As pás das turbinas eólicas são a parte da máquina que os ferros-velhos recusam: em Atlanta, construíram a primeira ponte dos Estados Unidos que as reaproveita como vigas de carga
A estrutura transforma um resíduo difícil de reciclar em parte útil de uma obra
Em um parque arborizado do bairro de Buckhead, em Atlanta, moradores atravessam um riacho caminhando sobre uma peça que já girou no alto de uma torre no Colorado. A pá de turbina eólica, com 15 metros e cerca de 3,2 toneladas, virou a viga principal da primeira ponte desse tipo nos Estados Unidos, instalada em março de 2025. A solução dá função estrutural a um componente que a reciclagem convencional quase não consegue aproveitar.
Por que as pás são o maior problema da reciclagem eólica?
A maior parte de uma turbina vira sucata com facilidade. Segundo o Departamento de Energia dos Estados Unidos, cerca de 85% a 90% da massa de um aerogerador é feita de materiais que já têm reciclagem comercial, como o aço da torre e o cobre do gerador.
O que sobra são os compósitos, materiais que combinam fibra de vidro ou de carbono com resina endurecida. Eles estão principalmente nas pás, mas também na capa da nacele e do cubo. Ao contrário do metal, não podem ser derretidos e moldados de novo, e o tamanho das pás dificulta transporte e trituração.

Como uma pá de turbina vira viga de ponte?
Uma pá passa a vida trabalhando como viga: presa em uma ponta, suporta vento, peso próprio e milhões de ciclos de esforço. A rede de pesquisa Re-Wind, formada por universidades dos EUA, da Irlanda e do Reino Unido, aproveita essa resistência sem quebrar a peça.
Um artigo da rede publicado pela Munster Technological University descreve o roteiro usado em cada projeto:
Em Atlanta, a equipe colocou um deck de madeira de cada lado da pá. Segundo a revista CompositesWorld, o desenho reduz os esforços de torção sobre a peça e permite vencer cerca de 15 metros sobre o riacho.
Como nasceu a ponte de Beaverbrook Park?
O engenheiro Jud Ready, do instituto de pesquisa da Georgia Tech, conhecia o parque desde a pós-graduação e sabia que o riacho isolava parte da área verde. De acordo com a Georgia Tech, a verba recebida de uma ONG local não chegava perto do custo de uma ponte comum.
Ready levou o problema ao professor Russell Gentry, líder da Re-Wind nos EUA. Com apoio da National Science Foundation, do Departamento de Energia e da fabricante Siemens Gamesa, que doou a pá, uma equipe de 12 estudantes e pesquisadores trouxe a peça do Colorado e a instalou no parque.
Onde já existem pontes feitas com pás eólicas?
Atlanta não foi a primeira cidade do mundo. A Queen’s University Belfast informou que os pesquisadores carregaram blocos de concreto sobre uma das pontes irlandesas sem conseguir fazê-la falhar. A rede já tem estas estruturas:
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A ponte não resolve o lixo eólico, mas abre um caminho
Uma ponte de parque consome uma pá; um parque eólico desativado pode gerar centenas delas. Por isso a Re-Wind estuda outros usos estruturais, como postes de linhas de transmissão, barreiras acústicas, muros de contenção no litoral e abrigos.
O valor do projeto de Atlanta está na prova prática: uma peça vista como resíduo virou infraestrutura pública permanente, contratada por uma associação de moradores e usada todos os dias para chegar a uma área do parque antes isolada.
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