Enzima criada em laboratório conseguiu dobrar a quebra de um tipo de tecido de poliéster e pode mudar a reciclagem de roupas velhas
A combinação de proteínas funcionou melhor depois que o tecido passou por tratamento
Um tecido de poliéster moído e tratado passa por uma reação química que pode recuperar parte dos compostos usados na fabricação do plástico. Cientistas das universidades de Portsmouth e Manchester, no Reino Unido, desenvolveram uma enzima para reciclar poliéster que dobrou a quantidade de produtos da degradação em uma amostra específica. O resultado, divulgado em março de 2026, dependeu da preparação do tecido e ainda não representa uma solução pronta para reciclar qualquer roupa descartada.
Como uma enzima consegue quebrar o poliéster?
A enzima acelera uma reação que rompe ligações químicas do PET, plástico usado na fabricação de muitos tecidos sintéticos. Esse material também aparece em embalagens e garrafas.
O PET contém cadeias formadas pela repetição de unidades químicas. Quando a reação enzimática funciona, essas cadeias podem ser quebradas em compostos menores, que podem servir de matéria-prima para novas aplicações.
A Universidade de Portsmouth explicou a descoberta em março de 2026, destacando a importância do pré-tratamento do tecido.
A dificuldade é que as fibras de poliéster utilizadas em roupas costumam apresentar uma organização molecular resistente. Essa característica aumenta a durabilidade do tecido, mas dificulta o acesso das enzimas às ligações que precisam ser quebradas.

O que os pesquisadores modificaram na enzima original?
A equipe combinou uma enzima capaz de quebrar polímeros com um módulo que ajuda a se ligar ao material. A construção recebeu o nome de enzima de fusão.
A parte responsável pela reação é uma cutinase, classe de enzimas que pode atuar sobre determinadas ligações químicas. O módulo adicional ajuda a proteína a se aproximar da superfície do PET.
Os pesquisadores escolheram componentes que funcionassem em condições semelhantes de temperatura e que apresentassem compatibilidade com as características do plástico.
O artigo científico registrado pela Universidade de Portsmouth descreve o desenvolvimento da enzima e sua avaliação em materiais com diferentes estruturas.
O experimento envolveu etapas complementares:
Em qual tecido a quantidade de produtos da quebra dobrou?
O maior ganho ocorreu em um tecido de poliéster pré-consumo que havia sido tratado para reduzir sua cristalinidade e moído em partículas pequenas. Esse preparo facilitou o contato entre a enzima e o plástico.
A cristalinidade descreve o grau de organização das cadeias do material. Quando elas ficam muito compactadas, a enzima encontra mais dificuldade para alcançar os pontos onde a reação ocorre.
Os pesquisadores utilizaram condições de processamento com alta concentração de sólidos e controle do pH, aproximando o experimento de desafios encontrados em processos industriais.
A quantidade de produtos úteis da degradação dobrou nessa amostra preparada. O resultado não significa que todas as roupas de poliéster possam ser degradadas ao dobro da velocidade sem tratamento prévio.
Por que a enzima não funcionou igualmente bem em todos os plásticos?
A maior capacidade de aderir ao PET não garantiu aumento de degradação nos materiais mais cristalinos. A enzima conseguia se ligar à superfície, mas ainda enfrentava limitações para romper as cadeias químicas.
Nos materiais com estrutura menos ordenada, a reação ocorreu com maior facilidade. Isso mostrou que a composição da enzima precisa ser avaliada junto com a estrutura física do plástico.
O estudo também observou atividade estável em condições de temperatura controlada, mas o desempenho diminuía quando a operação ultrapassava a faixa adequada à proteína.
Essa diferença indica que a reciclagem enzimática precisa considerar o preparo das fibras e o funcionamento de todo o processo, não apenas a quantidade de enzima adicionada.

Como essa descoberta poderá mudar a reciclagem de roupas?
O resultado oferece uma alternativa de pesquisa para recuperar matérias-primas de tecidos sintéticos difíceis de processar. A reciclagem convencional pode enfrentar dificuldades quando as roupas possuem fibras misturadas, corantes ou acabamentos especiais.
Em um processo enzimático, o objetivo é quebrar o polímero e obter compostos que possam participar da fabricação de novos materiais.
Essa estratégia é diferente do desenvolvimento de materiais que combinam resíduos vegetais e plásticos, como um compósito produzido com bambu e plástico por pesquisadores chineses. No experimento britânico, o objetivo é recuperar os componentes químicos do PET.
O que falta para a enzima ser utilizada na reciclagem industrial?
A tecnologia ainda precisa demonstrar desempenho econômico e técnico com resíduos reais em escala maior. O estudo utilizou amostras controladas, incluindo tecido preparado antes da reação.
Roupas descartadas podem conter algodão, elastano, corantes e outros componentes que alteram o comportamento do processo. Essas misturas exigem etapas de separação e avaliação específicas.
Os pesquisadores também precisam considerar o custo do pré-tratamento, a estabilidade da enzima e a recuperação dos compostos produzidos.
O próximo desafio é transformar o ganho observado em laboratório em um processo capaz de lidar com diferentes resíduos têxteis. Até lá, o resultado representa uma melhoria experimental importante para a reciclagem do poliéster, sem comprovar a viabilidade de uma operação comercial completa.
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