Quase 300 mil quilômetros de estradas romanas desmontam uma frase famosa e mostram uma rede menos centrada em Roma
Análise de quase 300 mil quilômetros revela uma rede terrestre estruturada por relevo, capitais provinciais e grandes corredores regionais
A imagem de que “todos os caminhos levam a Roma” simplifica demais a infraestrutura terrestre do império. Uma análise quantitativa de 299.171 quilômetros de estradas romanas mostra que a rede funcionava de forma muito mais regionalizada, condicionada pelo relevo, pelos vales, pelas fronteiras e pelas capitais provinciais. Roma era fundamental, mas não ocupava a posição terrestre dominante sugerida pela expressão popular.
Por que as estradas romanas não tinham Roma como centro absoluto?
Os pesquisadores transformaram a malha viária em uma rede composta por 10.516 nós, como cruzamentos e extremidades, ligados por 14.901 trechos. Em seguida, calcularam quais caminhos apareciam com maior frequência nas rotas terrestres mais eficientes, levando em consideração o tempo estimado de deslocamento.
O resultado mostrou que Antioquia, Ancira — atual Ancara —, Bizâncio e Corinto estavam mais bem posicionadas do que Roma como intermediárias da circulação terrestre em escala imperial. Isso não diminui a importância política da capital, mas mostra que centralidade política e centralidade numa rede rodoviária são conceitos diferentes.
Como o relevo moldava a enorme rede do Império Romano?
A análise confirmou que os romanos preferiam traçados diretos quando a geografia permitia. A sinuosidade média das vias foi baixa, mas as estradas não atravessavam montanhas e vales como linhas geométricas perfeitas. Em áreas acidentadas, passagens naturais condicionavam fortemente seus percursos.
Cerca de 270.956 quilômetros, ou 90,57% da rede estudada, estavam em trechos com inclinação máxima inferior a 16%, limite adotado pelos pesquisadores como referência ampla para tráfego com veículos. Regiões planas, como o vale do Pó e partes da Europa ocidental, favoreciam caminhos mais retos.
- Rede mapeada de 299.171 quilômetros;
- 10.516 nós analisados;
- 14.901 conexões rodoviárias;
- 90,57% das vias abaixo do limite de 16% de inclinação;
- Capitais provinciais frequentemente em posições estratégicas.
O projeto Itiner-e permite visualizar essa rede em escala imperial.
Quais estradas romanas eram realmente mais importantes para a circulação?
Para identificar os segmentos estratégicos, os autores utilizaram uma medida de centralidade conhecida como betweenness, ponderada pelo tempo de viagem. Em termos simples, ela indica quantas das rotas eficientes entre diferentes pontos precisam passar por determinado trecho da rede.
Um dos corredores mais centrais seguia partes do litoral norte-africano e do Levante, passava por Antioquia, aproximava-se de Ancira, atravessava para a Europa por Bizâncio e continuava pelo vale do Pó e pelo norte da Itália. Roma ficava fora desse eixo terrestre de maior centralidade.
O que a análise quantitativa revelou sobre as capitais provinciais?
O estudo publicado na Nature Communications encontrou uma associação clara entre capitais provinciais e posições favoráveis na rede terrestre. Das 45 capitais avaliadas, 35 apresentavam pelo menos uma medida de centralidade no grupo dos 10% mais elevados.
Em escala imperial, 24 das 45 capitais estavam nos dois maiores decis de centralidade de intermediação. Algumas exceções eram grandes portos marítimos ou fluviais, como Alexandria e Cartago, cuja relevância dependia de formas de transporte que a análise rodoviária, isoladamente, não foi criada para representar.

Por que Roma aparece menos dominante nas estradas romanas?
A própria geografia italiana ajuda a explicar o resultado. A península se projeta para dentro do Mediterrâneo e coloca Roma longe de vários corredores terrestres que conectavam Europa, Ásia e África. Dentro da Itália, a rota de maior centralidade calculada pelos pesquisadores seguia a costa adriática e não passava pela capital.
Isso não significa que Roma estivesse marginalizada no sistema de transportes. O estudo avalia principalmente mobilidade terrestre. Para viagens de longa distância, rios e especialmente o Mediterrâneo eram decisivos, e a posição de Roma tornava-se muito mais vantajosa quando as rotas marítimas eram consideradas.
O estudo realmente prova que “todos os caminhos levam a Roma” estava errado?
A frase não deve ser interpretada como uma descrição cartográfica literal do Império Romano. A pesquisa testa uma questão diferente: qual era a posição estrutural das cidades dentro da infraestrutura terrestre conhecida? Sob esse critério, Roma não aparece como o principal intermediário do sistema em escala continental.
O achado também depende do próprio conjunto de dados. O atlas inclui vias documentadas com diferentes graus de certeza e representa uma rede acumulada do período romano, não uma fotografia perfeita de um único ano. Assim, o estudo fornece a reconstrução quantitativa mais detalhada disponível, mas não pretende reproduzir cada viagem realizada na Antiguidade.
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