Um robô desceu quase 4 mil metros e encontrou embalagens enquanto lixo humano já alcançou um cânion submarino nunca filmado antes
Expedição argentina registrou plástico a 3.820 metros e revelou ao mesmo tempo uma biodiversidade profunda ainda pouco conhecida
Uma expedição ao Atlântico Sul mostrou que nem mesmo ambientes profundos e praticamente invisíveis escaparam da poluição humana. O cânion de Mar del Plata, na margem continental argentina, foi filmado diretamente por um veículo operado remotamente em 2025. Em 17 mergulhos, pesquisadores encontraram resíduos em 10 deles, incluindo plásticos a mais de 3.800 metros, enquanto documentavam uma biodiversidade extraordinária.
Por que o cânion de Mar del Plata nunca tinha sido filmado dessa maneira?
Pesquisadores argentinos já estudavam a região havia anos, inclusive por meio de redes e equipamentos de coleta. A expedição Talud Continental IV, realizada entre julho e agosto de 2025 a bordo do R/V Falkor (too), marcou a primeira oportunidade de visualizar diretamente grandes áreas do fundo com um ROV científico.
O veículo SuBastian realizou 17 mergulhos entre 878 e 3.820 metros e acumulou aproximadamente 240 horas de vídeo. Suas câmeras 4K permitiram observar organismos em seu ambiente, mapear habitats e registrar também objetos artificiais que haviam alcançado algumas das partes mais profundas do cânion.
Que lixo apareceu no cânion de Mar del Plata?
Os pesquisadores identificaram 29 itens de macro-lixo em 10 dos 17 mergulhos, equivalentes a 58,8% das incursões analisadas. Os objetos estavam distribuídos entre 1.120 e 3.820 metros de profundidade. Vinte e sete eram de plástico e apenas dois foram classificados como borracha.
Entre os resíduos estavam embalagens de alimentos, sacolas, fragmentos plásticos, linhas, cordas, cabos e outros materiais ligados à pesca. Alguns permaneciam sobre o sedimento; outros estavam parcialmente enterrados, presos entre rochas ou flutuando muito perto do fundo.
- 17 mergulhos analisados;
- 10 mergulhos com lixo;
- 29 objetos registrados;
- 27 itens feitos de plástico;
- Profundidade máxima de 3.820 metros.
Este vídeo oficial mostra a expedição e as imagens obtidas diretamente no cânion.
Como embalagens conseguem chegar a quase 4 mil metros de profundidade?
Cânions submarinos funcionam como corredores que conectam a plataforma continental às partes profundas do oceano. Correntes, movimentos de sedimentos e a própria topografia podem transportar materiais das regiões superiores e concentrá-los em determinados pontos ao longo das paredes e do eixo do cânion.
Os pesquisadores encontraram agrupamentos de detritos em algumas profundidades. Entre 3.100 e 3.200 metros, por exemplo, copos, sacolas e embalagens estavam presos entre rochas. Uma embalagem foi registrada a aproximadamente 3.814 metros e outros resíduos chegaram ao limite inferior dos mergulhos, em torno de 3.820 metros.
O que o estudo revelou sobre a origem desse lixo profundo?
O estudo publicado na PLOS ONE concluiu que a composição e a distribuição dos resíduos são compatíveis principalmente com atividades marítimas, especialmente a pesca. Equipamentos associados a essa atividade apareceram em diferentes setores do ambiente profundo.
Isso não significa que todos os plásticos observados tenham origem comprovadamente pesqueira. Embalagens de alimentos e sacolas podem alcançar o oceano por diferentes rotas. A pesquisa estabelece uma linha de base para o local e mostra que determinar a procedência exata de cada objeto individual continua sendo difícil.

O lixo permanece isolado dos animais do fundo do mar?
Não. Organismos foram observados associados a sete dos 29 itens registrados. Estrelas-do-mar, ofiúros, crustáceos, cnidários, poliquetas e prováveis ascídias apareceram sobre ou próximos de materiais artificiais, inclusive plásticos parcialmente enterrados e equipamentos de pesca.
A presença de animais não transforma o lixo em habitat benéfico. Objetos podem oferecer superfícies para colonização, mas também provocam emaranhamento e modificam substratos naturais. O estudo indica que estabilidade e tempo de permanência provavelmente influenciam quais organismos acabam colonizando esses materiais.
O cânion de Mar del Plata também revelou espécies desconhecidas?
A mesma expedição encontrou uma biodiversidade muito maior do que se conhecia visualmente. Inicialmente, a equipe estimou mais de 40 espécies possivelmente novas. Análises taxonômicas posteriores avançaram e, em 2026, pesquisadores anunciaram a identificação de 57 novas espécies e cinco novos gêneros entre amostras da campanha.
Entre elas estão pepinos-do-mar, copépodes, corais, crinoides e outros invertebrados. O contraste resume o valor da exploração: o cânion de Mar del Plata revelou formas de vida que a ciência ainda estava começando a nomear, mas também embalagens e equipamentos humanos acumulados a milhares de metros abaixo da superfície.
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