Água percorreu quase 20 quilômetros até uma cidade romana e sifões fizeram o aqueduto de Aspendos vencer o relevo
Sistema romano combinou canais, arcadas, torres hidráulicas e tubulações pressurizadas para atravessar um amplo vale no sul da Turquia
Na antiga cidade de Aspendos, no sul da atual Turquia, engenheiros romanos precisaram transportar água desde nascentes situadas nas montanhas ao norte até uma área urbana separada delas por um amplo vale. O aqueduto de Aspendos percorreu cerca de 19 quilômetros e combinou canais convencionais, trechos subterrâneos, arcadas, tubulações pressurizadas e duas grandes torres hidráulicas. Na parte final, essas torres dividiram a travessia pressurizada em três segmentos de sifão invertido, solução rara e excepcionalmente bem preservada.
Como o aqueduto de Aspendos trazia água das montanhas?
As fontes utilizadas ficavam ao norte da cidade, nas regiões de Gökçeler e Pınarbaşı, em terrenos muito mais elevados. A documentação apresentada à UNESCO situa essas fontes a aproximadamente 19 quilômetros do centro urbano e em altitudes próximas de 500 metros, permitindo que a gravidade movimentasse a água ao longo do percurso.
Durante grande parte do trajeto, a água seguia por canais de alvenaria com pequena inclinação, contornando o relevo. Túneis e pontes eram empregados onde necessário. O problema mais difícil surgia próximo da cidade, onde um vale separava as elevações do norte da acrópole de Aspendos.
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Por que os romanos precisaram usar sifões invertidos?
Construir uma arcada tão alta quanto as colinas ao redor do vale exigiria uma estrutura enorme. Em vez disso, os engenheiros fizeram a água descer por uma tubulação fechada, atravessar a parte baixa do terreno e subir novamente do outro lado, aproveitando a diferença de nível entre a entrada e a saída.
Esse princípio é chamado sifão invertido e trabalha com água sob pressão. Em Aspendos, a travessia tinha cerca de 1,67 quilômetro e incluía duas torres hidráulicas intermediárias, que separavam o percurso em três trechos pressurizados.
- Reservatório de entrada;
- Tubulação de pedra sob pressão;
- Duas torres hidráulicas intermediárias;
- Arcadas atravessando o vale;
- Reservatório de chegada à cidade.
Este vídeo mostra de perto os vestígios do sistema.
Como o aqueduto de Aspendos suportava a pressão da água?
As tubulações não eram simples canais abertos. Elas foram montadas com blocos perfurados de calcário, cada um contendo um orifício cilíndrico de aproximadamente 28 centímetros. Os blocos eram encaixados uns nos outros para formar uma longa linha capaz de trabalhar sob pressão.
As juntas precisavam permanecer estanques. Estudos arqueológicos indicam o uso de um material de vedação à base de cal, associado a óleo, entre os elementos. As arcadas sustentavam a tubulação acima de áreas baixas ou instáveis, enquanto as torres alcançavam cerca de 30 metros nos trechos ainda preservados.
Para que serviam as duas grandes torres hidráulicas?
A função exata das torres ainda é discutida. Uma interpretação é que os reservatórios abertos existentes em seus topos interrompiam a longa linha pressurizada, permitindo controlar melhor o comportamento hidráulico e facilitar a liberação de ar acumulado nas tubulações.
Uma análise publicada no Journal of Archaeological Science utilizou dinâmica dos fluidos computacional para estudar o sistema. Os autores avaliaram, entre outros fatores, ondas de pressão durante o enchimento e propuseram que as torres poderiam reduzir efeitos capazes de provocar danos às tubulações.

O que torna o aqueduto de Aspendos tão incomum?
O aqueduto de Aspendos preserva elementos que ajudam pesquisadores a reconstruir, de forma concreta, como romanos administravam água pressurizada em terrenos difíceis. A estrutura combina conhecimento topográfico, alvenaria monumental e peças de pedra cuidadosamente perfuradas e conectadas.
Sua parte terminal é especialmente valiosa porque grande parte das arcadas e das duas torres permanece visível. A UNESCO destaca justamente a conservação dos sifões hidráulicos como uma característica importante do conjunto arqueológico de Aspendos.
| Elemento | Característica |
|---|---|
| Percurso total | Cerca de 19 km |
| Travessia pressurizada | Aproximadamente 1,67 km |
| Torres hidráulicas | Duas estruturas intermediárias |
| Tubulação | Blocos de calcário perfurados |
Quando esse sistema hidráulico foi construído?
A cronologia exata apresenta alguma variação entre estudos. Uma inscrição associada ao sistema é interpretada como evidência de que Tiberius Claudius Italicus financiou um aqueduto em Aspendos por dois milhões de denários, provavelmente no século II d.C. Outros trabalhos situam partes do sistema pressurizado no período romano imperial, chegando ao século III.
Hoje, teatro e aquedutos de Aspendos fazem parte da Lista Indicativa da Turquia para o Patrimônio Mundial da UNESCO. Além do famoso teatro romano, o complexo hidráulico registra uma solução de engenharia que permitiu abastecer fontes, banhos, residências e outros espaços urbanos apesar do relevo desfavorável.
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