Candidatos precisam dizer como vão fomentar gastos em P&D
No início do século, o Brasil investia mais que a China em pesquisa e desenvolvimento. Faz tempo que ficou para trás
A China anunciou na semana passada que seus investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) chegaram a 2,8% do PIB em 2025, superando pela primeira vez a média da OCDE, de 2,72%.
O contraste com o Brasil é expressivo: segundo os dados consolidados mais recentes do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o país destinou 1,23% do PIB à mesma finalidade em 2024.
A diferença é também de trajetória. No início dos anos 2000, o Brasil investia proporcionalmente mais que a China. Desde então, os chineses ampliaram continuamente seu esforço, enquanto o investimento brasileiro permanece abaixo do pico de 1,28% do PIB, registrado em 2015.
Um componente decisivo da expansão chinesa foi o protagonismo das empresas. Em 2025, elas responderam por 77,4% dos gastos em P&D e por quase três quartos do aumento dos investimentos. A participação empresarial aproxima a pesquisa das necessidades da produção e favorece sua transformação em novos produtos, processos e tecnologias.
Por que isso importa
Lula e Flávio Bolsonaro apresentam propostas para fortalecer a inovação. Mas qualquer avaliação dos programas deve partir da dimensão do atraso brasileiro, que não se limita à comparação com a China, e de uma fraqueza persistente: o baixo investimento empresarial em P&D.
O Brasil não carece de metas ambiciosas. A Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI), aprovada em julho, estabelece o objetivo de chegar a 2% do PIB em 2034. Metas semelhantes, contudo, vêm sendo anunciadas há mais de duas décadas, sem serem alcançadas.
A questão eleitoral é (ou deveria ser) como cada candidato pretende mobilizar as empresas, estabelecer prioridades e demonstrar resultados.
Panorama
Lula propõe fortalecer Finep, FNDCT, BNDES e Embrapii, dando continuidade à política de inovação conduzida em seu governo. A estratégia combina financiamento público, cooperação com empresas e prioridades da Nova Indústria Brasil.
Como presidente e candidato à reeleição, Lula precisa responder pelo desempenho das políticas que já estão em funcionamento. O economista Paulo Morceiro, ouvido recentemente pelo Valor Econômico, reconhece méritos em mecanismos de financiamento, mas critica a dispersão da política industrial entre setores e objetivos numerosos demais, sem suficiente concentração de esforços e avaliação.
A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) também cobrou esclarecimentos dos candidatos sobre financiamento, prioridades e acompanhamento das políticas científicas. Lula respondeu às perguntas, assumindo compromissos de fortalecimento institucional e definição de indicadores.
Flávio Bolsonaro enfatiza a aproximação entre pesquisa científica e atividade produtiva. Seu programa valoriza patentes, transferência de tecnologia, compras públicas inovadoras e difusão de inteligência artificial entre micro, pequenas e médias empresas. Ele toca um problema real: a dificuldade de transformar conhecimento em tecnologias utilizadas pelas empresas.
Mas o programa apresenta menos detalhes sobre financiamento e execução. Também deixa dúvidas sobre como conciliar a busca de resultados econômicos com o apoio à pesquisa básica, cujos benefícios podem demorar a aparecer.
Ambos os candidatos precisam explicar como pretendem elevar o investimento empresarial em inovação.
Lupa: a Finep e o teste dos resultados
Na sexta-feira, 16, a estatal Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) ananunciou a ampliação de R$ 300 milhões para R$ 450 milhões dos recursos destinados a projetos de inovação no Norte, Nordeste e Centro-Oeste. O reforço permitirá contemplar 114 propostas, contra 78 inicialmente selecionadas. Entre estas últimas, 75% são de micro e pequenas empresas.
O programa utiliza recursos públicos que não precisam ser devolvidos e levam o Estado a compartilhar com as empresas os riscos do desenvolvimento tecnológico.
A chamada recebeu 587 propostas, demonstrando a existência de demanda. Mas a quantidade de projetos aprovados não basta para avaliar a política. É necessário saber quantos produtos chegam ao mercado, quais produzem ganhos de produtividade e quanto investimento empresarial conseguem estimular.
A Finep é um instrumento relevante. Lula promete fortalecê-la. O plano de Flávio Bolsonaro não menciona expressamente a agência nem o FNDCT. Isso não significa que pretenda extingui-los, mas torna necessário esclarecer se eles têm lugar na sua estratégia.
Radar empresarial
Para as empresas, o primeiro passo é identificar oportunidades nos instrumentos existentes de apoio à inovação. Conforme o setor, o porte e a estratégia de cada negócio, as prioridades podem incluir o desenvolvimento de tecnologias próprias, a cooperação com universidades e institutos de pesquisa, a modernização de processos ou a comercialização de novos produtos.
Há também uma agenda de relações governamentais. O setor empresarial deve cobrar estabilidade das regras, procedimentos menos burocráticos e melhor articulação entre recursos destinados à pesquisa e financiamento para levar as tecnologias ao mercado.
É igualmente importante que os incentivos públicos estimulem investimentos privados que, de outra forma, não seriam realizados.
Finalmente, é preciso ampliar a difusão tecnológica. A incorporação de tecnologias existentes, inclusive inteligência artificial, pode produzir ganhos expressivos de produtividade em diferentes setores da economia.
O próximo governo terá uma oportunidade concreta para aperfeiçoar essas políticas. A estratégia nacional aprovada em julho prevê a elaboração do Plano de Ação em Ciência, Tecnologia e Inovação para 2027–2031. Empresas e entidades representativas podem participar desse processo, defendendo prioridades específicas, metas realistas e critérios transparentes de avaliação.
O economista Danilo Jorge Vieira, em artigo publicado em agosto, observa que a repetição de metas gerais de investimento em P&D não produziu os resultados esperados. Sua recomendação é substituí-las, como principal referência para a gestão, por objetivos mais específicos, vinculados a programas, setores e resultados verificáveis.
Resumo da ópera
A China superou a média da OCDE em investimentos em pesquisa e desenvolvimento, enquanto o Brasil continua distante desse patamar. Lula e Flávio Bolsonaro apresentam caminhos diferentes, mas ambos precisam explicar como ampliar o investimento empresarial e produzir resultados. Para as empresas, o desafio é aproveitar os instrumentos existentes e influenciar as escolhas para 2027: financiamento acessível, prioridades claras e políticas avaliadas por seus efeitos sobre a produtividade e a competitividade.
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