Após décadas fora de uma área da Mata Atlântica, mutum-do-bico-vermelho volta a ser registrado e pesquisadores acompanham se a população consegue se manter
Após décadas fora de uma área da Mata Atlântica, mutum-do-bico-vermelho volta a ser registrado e pesquisadores acompanham se a população consegue se manter
Ave ameaçada retorna ao Parque Estadual do Rio Doce após cinco décadas, com registros de reprodução e monitoramento para avaliar sua sobrevivência
O mutum-do-bico-vermelho voltou ao Parque Estadual do Rio Doce, em Minas Gerais, após aproximadamente 50 anos de desaparecimento local. Aves nascidas na natureza e registros de reprodução animam pesquisadores, mas o monitoramento ainda precisa demonstrar se a espécie conseguirá formar uma população estável.
Como o mutum-do-bico-vermelho voltou à Mata Atlântica mineira?
O mutum-do-bico-vermelho (Crax blumenbachii), também chamado mutum-do-sudeste, é uma ave ameaçada de extinção que habita florestas da Mata Atlântica. A caça e a destruição do habitat provocaram o desaparecimento de populações em diferentes regiões, incluindo o Parque Estadual do Rio Doce.
O retorno não aconteceu espontaneamente. Desde a década de 1990, programas de conservação trabalham com reprodução sob cuidados humanos e soltura de indivíduos. Em 2023, o projeto De Volta ao Lar iniciou uma nova etapa na região da Ponte Perdida, próxima ao parque, buscando restabelecer a presença da espécie.
O que os pesquisadores descobriram após as solturas?
O projeto é desenvolvido pela Associação de Amigos do Parque Estadual do Rio Doce, em parceria com o Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais e outras instituições. As equipes utilizam câmeras automáticas, caminhamentos e relatos de moradores para acompanhar os animais.
Os resultados divulgados em 2025 e 2026 apresentam sinais importantes:
Cerca de 40 aves foram soltas entre 2023 e 2025;
O monitoramento utilizou 30 armadilhas fotográficas;
As equipes percorreram 195 quilômetros em 78 caminhamentos;
O mutum apareceu cinco vezes nas câmeras durante o levantamento de 2025;
Um casal acompanhado de filhote foi registrado na natureza.
O vídeo do Projeto Mutum da Cenibra apresenta a reintrodução de aves ameaçadas na Fazenda Macedônia, iniciativa que ajudou a recuperar o mutum-do-bico-vermelho na região.
Por que encontrar um mutum-do-bico-vermelho não comprova recuperação?
Um avistamento confirma que determinado animal esteve naquele local, mas não esclarece sua origem, idade ou capacidade de sobrevivência. Mesmo vários registros podem corresponder aos mesmos indivíduos, especialmente quando as aves percorrem grandes áreas florestais.
A reprodução representa uma evidência mais importante, porque demonstra que pelo menos alguns indivíduos estão conseguindo gerar descendentes. Entretanto, encontrar um filhote não comprova que ele sobreviverá até a idade adulta. Para formar uma população estável, os nascimentos precisam compensar as mortes ao longo de sucessivas gerações.
Quais evidências científicas ajudam a avaliar a população reintroduzida?
Em 2026, pesquisadores publicaram na revista Biota Neotropica um estudo sobre densidade populacional e uso do habitat de mutuns reintroduzidos na Mata Atlântica. A investigação utilizou observações realizadas em 2014, distribuídas por 15 transectos, para estimar abundância e ocupação.
No Parque Estadual do Rio Doce, um levantamento posterior, realizado entre abril e novembro de 2025, acumulou 6.053 dias de amostragem com câmeras. Os cinco registros da espécie confirmaram sua presença nas áreas monitoradas, mas não forneceram, isoladamente, uma estimativa confiável da quantidade total de mutuns vivendo no parque.
Registro de mutum-do-bico-vermelho com filhote indica reprodução na natureza, mas a estabilidade da população ainda precisa ser comprovada
Quais números mostram a situação do mutum-do-bico-vermelho?
O retorno ao parque faz parte de um esforço regional mais antigo. Entre 1990 e 2018, foram registrados 219 indivíduos reintroduzidos na Fazenda Macedônia, em Ipaba. Esse histórico ajuda a compreender a origem de aves que passaram a ocupar outras áreas florestais.
Entretanto, é necessário separar números de soltura, registros fotográficos e estimativas populacionais. Nenhuma dessas medidas representa automaticamente a quantidade de animais sobreviventes, pois alguns podem morrer, dispersar-se ou aparecer repetidamente nas observações.
Indicador
Resultado documentado
Solturas na Fazenda Macedônia
219 aves entre 1990 e 2018
Solturas na Ponte Perdida
40 aves entre 2023 e 2025
Monitoramento de 2025
30 câmeras e 195 km de trilhas
Registros fotográficos da espécie
5 registros no levantamento de 2025
O que falta para o retorno da espécie representar uma recuperação duradoura?
A consolidação depende de alimentação disponível, proteção contra a caça, conectividade entre fragmentos e condições para a reprodução. Os mutuns também desempenham uma função ecológica importante: ao consumir frutos e dispersar sementes, podem contribuir para a regeneração da floresta.
O desafio é demonstrar que a população consegue permanecer sem solturas contínuas. Para isso, pesquisadores precisarão acompanhar sobrevivência, nascimento de novos filhotes, diversidade genética e deslocamentos durante vários anos. O retorno representa um avanço documentado, mas a estabilidade populacional continua sendo uma questão em investigação.
Nunca foi tão fácil ficar bem informado com O Antagonista
Mais lidas
Mais comentadas
Últimas notícias
1
Alcolumbre usa gabinetes e apartamentos funcionais para ficar no cargo
Vizinho instala ar-condicionado no quarto e moradora percebe que a água do aparelho cai diante da sua porta, mantendo molhado o único caminho entre a cozinha e a área de serviço
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)