Como um mecânico italiano transformou um Fiat Panda de 1993 num carro de um lugar só, com 50 centímetros de largura, e por que ele não pode rodar na rua
Andrea Marazzi cortou o hatch ao meio, trocou o motor por um elétrico de 24 volts e chegou a 15 km/h; o Guinness oficializou o recorde em setembro
Em 2024, um Fiat Panda de 1993 em bom estado chegou ao ferro-velho da família Marazzi, em Bagnolo Cremasco, no norte da Itália. Em vez de ir para o desmanche, o carro virou o projeto mais estranho do mecânico Andrea Marazzi: ele decidiu tirar o miolo do hatch e juntar as duas metades de novo, até sobrar espaço para uma pessoa só.
O resultado tem 50,2 centímetros de largura, contra 1,46 metro do Panda original, segundo o registro publicado pelo Guinness World Records em 16 de setembro de 2026. O Fiat Panda de um lugar só ganhou o nome de Panda per Uno, algo como “Panda para um”, e anda movido por um pequeno motor elétrico.
Um corte no meio, com régua de cirurgião
O trabalho começou pela parte fácil de descrever e difícil de fazer. Marazzi retirou portas e painéis laterais e passou a cortar e soldar de novo a seção central da carroceria, conta o Guinness. A etapa mais delicada, segundo o próprio relato à organização, foi cortar a estrutura de modo que as duas metades ficassem perfeitamente simétricas na hora de reencontrar uma à outra. Um erro de poucos milímetros ali deixaria o carro torto para sempre.

Do lado de fora, quase tudo o que se vê é Panda de verdade. O mecânico fabricou peças sob medida apenas para o capô, o teto e a tampa traseira, e manteve o restante da carroceria como saiu da fábrica. O Guinness calcula que cerca de 90% do carro usa componentes do doador original. A revista italiana alVolante, que noticiou o projeto em julho de 2025, descreveu os detalhes que entregam a operação: um único farol espremido entre dois piscas, para-brisa em formato triangular, para-choque traseiro encurtado e as janelas dianteiras abertas para caber o motorista.
A ideia nasceu para um palco específico. Marazzi desenhou o Panda per Uno pensando no Panda a Pandino, encontro de donos do modelo na cidade de Pandino, perto de Milão. Foi lá que o carro apareceu em 2025 e começou a circular em vídeos, um ano antes de o recorde ser oficializado.
O que mudou na mecânica do Panda per Uno
Encolher a carroceria obrigou o mecânico a refazer quase tudo o que fica embaixo dela. O motor a gasolina saiu de cena, e o Guinness registra um pequeno motor elétrico alimentado por um conjunto de baterias. O site italiano Motorbox detalhou a solução: um motor de 24 volts montado direto em uma das rodas traseiras, enquanto a roda do outro lado recebe o único freio do veículo. A alVolante informa que a bitola, a distância entre as rodas de um mesmo eixo, ficou em 25 centímetros.
A direção também precisou caber no novo espaço. O Guinness diz que a caixa de direção foi reduzida; a Motorbox acrescenta que o volante original era grande demais e deu lugar a um de carrinho infantil. Faróis e setas funcionam. Segundo a Motorbox, a reconstrução levou mais de um ano.
A velocidade máxima é de 15 km/h, número que aparece tanto no registro do Guinness quanto na Motorbox. É pouco mais que uma bicicleta em passeio, e ainda assim parece suficiente: o próprio Guinness admite que o carro não é dos mais estáveis nas curvas. Com 25 centímetros entre as rodas e o motorista sentado no alto, a física não perdoa entusiasmo.
| Medida | Panda 1993 original | Panda per Uno |
|---|---|---|
| Largura | 1,46 m | 50,2 cm |
| Comprimento | 3,38 m | sem alteração informada |
| Motor | a combustão | elétrico |
| Velocidade máxima | de estrada | 15 km/h |
Os dados de largura, comprimento e velocidade da tabela vêm do registro do Guinness World Records.
Por que ele não pode rodar na rua
O carro anda, mas não tem licença para isso fora de eventos e áreas fechadas. A alVolante escreveu sem rodeio que o veículo “non è omologata per uso stradale”, ou seja, não é homologado para uso em vias públicas. A Motorbox foi na mesma linha e lembrou que o carro nem placa tem. O registro do Guinness não trata do assunto: classifica o Panda per Uno como carro dirigível, o que é diferente de carro legalizado.
A razão é simples de entender. Homologar um veículo exige provar que ele cumpre normas de segurança, iluminação, frenagem e estabilidade. Um carro com um só freio, um farol central e equilíbrio precário nas curvas fica longe disso, por mais engenhoso que seja. O projeto nunca foi pensado para o trânsito: nasceu para um encontro de fãs e terminou no livro dos recordes. “Estar no livro Guinness World Records é uma honra”, disse o mecânico à organização.
A notícia do recorde chegou ao site em outubro, quando O Antagonista contou como o Panda estreito foi reconhecido como o carro mais fino do mundo. O Panda per Uno vai aparecer na edição 2027 do livro dos recordes.
No Brasil, a régua é do Contran
Se alguém tentasse algo parecido por aqui, esbarraria no Código de Trânsito Brasileiro. A Resolução Contran nº 916, de 2022, que regulamenta as modificações previstas nos artigos 98 e 106 do CTB, exige duas coisas para mexer num veículo já registrado: autorização prévia do órgão responsável pelo registro e licenciamento e uma inspeção de segurança que resulta no Certificado de Segurança Veicular, o CSV, emitido por uma Instituição Técnica Licenciada.
Sem esse caminho, a alteração não entra no documento do carro, e o veículo fica irregular para circular. A mesma resolução já impõe limites a mudanças bem menores, como rodas e pneus: o conjunto não pode ultrapassar os para-lamas, e o diâmetro externo só pode variar 3% para mais ou para menos. Cortar meio metro de carroceria e trocar o motor a combustão por um elétrico de roda estaria muito além de qualquer ajuste comum.
A paixão por carro pequeno e de engenharia simples não é exclusividade italiana. O brasileiro conhece bem a história de um compacto que atravessou gerações, como mostra a reportagem sobre o modelo de motor traseiro refrigerado a ar que bateu recordes de produção.
O Panda per Uno não é solução de mobilidade nem pretende ser. É uma brincadeira de ferro-velho feita com paciência de relojoeiro, e talvez por isso funcione tão bem: ninguém precisa de um carro de 50 centímetros, mas quase todo mundo quer ver um andar.
Marazzi, aliás, já está em outra. Segundo o Guinness, o projeto atual dele é encaixar um Fiat Panda sobre o conjunto mecânico de um trator Landini dos anos 1980 para criar um monster truck.
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