Bolsonarismo se amansa perto do poder
Foi por linhas tortas que o bolsonarismo se tornou uma esperança para a correção do STF, mas um governo Flávio Bolsonaro será julgado por isso
Meses antes de ser preso por tentativa de golpe de Estado, o ex-presidente Jair Bolsonaro fazia campanha para conseguir “50% da Câmara e do Senado”, “para equilibrar os poderes”.
O bolsonarismo e seus aliados conseguiram mais do que isso no Senado — segundo o Ranking dos Políticos, dois terços da próximo legislatura estão dispostos a participar do primeiro impeachment de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) — e um número muito confortável na Câmara dos Deputados, com 121 parlamentares só do PL.
Além de tudo, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ, foto) terminou o primeiro turno à frente de Lula (PT), o que levou os membros de seu partido a calibrar o discurso.
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, disse que “não interessa pôr fogo no país” quando questionado sobre impeachment no STF.
Coordenador da campanha de Flávio, o senador Rogério Marinho (PL-RN), também não abordou o tema diretamente quando questionado após a vitória no primeiro turno.
Uma arma
O fato é que os bolsonaristas já conseguiram o que precisavam nesta eleição, já no primeiro turno: a possibilidade de ameaçar os ministros do STF com um processo de impeachment.
Sem a maioria no Senado, eles não teriam armas para enfrentar os processos conduzidos pelo ministro Flávio Dino, sobre emendas parlamentares e sobre a possível interferência estrangeira nesta eleição, especulada pelos petistas tanto como discurso quanto como estratégia jurídica.
Com a arma na mão, agora o assunto pode ser tratado no nível das sutilezas.
Se o STF insistir em não abrir investigação sobre as relações entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, a ameaça do impeachment pode ser sacada. Caso o Supremo indique a intenção de fazer uma autocorreção, os bolsonaristas estariam desobrigados de fazê-lo pela imposição.
Acordão?
É claro que os problemas do STF vão muito além de Moraes, e, a depender do andamento de um possível governo Flávio Bolsonaro, o presidente terá de entender o quanto aqueles que o elegeram tolerarão um acordão que não lide com os problemas reais do tribunal, em nome da estabilidade.
Enquanto os bolsonaristas começam a falar de forma mais suave sobre o STF, Lula tenta se descolar dos ministros cuja atuação contribuiu para sua derrota no primeiro turno, como se não tivesse sido carregado o terceiro mandato inteiro por esses juízes.
Dilma Rousseff não sobreviveu ao estelionato eleitoral de 2014. Flávio nem sequer foi eleito ainda, e precisa calcular o quanto um discurso mais brando de seus aliados sobre o STF pode influenciar no desfecho desta eleição, por mais que os bolsonaristas já estejam pensando num possível acordão no caso de retornarem ao poder, de olho na soltura de Jair Bolsonaro, sua evidente prioridade.
Caso consigam de fato retornar à Presidência da República, já está claro que a sombra do acordão com o STF vai permear todo o governo, que terá quatro indicações de ministros para fazer.
Foi por linhas tortas que o bolsonarismo se tornou, nesta eleição, uma esperança para a correção do STF, por uma contingência parecida com a que levou Lula a posar de democrata e republicano desde a campanha de 2022. Mas o fato é que um governo Flávio se tornará refém dessa missão, e será julgado também por isso.
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