O mamífero tratado como praga mexeu no pasto e os iaques ganharam comida melhor
Experimento mostra que densidades moderadas de pikas podem melhorar a composição da pastagem e favorecer o ganho de peso dos iaques
Durante décadas, a pika-do-planalto foi combatida em partes do Planalto Qinghai-Tibetano por ser associada à degradação das pastagens e à competição com rebanhos. Um estudo publicado em 2026, porém, mostra um quadro mais complexo: em densidades moderadas, a pika-do-planalto pode melhorar a vegetação disponível aos iaques, reduzindo plantas pouco aproveitáveis e favorecendo gramíneas e ciperáceas mais nutritivas.
Por que a pika-do-planalto foi considerada uma praga?
A pika-do-planalto (Ochotona curzoniae) é um pequeno lagomorfo escavador encontrado em áreas elevadas do Planalto Qinghai-Tibetano. Como consome vegetação e abre numerosas tocas, populações muito densas foram associadas à redução de forragem e a alterações na cobertura vegetal, o que motivou programas de controle em larga escala.
Esse histórico, entretanto, simplificou uma relação ecológica que depende da densidade dos animais e das condições da pastagem. Estudos anteriores já indicavam que as pikas também criam micro-habitats, fornecem abrigo para outras espécies e servem de presa para diversos predadores, funcionando como importantes modificadoras desses ecossistemas alpinos.
Leia também: Uma cidade azul cresceu entre montanhas do Marrocos e seus becos nasceram ao redor de uma antiga fortaleza
Como as pikas mudaram a vegetação usada pelos iaques?
O estudo avaliou experimentalmente o que acontecia quando as pikas permaneciam ou eram removidas de áreas de pastagem. Um mecanismo importante envolveu plantas do gênero Stellera, que são evitadas pelos iaques e podem ocupar espaço que, de outra forma, seria usado por espécies forrageiras mais palatáveis.
As pikas cortavam essas plantas e reduziram aproximadamente pela metade sua cobertura. Com menor competição exercida por Stellera, gramíneas e ciperáceas aumentaram em abundância, e o teor de proteína bruta da forragem também cresceu. Assim, a presença moderada dos pequenos mamíferos alterou indiretamente a comida disponível aos grandes herbívoros.
- Menor cobertura de Stellera;
- Mais gramíneas e ciperáceas palatáveis;
- Maior teor de proteína na forragem;
- Melhor eficiência de alimentação dos iaques.
Este vídeo mostra a pika vivendo nas condições extremas do planalto tibetano.
A pika-do-planalto realmente ajudou os iaques a ganhar peso?
Nos experimentos, a retirada das pikas reduziu em cerca de 90% a densidade de tocas ativas. Nas áreas onde Stellera permanecia, a ausência das pikas esteve associada a um ganho diário de peso dos iaques até 42% menor em comparação com parcelas onde os pequenos herbívoros continuavam presentes.
Os pesquisadores também observaram melhora de aproximadamente 30% a 40% na eficiência de forrageamento dos iaques quando havia pikas. O resultado não significa que qualquer número desses animais seja benéfico: a relação encontrada teve formato de curva, com vantagens em densidades intermediárias e prejuízos quando a abundância se tornava elevada.
Existe uma quantidade de pikas que parece mais favorável?
O estudo publicado na eLife encontrou o maior ganho de peso dos iaques perto de 200 tocas ativas de pika por hectare. Nessa faixa, o efeito positivo sobre a composição da vegetação aparentemente superou a competição direta por alimento entre os dois herbívoros.
Acima de aproximadamente 400 tocas por hectare, porém, a tendência mudou: o ganho dos iaques caiu abaixo do observado em áreas sem pikas. Esses valores vieram das condições avaliadas pelo experimento e não devem ser tratados como limites universais para todo o Planalto Qinghai-Tibetano.

O que aconteceu quando os pesquisadores retiraram as pikas?
A remoção permitiu que a cobertura de Stellera aproximadamente dobrasse em relação às áreas com pikas. Ao mesmo tempo, diminuíram a abundância e a qualidade nutricional de gramíneas e ciperáceas consumidas pelos iaques, mostrando que eliminar um pequeno herbívoro pode desencadear efeitos indiretos sobre toda a comunidade vegetal.
O experimento foi realizado durante as estações de crescimento e acompanhou tratamentos de campo em 2022 e 2023. Os próprios autores destacam que ainda são necessários testes em outras altitudes, épocas do ano e sistemas de criação antes de transformar os resultados em uma recomendação geral de manejo.
| Indicador | Resultado observado |
|---|---|
| Faixa de maior benefício | Cerca de 200 tocas/ha |
| Mudança para competição | Acima de cerca de 400 tocas/ha |
| Eficiência de forrageamento | Aumento de 30% a 40% |
| Ganho diário de peso | Até 42% maior com pikas |
A pika-do-planalto deveria deixar de ser combatida?
Os resultados não indicam que populações de pikas devam crescer sem controle. Em densidades muito altas, elas podem competir com o gado e reduzir o benefício observado em níveis intermediários. O ponto central é que a relação não parece ser simplesmente “mais pikas, pior pastagem”.
A pesquisa reforça uma alternativa ao extermínio indiscriminado: manejar populações de acordo com densidade, tipo de pastagem e condições locais. Nesse cenário, reconhecer o papel ecológico da pika-do-planalto pode ajudar a conciliar conservação, qualidade da vegetação e produtividade dos rebanhos de iaques.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)