Um tubarão de meio metro arranca círculos de baleias e deixa marcas que parecem cortadas com molde
Sucção, dentes em forma de lâmina e rotação corporal permitem retirar discos de tecido de animais muito maiores
Com pouco mais de meio metro de comprimento, um pequeno tubarão oceânico consegue retirar pedaços quase circulares de animais muito maiores. O tubarão-charuto, Isistius brasiliensis, usa lábios especializados para criar sucção, prende os dentes à vítima e gira o corpo enquanto a fileira inferior funciona como uma lâmina, deixando uma ferida arredondada característica.
Como o tubarão-charuto consegue arrancar um pedaço de uma baleia?
O animal possui lábios grossos e uma faringe modificada que ajudam a produzir forte sucção contra a superfície da vítima. Os pequenos dentes superiores auxiliam na fixação, enquanto os dentes inferiores são grandes, triangulares e organizados como uma lâmina contínua.
Depois de se prender, o tubarão introduz a mandíbula inferior no tecido e gira o próprio corpo. Esse movimento faz os dentes percorrerem uma trajetória curva até destacar um pedaço de carne, produzindo uma cavidade arredondada que pode permanecer visível mesmo depois de cicatrizada.
Por que a mordida fica tão parecida com um círculo perfeito?
A geometria resulta da combinação entre boca aderida, dentes inferiores alinhados e rotação corporal. Experimentos com modelos de mandíbulas indicam que o giro ajuda a produzir feridas mais simétricas do que aquelas obtidas apenas pressionando os dentes contra o tecido.
As marcas não são sempre círculos perfeitos. Elas podem ser ovais ou apresentar irregularidades conforme o ângulo do ataque, o movimento da vítima e a profundidade da mordida. Em diferentes registros, feridas atribuídas ao gênero Isistius variaram aproximadamente entre 1 e 10 centímetros.
- Lábios criam sucção contra a vítima;
- Dentes superiores ajudam na fixação;
- Dentes inferiores cortam como uma lâmina;
- O corpo gira durante a retirada do tecido;
- A mordida deixa uma cavidade arredondada.
Este vídeo explica como esse pequeno tubarão consegue danificar animais e equipamentos muito maiores.
Quais animais podem carregar marcas do tubarão-charuto?
As cicatrizes aparecem em baleias, golfinhos, focas, grandes tubarões, raias, atuns e outros peixes oceânicos. Estudos de cetáceos mostram que essas marcas podem inclusive fornecer pistas sobre movimentos e áreas frequentadas pelos animais, porque o tubarão possui distribuição principalmente tropical e subtropical.
Uma mordida individual normalmente não mata uma baleia adulta. O comportamento é uma interação rápida na qual apenas uma pequena porção de tecido é retirada. Além disso, Isistius brasiliensis não depende exclusivamente dessa estratégia e também pode engolir presas menores, como lulas e pequenos peixes.
Como os cientistas descobriram o mecanismo da mordida?
A anatomia da boca forneceu as primeiras pistas, mas estudos funcionais analisaram músculos, cartilagens e formato das mandíbulas para reconstruir o processo. Os lábios carnudos, a faringe adaptada e a mandíbula inferior em forma de concha produzem um sistema muito diferente daquele usado por tubarões que simplesmente agarram e rasgam presas.
Um estudo clássico sobre a anatomia alimentar de Isistius brasiliensis concluiu que essas estruturas favorecem forte vácuo oral, retirada de tecido e rotação corporal. Experimentos posteriores com modelos tridimensionais reforçaram a importância do giro para produzir marcas arredondadas.

Como um animal tão pequeno conseguiu danificar submarinos?
Durante a década de 1970, equipamentos da Marinha dos Estados Unidos começaram a apresentar cortes misteriosos em revestimentos macios ligados a sistemas de sonar. A investigação acabou associando parte desses danos a mordidas de tubarões-charuto em coberturas de neoprene.
Os animais não perfuravam os cascos metálicos dos submarinos. O problema estava nas estruturas externas mais macias, onde conseguiam produzir cortes semelhantes aos encontrados em animais marinhos. Proteções de fibra de vidro foram posteriormente instaladas para impedir novas mordidas.
Por que o tubarão-charuto é tão difícil de observar?
A espécie vive em águas oceânicas profundas e realiza migrações verticais, permanecendo em maiores profundidades durante o dia e subindo na coluna d’água durante a noite. Exemplares podem alcançar cerca de 56 centímetros de comprimento, apesar de atacarem animais dezenas de vezes maiores.
O tubarão-charuto também possui fotóforos que produzem bioluminescência na região ventral. A função exata de todos os padrões luminosos ainda é estudada, mas a contrailuminação provavelmente ajuda a reduzir sua silhueta quando vista de baixo, acrescentando outra adaptação incomum a um predador pequeno e oceânico.
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