Clarita Maia na Crusoé: A expulsão do outro – violência política contra judeus
Contra a lógica da expulsão, ergueu-se a Constituição de 1988, ao inscrever entre os objetivos fundamentais da República a construção de uma sociedade livre, justa e solidária
No dia em que começaria o Iom Kippur, o dia mais sagrado do calendário judaico, um candidato a deputado federal cobriu a placa da Rua Estado de Israel, em Higienópolis, com os dizeres “Palestina livre do rio ao mar”. Ninguém foi agredido. A violência política raramente começa pela agressão física.
Ela começa antes, quando o adversário deixa de ser reconhecido, ainda que simbolicamente, como interlocutor legítimo e passa a ser percebido como presença intolerável no espaço comum.
Na trilha de Byung-Chul Han, em A Expulsão do Outro, à medida que a diferença perde legitimidade, o outro deixa de ser alguém com quem se disputa e passa a ser alguém que se pretende silenciar, neutralizar, expulsar.
Expulsar é a palavra exata. Há quem leia o slogan apenas como um apelo pela liberdade palestina. Mas, afixado sobre o nome de uma rua que homenageia Israel, num bairro de forte presença judaica, no dia em que começaria o Iom Kippur, ele diz outra coisa: que, do rio ao mar, não haveria lugar para o outro. Tampouco no Brasil. Atacar símbolos inscritos no espaço comum é disputar quem tem o direito de nele permanecer e ser reconhecido.
A expulsão nem sempre é ruidosa. Às vezes, é de agenda. A Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados já marcou, em pleno Iom Kippur, debates de interesse da comunidade judaica.
Justamente na data cuja observância praticamente inviabiliza a participação dos interessados, pois judeus são convidados a jejuar e se resguardar nesse período. Fala-se sobre o outro, mas se constrói o espaço de modo que ele não possa estar presente.
Nada disso é exclusividade de um lado do espectro político. Em 2018, dois candidatos exibiram, partida ao meio, a placa que homenageava Marielle Franco. O alvo muda. O gesto é o mesmo.
Barbara F. Walter, em Como as guerras civis começam: e como impedi-las (2022), identifica na erosão democrática, na faccionalização em torno de identidades étnicas, raciais ou religiosas e na progressiva legitimação da violência política alguns dos mecanismos de escalada autoritária.
A intimidação e a agressão simbólica passam a integrar o repertório ordinário da disputa. O estudo Caminhos para a Paz (2018), da ONU e do Banco Mundial, lembra que conflitos civis raramente irrompem de maneira súbita: costumam ser precedidos por processos de exclusão de grupos e de deterioração institucional.
As eleições brasileiras estão mais violentas, ou a violência política passou a ser mais registrada. Em qualquer hipótese, o debate público se empobreceu…
Siga a leitura em Crusoé. Assine e apoie o jornalismo independente.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)