Uma parede esquecida nas colinas do Marrocos muda a escala de Oued Beht e revela uma ocupação muito mais longa
Nova escavação amplia a cronologia do sítio e revela construções monumentais séculos depois de seu grande complexo agrícola
Uma estrutura de pedra conhecida havia décadas ganhou significado completamente novo após escavações recentes no noroeste do Marrocos. Oued Beht já era reconhecido por um grande complexo agrícola do quarto milênio a.C., mas novas datações mostram que a área voltou a concentrar construções monumentais no segundo milênio a.C. A descoberta amplia a história do local e revela comunidades capazes de modificar profundamente uma paisagem estratégica.
Por que Oued Beht ficou maior do que os arqueólogos imaginavam?
As pesquisas anteriores concentravam-se principalmente no setor norte da elevação, onde uma comunidade agrícola ocupou pelo menos 9 a 10 hectares aproximadamente entre 3400 e 2900 a.C. Escavações encontraram numerosos poços, cerâmica, machados polidos, pedras de moagem e outros vestígios de atividades intensas.
A campanha de 2023 mostrou que a história não terminou ali. No setor sul, uma grande estrutura conhecida como Wall B1 revelou fases de construção muito posteriores. Em vez de pertencer necessariamente à comunidade agrícola original, parte desse complexo foi construída e modificada durante o início e meados do segundo milênio a.C.
O que a parede de Oued Beht revelou quando foi escavada?
A escavação atravessou um conjunto formado por paredes, aterros e fossos. Uma das estruturas de pedra tinha aproximadamente 2,3 metros de largura na superfície e cerca de 1,35 metro de altura preservada. Sua posição corta transversalmente uma parte estreita da elevação e aproveita características naturais do terreno.
Datações por radiocarbono associadas às fases iniciais situaram a fundação de uma parede anterior aproximadamente entre 2010 e 1747 a.C., enquanto evidências de sua destruição ficaram entre 1896 e 1623 a.C. Aterros e preenchimentos de fossos indicam modificações posteriores durante o mesmo milênio.
- Parede com aproximadamente 2,3 metros de largura;
- Estrutura preservada com cerca de 1,35 metro de altura;
- Construções iniciadas no começo do segundo milênio a.C.;
- Aterros e fossos acrescentados em fases posteriores;
- Reutilização do setor muitos séculos depois.
Este vídeo da Cambridge University Press apresenta diretamente as pesquisas arqueológicas realizadas em Oued Beht.
A estrutura foi realmente construída para defender a comunidade?
A localização favorece essa interpretação. O conjunto atravessa uma faixa estreita da elevação, com encostas e cursos d’água ajudando a tornar o setor naturalmente protegido. Parede, aterro e fosso poderiam formar uma barreira capaz de restringir movimentos e controlar o acesso.
Os pesquisadores, porém, evitam tratar a função defensiva como certeza. Estruturas desse tipo também podem delimitar espaços ou demonstrar controle territorial. Não existem evidências que permitam identificar inimigos ou “invasores”; competição por recursos, terras e circulação pela paisagem é apenas uma das interpretações possíveis.
O que sabemos sobre os agricultores que ocuparam o local antes dessa construção?
O estudo arqueológico de Oued Beht separa cuidadosamente as diferentes fases do sítio. A principal comunidade agrícola conhecida é mais antiga que a muralha, concentrando-se sobretudo entre 3400 e 2900 a.C.
Nessa fase, sementes carbonizadas documentam cevada doméstica, além de trigo e ervilha. Restos animais incluem cabras domésticas, ovelhas, bovinos e porcos, alguns com marcas de corte. Ferramentas de moagem e numerosos poços reforçam a interpretação de uma economia baseada principalmente na produção de alimentos.

Como Oued Beht transformou a paisagem ao longo dos milênios?
O padrão espacial mudou radicalmente entre as fases. Durante o Neolítico Final, a atividade estava concentrada no setor norte, sobre uma área relativamente aberta. No segundo milênio a.C., o foco deslocou-se para o setor sul, mais estreito e naturalmente defendido entre cursos d’água convergentes.
Séculos depois, o mesmo setor voltou a ser utilizado. Evidências indicam reconstruções durante os séculos XI a XIII d.C., acompanhadas por ocupação medieval nas proximidades. Portanto, a paisagem foi repetidamente escolhida e remodelada por sociedades separadas por longos intervalos.
Por que essa descoberta muda a pré-história do Magrebe?
Durante muito tempo, o período entre aproximadamente 4000 e 1000 a.C. foi relativamente pouco conhecido arqueologicamente no noroeste africano quando comparado a regiões próximas da Península Ibérica. O novo conjunto amplia tanto a cronologia quanto a diversidade de atividades documentadas no sítio.
A descoberta não prova continuidade direta entre os agricultores do quarto milênio e os construtores posteriores. O que ela mostra é que a mesma elevação continuou importante em períodos diferentes, com agricultura intensiva, armazenamento, construção monumental e possível controle da paisagem surgindo ao longo de uma história muito mais extensa do que se conhecia.
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