O verão está chegando e com ele a necessidade de ar-condicionado
Diante de verões mais severos e moradores querendo climatizar seus apartamentos, condomínios descobrem que o problema está nas entranhas do edifício
Existe uma cena cada vez mais comum nos condomínios: o morador compra um ar-condicionado, chama o instalador e descobre que não pode colocá-lo. A reação costuma ser previsível. Culpa o síndico, o regulamento, a convenção, a burocracia ou aquela velha mania condominial de transformar qualquer mudança numa assembleia interminável.
Só que, muitas vezes, a proibição esconde um problema bem mais interessante: o prédio simplesmente nasceu antes dessa realidade.
Boa parte do estoque imobiliário brasileiro foi projetada quando ter vários aparelhos de ar-condicionado dentro de um apartamento residencial estava longe de ser padrão de consumo. A infraestrutura elétrica foi calculada para outra vida doméstica, com outros equipamentos, outra demanda e outra relação com o conforto térmico.
Então chega o verão. O morador quer colocar um aparelho na sala, outro no quarto dos filhos e talvez um terceiro na suíte. O vizinho quer fazer a mesma coisa. O andar inteiro também.
E aí aparece uma diferença fundamental entre apartamento e condomínio: o seu aparelho é individual, mas parte da infraestrutura que precisa suportá-lo é coletiva.
O fato de o quadro elétrico de uma unidade suportar determinado equipamento não significa automaticamente que a instalação do edifício tenha capacidade para dezenas ou centenas deles funcionando simultaneamente. Entrada de energia, prumadas, cabos, quadros gerais, proteções e demanda do prédio fazem parte de uma equação que não pode ser resolvida olhando apenas para dentro do apartamento.
Mas eletricidade é somente o começo.
Todo aparelho split precisa colocar sua condensadora em algum lugar. E onde um prédio que nunca previu ar-condicionado colocará 50, 100 ou 200 condensadoras?
A fachada rapidamente vira um tabuleiro.
Uma aparece embaixo da janela, outra na varanda, outra atrás de uma veneziana improvisada. Surgem suportes, furos, tubulações, canaletas e soluções particulares para um problema que deveria ter sido pensado coletivamente. Junto com elas aparecem questões de impermeabilização, fixação, manutenção, alteração visual, circulação de ar, ruído e vibração.
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Ainda existe a água
O ar-condicionado produz condensado e essa água precisa ir para algum lugar. Parece um detalhe insignificante até multiplicarmos algumas gotas por centenas de equipamentos funcionando durante horas. Sem drenagem planejada, começam as mangueiras improvisadas, os pingos na fachada, a água sobre a varanda inferior e as adaptações que lentamente transformam o edifício.
É nesse momento que aparece uma das contradições mais curiosas dos condomínios brasileiros.
O morador acredita que está comprando um eletrodoméstico. O condomínio descobre que está discutindo infraestrutura predial.
Talvez seja por isso que tantas assembleias enfrentem esse assunto da pior maneira possível. Em vez de contratar engenharia para descobrir como viabilizar, começa-se discutindo se deve permitir.
É mais confortável votar uma proibição do que descobrir quanto custa atualizar um prédio.
Só que proibir não moderniza a instalação elétrica, não cria drenagem, não encontra lugar para as condensadoras e muito menos faz desaparecer a demanda dos moradores. Apenas congela o problema.
E aqui existe uma questão maior do que o próprio ar-condicionado.
Nossos apartamentos evoluíram muito mais rapidamente do que nossos edifícios.
Dentro das unidades chegaram cooktops, fornos elétricos, secadoras, computadores poderosos, automação residencial, carregadores e uma quantidade de equipamentos que os projetistas de décadas atrás dificilmente poderiam antecipar. Agora começam a chegar carros elétricos às garagens.
Enquanto isso, boa parte da infraestrutura coletiva continua pertencendo a outra geração tecnológica.
O ar-condicionado apenas tornou essa distância visível.
Por isso, quando um condomínio antigo conclui que não possui capacidade para climatização generalizada, a resposta tecnicamente madura não deveria ser simplesmente colocar uma placa imaginária dizendo “proibido ar-condicionado”.
Deveria começar por outra pergunta: quanto custa trazer este prédio para o século XXI?
Modernização
Isso exige diagnóstico de demanda elétrica, estudo das instalações existentes, definição dos locais possíveis para condensadoras, avaliação de fachada e fixações, projeto de drenagem, critérios acústicos, padronização e planejamento da implantação. Em alguns edifícios, a conclusão poderá ser que a estrutura existente suporta determinada quantidade de equipamentos. Em outros, serão necessárias adequações relevantes.
E há um detalhe importante: preparar o condomínio para receber ar-condicionado não significa comprar aparelhos para os moradores. Significa criar infraestrutura, capacidade e regras técnicas para que cada proprietário possa fazer sua escolha sem transferir risco para os outros.
Talvez estejamos começando a enfrentar um problema que aparecerá muitas outras vezes nos próximos anos.
Porque o ar-condicionado é apenas o ensaio.
Quando veículos elétricos, maior eletrificação das residências, automação, geração distribuída e novas tecnologias começarem a pressionar simultaneamente edifícios construídos para outra época, muitos condomínios descobrirão que conservar patrimônio não significa apenas pintar fachada, trocar bomba e reformar salão de festas.
Também significa atualizar infraestrutura.
O prédio que se recusa eternamente a discutir isso não permanece igual.
Ele envelhece.
Por Rafael Bernardes, especialista em gestão condominial e fundador do Sindicolab
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