Gabriel Rolón, psicanalista, sobre o poder das memórias: “Nossos pais que não estão mais aqui se transformaram em pessoas mais nobres do que eram”
O psicanalista explica como a saudade pode mudar a imagem daqueles que perdemos e tornar nossa infância mais bonita na memória.
A morte dos pais deixa ausências que permanecem na memória, mas também pode mudar a maneira como nos lembramos de quem fez parte da nossa vida.
O psicanalista e escritor argentino Gabriel Rolón afirma que a passagem do tempo pode suavizar os defeitos das pessoas que já partiram e transformar determinados momentos da infância em lembranças mais bonitas.
A chave, segundo sua reflexão, está em compreender o valor dessas experiências sem permitir que a saudade nos impeça de viver o presente.
Por que idealizamos nossos pais depois que eles morrem?
Para Rolón, a memória funciona como um espaço em que tentamos preservar aquilo que perdemos.
No entanto, as lembranças não permanecem completamente intactas: com o tempo, podemos reconstruí-las de maneira mais afetuosa e deixar em segundo plano os conflitos, as decepções e as dificuldades do passado.
O especialista descreve esse fenômeno como uma espécie de edição emocional. Assim, os pais que já morreram podem parecer mais nobres, sensíveis ou generosos do que eram, enquanto a infância ganha uma aparência mais feliz.
Isso não significa que os bons momentos fossem falsos, mas que a distância modifica nossa maneira de interpretá-los.
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O psicanalista Gabriel Rolón que entrevistou TINI para o Flow, disponibilizou a entrevista completa em seu canal do YouTube 🔗 | https://t.co/C2Hml2TlTH https://t.co/psNxIdSNMs
— Portal TINI Brasil (@PortaITiniBr) May 16, 2024
Como a memória muda com a passagem do tempo?
A explicação de Rolón nos convida a observar como as emoções influenciam a reconstrução da nossa história pessoal. Algumas lembranças se tornam especialmente valiosas porque representam vínculos, experiências e etapas da vida que não podem ser repetidos.
Entre as principais mudanças que podem ocorrer nessa reconstrução emocional estão:
Como a memória muda com a passagem do tempo?
As lembranças não desaparecem necessariamente, mas nossa maneira de interpretá-las pode mudar. A saudade, a maturidade e os vínculos afetivos influenciam a forma como reconstruímos o passado.
Idealização dos pais
Com a ausência, os defeitos podem perder espaço diante do carinho e da saudade, tornando as lembranças mais afetuosas.
Uma infância embelezada
Os momentos felizes podem ganhar destaque, enquanto conflitos e experiências difíceis ficam em segundo plano.
Preservação dos vínculos
Recordar quem partiu ajuda a manter uma ligação simbólica com pessoas que continuam fazendo parte da nossa história.
Reinterpretação das experiências
Com o amadurecimento, situações que antes causavam sofrimento podem ser compreendidas a partir de uma nova perspectiva.
O ponto central: as lembranças fazem parte de quem somos, mas podem mudar de significado ao longo da vida. Preservar o passado não significa deixar de viver o presente.
Quando a saudade pode se tornar um obstáculo?
Lembrar de quem amamos não é o problema. A dificuldade aparece quando nos apegamos a uma versão idealizada do passado e começamos a buscar nele uma felicidade que já não podemos experimentar da mesma maneira.
Rolón destaca que valorizar os momentos felizes é legítimo, mas isso não significa que devemos permanecer emocionalmente presos a eles.
As experiências passadas fazem parte da nossa identidade, embora não possam substituir as oportunidades de construir bem-estar no presente.

O que Gabriel Rolón recomenda para valorizar o presente?
O psicanalista defende que a felicidade não deve ficar limitada a uma fase que terminou nem se transformar em uma promessa constantemente adiada.
Esperar que tudo seja perfeito no futuro ou desejar voltar continuamente a outros tempos pode nos afastar daquilo que ainda podemos viver.
Sua reflexão nos convida a reconhecer o passado sem negar suas feridas e a preservar as lembranças sem transformá-las em nosso único refúgio emocional.
Os vínculos e as experiências ajudam a formar quem somos, mas não determinam completamente o que podemos fazer com a nossa vida.
Como seguir em frente sem abandonar as lembranças?
A proposta de Rolón não é esquecer os pais nem apagar as experiências da infância. Trata-se de aceitar que as pessoas mudam, que as ausências doem e que a memória pode transformar nossa percepção daqueles que amamos.
Sua mensagem central é que o passado merece um lugar na nossa história, mas não deve ocupar todo o espaço da nossa vida. Honrar quem já partiu também pode significar continuar construindo projetos, cultivando relacionamentos e vivendo momentos felizes no presente.
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