Ranking de inovação: Brasil precisa combinar os seus bons ingredientes
País aparece em 53º lugar no Global Innovation Index 2026, mas subiu 13 posições desde 2019
A Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO) acaba de divulgar o Global Innovation Index 2026 (GII), que compara 139 economias. O Brasil aparece em 53º lugar, uma posição abaixo de 2025.
A fotografia anual, porém, não diz tudo. A própria WIPO recomenda cautela nas comparações entre edições e destaca o Brasil entre as economias que mais avançaram nos últimos anos. O país ganhou 13 posições desde 2019 e, pelo sexto ano consecutivo, apresenta desempenho superior ao esperado para seu nível de desenvolvimento (economia de renda média-alta).
O que isso significa
O relatório não enseja uma conclusão pessimista. O Brasil possui base científica e empresarial relevante, mercado de grandes dimensões, capital e pólos tecnológicos. São Paulo está entre os cem principais clusters de inovação do mundo.
O desafio é conectar esses ativos e dinamizar a economia. Isso significa fazer a pesquisa chegar à empresa, a invenção virar produto, a startup encontrar capital para crescer e novas tecnologias se difundirem entre milhares de negócios. Isso se traduz em aumento de produtividade, exportações e competitividade.
Panorama
Segundo o GII, a inovação voltou a ganhar impulso no mundo, mas de maneira assimétrica. O investimento em P&D cresceu, mas a IA absorve parcela cada vez maior dos recursos. e O volume de venture capital aumenta, mas diminui o número de operações financiadas, sinal de concentração.
O “tema especial” do relatório é revelador: como transformar ciência de ponta em negócio escalável. O gargalo muitas vezes não está na descoberta ou na inovação, mas no percurso entre laboratório, prova de conceito, produção e mercado.
Lupa: o Brasil
O Brasil vai bem em tamanho de mercado, marcas, venture capital de estágio avançado e investidores corporativos em P&D. Mas ocupa o 94º lugar em crescimento da produtividade do trabalho, 101º em graduados em ciência e engenharia e 129º em ambiente de negócios. Não faltam ilhas de inovação. Falta, no entanto, fazer com que ciência, financiamento, empresas e mercado formem um sistema capaz de produzir economias de escala.
A Nova Indústria Brasil responde ao problema?
Em boa medida, o desenho da Nova Indústria Brasil (NIB) – o ambicioso programa de reindustrialização lançado pelo governo em 2024 – parte do diagnóstico correto. Uma das missões prioritárias é digitalizar a indústria e elevar a produtividade. BNDES, Finep e Embrapii oferecem crédito, subvenção, equity e apoio a projetos conjuntos entre empresas e instituições científicas. A NIB combina ainda instrumentos financeiros, regulatórios e compras públicas.
Mas há dúvidas sobre o foco, a execução e a avaliação da política. A NIB distribui esforços por seis missões e numerosas cadeias. Estudo assinado pelos economistas Wallace Pereira, Adilson Giovanini e Silvio Pereira, e publicado em junho pela revista Nova Economia, conclui que atividades de maior intensidade tecnológica oferecem ganhos potenciais maiores de diversificação produtiva. Em entrevista nesta semana ao Valor, o economista Paulo Morceiro chega por outro caminho a crítica semelhante: considera correto o diagnóstico, mas excessiva a abrangência, além de apontar deficiências em metas, monitoramento e avaliação.
Existem ainda problemas que a política industrial não resolve sozinha. Formação de capital humano, melhora no ambiente de negócios, custo de capital e qualidade regulatória exigem uma agenda mais ampla, que vai da macroeconomia à educação.
Pauta empresarial para 2027
Para o próximo governo, os empresários deveriam defender a preservação do que funciona na NIB, acompanhada de maior seletividade e cobrança de resultados. Em vez de medir apenas bilhões liberados, projetos contratados e empresas atendidas, é preciso acompanhar fatores como produtividade, tecnologias que chegam ao mercado e empresas que conquistam escala.
Também é necessário concentrar recursos na etapa em que muitas boas ideias se perdem: a passagem da pesquisa para o mercado. Isso significa ajudar empresas a testar novas tecnologias, adaptá-las à produção, obter as autorizações necessárias, encontrar financiamento para crescer e conquistar os primeiros clientes.
Existe uma agenda especialmente importante para empresas médias. Difundir tecnologia significa fazer com que uma indústria que hoje trabalha com processos convencionais consiga identificar onde automação, sensores, inteligência artificial ou novos softwares podem elevar sua produtividade; que ela tenha assistência para escolher e implantar a solução; que encontre financiamento e, finalmente, consiga medir o resultado. O Brasil Mais Produtivo parte dessa lógica. Mas precisa ganhar escala e responder a duas perguntas que permitam avaliar seus resultados: quantas empresas efetivamente incorporaram tecnologia e quanto sua produtividade aumentou?
Resumo da ópera
O 53º lugar do Brasil no GII 2026 esconde uma notícia mais interessante: o país dispõe de boa parte dos ingredientes necessários para inovar, mas ainda não consegue combiná-los em escala. A NIB pretende enfrentar essa desconexão, com instrumentos pertinentes, mas tem abrangência excessiva e seus resultados são difíceis de medir.
O radar empresarial para 2027 deveria apontar para três prioridades. A primeira é foco: concentrar recursos nos setores e tecnologias com maior potencial de gerar produtividade, escala e competitividade internacional. A segunda é conexão: aproximar pesquisa, empresas e capital para que conhecimento se transforme mais rapidamente em produtos, processos e negócios. Por fim, produtividade: fazer a inovação chegar à empresa comum, especialmente às médias, e medir seu sucesso pelo aumento efetivo de eficiência e competitividade.
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