Onde estarão as oportunidades do setor de energia na próxima década?
Novo plano energético projeta 3,3 trilhões de reais em investimentos e expansão de mercados para fornecedores e consumidores de energia
O Ministério de Minas e Energia e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) apresentaram o Plano Decenal de Expansão de Energia 2036, que está em consulta pública. O documento estima investimentos de 3,3 trilhões de reais entre 2027 e 2036, abrangendo petróleo, gás, eletricidade e biocombustíveis.
O PDE não estabelece um cronograma obrigatório de obras. Suas projeções indicam o que será necessário para atender à demanda de energia nos próximos dez anos, considerando as condições econômicas, tecnológicas e regulatórias atuais.
Por que interessa
O documento permite identificar mercados que poderão crescer e antecipar mudanças capazes de afetar os custos de produção. Para empresas médias, há duas perspectivas: oportunidades como fornecedoras de equipamentos e serviços e possibilidades de economizar energia ou utilizar novas tecnologias em suas próprias operações.
A expansão das fontes solar e eólica, por exemplo, aumenta a necessidade de armazenamento e de mecanismos capazes de ajustar o consumo à disponibilidade de eletricidade. Isso abre espaço para novos negócios, mas sua viabilidade dependerá de regras de contratação e remuneração ainda em desenvolvimento.
Panorama
Dos 3,3 trilhões de reais projetados, 2,53 trilhões correspondem a petróleo e gás natural, 638 bilhões a eletricidade e 143 bilhões aos biocombustíveis. A maior parcela dos investimentos continuará, portanto, concentrada na exploração e produção de hidrocarbonetos.
No setor elétrico, a EPE prevê 415 bilhões de reais em geração centralizada, 127 bilhões em transmissão e 96 bilhões em geração distribuída – principalmente sistemas solares instalados próximos aos consumidores.
A capacidade instalada de geração deverá crescer 110 gigawatts até 2036. Isso representa um acréscimo de mais de 40% em relação à matriz elétrica atual.
O plano também indica a expansão de 31,9 mil quilômetros de linhas de transmissão e a instalação de 7,2 gigawatts de baterias, além de 2 gigawatts em usinas hidrelétricas reversíveis, que armazenam energia bombeando água para reservatórios elevados.
Outro dado relevante está no consumo. A geração elétrica deverá crescer, em média, 3,2% ao ano, impulsionada pela eletrificação da economia e por atividades como os data centers.
Lupa: três mercados que merecem atenção
O primeiro é o armazenamento de energia. Com maior participação das fontes solar e eólica, será necessário guardar eletricidade produzida em determinados horários para utilizá-la quando houver maior demanda. O crescimento das baterias poderá beneficiar fornecedores de equipamentos, integradores de sistemas, empresas de engenharia e manutenção.
O segundo é a gestão inteligente do consumo. O PDE prevê 4 gigawatts de resposta da demanda até 2036. Trata-se da possibilidade de consumidores ajustarem seus horários de utilização de energia, contribuindo para o equilíbrio do sistema. Empresas industriais com processos flexíveis poderão encontrar oportunidades de reduzir custos ou receber remuneração por essa contribuição, dependendo das regras de mercado.
O terceiro é a eficiência energética. A EPE estima que os ganhos de eficiência poderão evitar o consumo de 53 terawatts-hora (TWh) de eletricidade em 2036. Em termos de comparação, isso é quase o dobro do consumo anual de energia de toda a cidade de São Paulo, incluídos comércio e indústriaa. Desse total, 31 TWh correspondem às edificações e 18 TWh à indústria. Modernização de motores, refrigeração, climatização, automação e controle digital do consumo são exemplos de soluções com mercado potencial.
Radar para empresas
Os investimentos projetados em transmissão, armazenamento, geração distribuída e eficiência não terão o mesmo calendário nem as mesmas exigências técnicas e financeiras. Fornecedores devem avaliar o plano e identificar em quais segmentos possuem capacidade competitiva.
Para consumidores empresariais, vale examinar o perfil de consumo, os horários de maior demanda e a possibilidade de reduzir desperdícios. A adoção de equipamentos mais eficientes ou de sistemas de gestão pode produzir resultados antes mesmo da implantação dos grandes projetos previstos no PDE.
Há também um radar regulatório. A expansão das baterias e da resposta da demanda depende de mecanismos que permitam remunerar os serviços prestados ao sistema elétrico. Empresas interessadas nesses mercados devem acompanhar as decisões da Aneel, os futuros leilões e as regras de acesso e participação.
Resumo da ópera
O PDE 2036 projeta 3,3 trilhões de reais em investimentos energéticos. As oportunidades para empresas médias, a depender do seu segmento, podem estar na construção de novas usinas. Mas estarão também na modernização das redes, nos equipamentos para armazenamento e na utilização mais eficiente da eletricidade. O radar empresarial deve acompanhar a transformação dessas projeções em contratos, regras de mercado e projetos.
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