição. Enquanto isso, o presidente apelava como nunca antes na história deste país para subterfúgios econômicos e jurídicos para permanecer no poder.
A história de golpismo do Brasil é extensa, remonta ao Império e à origem da República, passa por Getúlio Vargas, que é cultuado até hoje, e desemboca na ditadura militar de 1964, a referência mais viva na memória do país. A verdade é que o ímpeto golpista faz parte da nossa política.
A esquerda brasileira apelou à lembrança de 1964 durante o impeachment de Dilma Rousseff, uma combatente sem grande expressão do regime militar, e Jair Bolsonaro justificou, anos depois, todos os receios alimentados desde a redemocratização, ao encher seu governo de militares e conspirar para tentar permanecer no poder em 2022, num processo que o levou à cadeia.
Tramas golpistas
É natural que Bolsonaro e sua família sejam identificados como um risco à democracia, principalmente pela forma como o Supremo Tribunal Federal (STF) o condenou no processo da trama golpista – um processo imperfeito, para dizer o mínimo, porque fez parte de estratégias de autopreservação de ministros enrolados do tribunal, mas que se justificou, no limite, pelas provas deixadas pelos próprios envolvidos, por meio de mensagens de celular e até declarações públicas.
Bolsonaro também apelou para o uso da máquina pública para tentar permanecer no cargo. Mas Dilma fez o mesmo em 2014, maquiando as contas públicas. E Lula elevou esses subterfúgios nesta eleição a um novo patamar – e, o mais grave, com a ajuda de seus aliados no Judiciário.
Uma definição mais elástica do golpismo, como o usada pelos petistas em 2016 para defender Dilma, também deveria incluir os esquemas do mensalão e do petrolão no rol de tentativas, assim como a própria eleição de Dilma, um subterfúgio de Lula para permanecer mandando (que deu errado).
Ajuda do STF
Mas, nesta eleição, a estratégia envolveu um elemento novo.
Lula empenhou cerca de 350 bilhões de reais do dinheiro dos brasileiros na tentativa de se reeleger, botou na Constituição uma limitação para o regime de trabalho cujas consequências nem sequer foram calculadas, reajustou um programa social à portas do primeiro turno, rompeu os contratos de empresas de aposta com as quais tinha se comprometido e ainda as processou, tentou iniciar uma guerra religiosa com base em mentiras, perdoou dívidas sem saber de onde sairá o dinheiro para cobri-las, e tudo isso depois de fazer um dos governos mais irresponsáveis da história, que elevou a dívida pública de forma absurda e endividou a população como nunca, com juros recordes.
Tudo isso foi avalizado por seus aliados no STF, um tribunal cuja partidarização chegou a um nível insustentável. O governo de Lula só chegou até aqui, aliás, por causa de alguns ministros do tribunal, que reverteram as derrotas do governo no Congresso Nacional, como no caso do reajuste do IOF.
Durante a campanha, esses ministros atuaram de forma escancarada para beneficiar a candidatura do presidente, endossando suas medidas eleitoreiras e liberando a disseminação de mentiras, além de levar ao cancelamento do último debate do primeiro turno por tentar beneficiá-lo.
Pegou tão mal que eles se retraíram no segundo turno.
Alternativa democrática?
Diante de tudo isso, o discurso do medo contra a família Bolsonaro perdeu força.
Os estratagemas de Lula para permanecer no poder não tornam o bolsonarismo mais confiável; apenas não credenciam o petista como alternativa democrática.
E a tolerância da elite intelectual brasileira com tudo isso cobrará seu preço.
No Brasil, a história ensina que é preciso desconfiar de todos os projetos de poder, especialmente os que alegam com mais insistência defender a democracia.
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