O relógio da Terra perde e ganha milissegundos por causa de algo a 5 mil quilômetros de profundidade: o núcleo interno puxa o manto
Estudo publicado na Nature revela como a atração gravitacional entre o núcleo interno e o manto altera discretamente a duração dos dias
A rotação da Terra sofre pequenas oscilações provocadas por forças gravitacionais originadas em seu interior. Um estudo publicado na revista Nature, em setembro de 2026, revelou que movimentos do núcleo interno podem alterar a duração do dia em alguns milissegundos, por meio de interações com irregularidades presentes no manto terrestre.
Como o núcleo interno da Terra consegue alterar a duração do dia?
A Terra não gira exatamente na mesma velocidade durante toda a sua história. Embora um dia convencional tenha 24 horas, medições extremamente precisas revelam pequenas variações na duração da rotação. Parte dessas mudanças ocorre porque o núcleo metálico e o manto rochoso trocam momento angular, modificando discretamente a velocidade da superfície.
Pesquisadores da Universidade de Alberta, no Canadá, investigaram oscilações observadas ao longo de várias décadas. A descoberta indica que a atração gravitacional entre o núcleo interno e estruturas profundas do manto desempenha papel dominante nas variações mais lentas, enquanto forças eletromagnéticas e mecânicas atuam em sentido contrário, regulando a intensidade dessas mudanças.
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Por que a rotação da Terra varia em apenas alguns milissegundos?
O núcleo interno é uma esfera predominantemente metálica, situada a mais de 5.000 quilômetros de profundidade. Embora esteja envolvido pelo núcleo externo líquido, ele apresenta movimentos de rotação ligeiramente diferentes daqueles realizados pelo manto. Essas diferenças modificam o alinhamento entre regiões de densidade desigual existentes nas camadas profundas.
A atração gravitacional procura restabelecer esse alinhamento, exercendo um torque sobre o manto. Dependendo da direção dessa força, a rotação terrestre pode acelerar ou desacelerar discretamente. Os pesquisadores identificaram cinco características importantes:
- A duração do dia oscila alguns milissegundos ao longo de décadas;
- O núcleo interno apresenta movimentos relativos ao manto;
- A atração gravitacional atua entre distribuições desiguais de massa;
- Forças eletromagnéticas e topográficas resistem ao movimento;
- O modelo reproduz oscilações observadas durante aproximadamente 55 anos.

Como o núcleo interno transmite sua força ao manto terrestre?
O mecanismo não depende de contato direto entre as duas camadas. O núcleo interno possui pequenas irregularidades geométricas, enquanto o manto apresenta regiões com diferentes densidades. Quando essas estruturas ficam desalinhadas, a gravidade exerce forças que tendem a reorganizar suas posições relativas, produzindo uma interação capaz de modificar a rotação.
Ao mesmo tempo, movimentos do ferro líquido no núcleo externo geram forças eletromagnéticas e pressões sobre irregularidades na fronteira com o manto. O resultado é uma disputa entre torques gravitacionais, eletromagnéticos e topográficos. As simulações indicam que a contribuição gravitacional predomina nas oscilações mais longas, enquanto as outras duas se opõem parcialmente a ela.
Quais evidências científicas comprovam a influência gravitacional?
O estudo foi conduzido por Huifeng Zhang e Mathieu Dumberry, da Universidade de Alberta, e publicado em 23 de setembro de 2026 na revista Nature. No artigo científico original, os pesquisadores combinaram reconstruções sísmicas da rotação do núcleo interno, informações sobre o campo magnético terrestre e registros históricos da duração do dia.
A análise concentrou-se no período entre 1964 e 2019, depois de descontar contribuições atmosféricas, oceânicas e tendências de longo prazo. O modelo gravitacional reproduziu satisfatoriamente oscilações com períodos próximos de 60 a 70 anos. Entretanto, as estimativas dependem da precisão dos modelos utilizados para reconstruir movimentos que não podem ser observados diretamente.
O que os dados revelam sobre a rotação da Terra?
Os pesquisadores estimaram que a oscilação relativa do núcleo interno apresenta amplitude aproximada de 2,35 graus durante um ciclo multidecadal. A intensidade do torque gravitacional necessário para explicar os registros fica na ordem de 10¹⁹ newton-metros, valor expressivo que produz efeitos extremamente pequenos diante da enorme inércia rotacional terrestre.
O estudo também sugere que deformações do núcleo interno podem relaxar em poucos anos. Essas propriedades ajudam a explicar por que diferentes mecanismos físicos dominam oscilações observadas em escalas temporais distintas.
| Característica | Resultado |
|---|---|
| Período analisado | 1964–2019 |
| Oscilação dominante | Cerca de 60–70 anos |
| Amplitude angular | Aproximadamente 2,35° |
| Variação do dia | Alguns milissegundos |
Por que o núcleo interno pode revelar segredos das profundezas terrestres?
As oscilações oferecem uma maneira indireta de investigar materiais localizados milhares de quilômetros abaixo da superfície. Os resultados são compatíveis com estruturas profundas do manto que apresentam propriedades químicas particulares, além de possíveis camadas enriquecidas em ferro próximas à fronteira com o núcleo externo.
Ainda existem limitações importantes. A pesquisa não demonstra que todas as variações diárias sejam produzidas pelo núcleo interno, já que atmosfera, oceanos e marés também influenciam a rotação. A principal contribuição é explicar oscilações multidecadais por meio de interações gravitacionais, abrindo novas possibilidades para compreender a dinâmica e a composição das regiões mais profundas do planeta.
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