O porto antigo era maior do que parecia e arqueologia submarina muda contas sobre o comércio no Mediterrâneo
Áreas de ancoragem além dos molhes mostram que alguns sistemas portuários antigos podiam receber muito mais navios do que se estimava
Quais eram realmente as dimensões dos portos antigos do Mediterrâneo? Durante muito tempo, arqueólogos compararam sua importância principalmente pelo tamanho de bacias, cais, molhes e quebra-mares preservados. Um estudo publicado em 2026 propõe olhar também para o espaço além dessas estruturas. Evidências submarinas mostram que navios podiam ancorar em baías vizinhas, áreas abertas e zonas hoje submersas, ampliando bastante a capacidade funcional de determinados portos.
Por que os portos antigos podem ter sido subestimados?
A arqueologia portuária tradicional favoreceu estruturas visíveis: paredes, cais, molhes e bacias delimitadas. Esses vestígios são fáceis de mapear e comparar, mas representam apenas uma parte da operação marítima. Em muitos lugares, embarcações não precisavam necessariamente entrar na bacia construída para carregar, descarregar ou aguardar condições favoráveis.
Os pesquisadores defendem que baías externas e trechos protegidos da costa também formavam o sistema portuário. Navios podiam permanecer fundeados fora das estruturas monumentais ou até ser puxados para praias adequadas. Ignorar essas áreas reduz artificialmente o número de embarcações que um porto poderia receber.
O que a arqueologia submarina encontrou fora dos molhes?
Em Cesareia, no atual Israel, grande parte das estruturas do porto de época herodiana está submersa. As pesquisas indicam que a atividade marítima não terminava nos limites da bacia monumental: áreas de ancoragem ao sul aumentavam o espaço utilizável e, portanto, a capacidade estimada do complexo.
Port-Vendres, no sul da França, oferece outro tipo de evidência. A distribuição de naufrágios e conjuntos arqueológicos indica uma zona densa de fundeio fora do porto formal. Em Terracina, na Itália, processos de sedimentação modificaram a costa e as antigas áreas navegáveis, mostrando que o litoral atual não reproduz necessariamente o porto antigo.
- Bacias construídas;
- Baías protegidas;
- Fundeadouros externos;
- Trechos usados para encalhe;
- Cais e molhes auxiliares.
Veja uma exploração arqueológica relacionada ao porto de Cesareia:
Como os pesquisadores calculam a capacidade dos portos antigos?
Não basta medir a superfície da água. A equipe combina a profundidade antiga com o calado dos navios que poderiam navegar ali. Sedimentos acumulados, mudanças do nível relativo do mar e dragagens históricas precisam ser reconstruídos para saber quais zonas realmente eram acessíveis em cada período.
Outro fator é a forma de atracação. Cordas, argolas de amarração, cabeços, fotografias históricas e vestígios de instalações ajudam a estimar quantos navios poderiam ocupar determinada área sem bloquear rotas de entrada e saída. Assim, capacidade passa a ser uma função de espaço, profundidade e densidade de amarração.
Qual estudo propôs essa nova forma de medir os portos?
Emmanuel Nantet, Matthieu Giaime e Michael Lazar apresentaram a abordagem no estudo publicado na revista Antiquity. O trabalho integra o projeto SHIPs, desenvolvido entre 2023 e 2028 para estudar portos a partir da perspectiva marítima, e não apenas das estruturas preservadas em terra.
A metodologia utiliza arqueologia subaquática, geofísica marinha, testemunhos de sedimentos e reconstruções geomorfológicas. Em Port-Vendres, por exemplo, levantamentos recentes combinaram sonar de varredura lateral, perfilador de subfundo e magnetômetro para localizar possíveis vestígios que depois podem ser inspecionados diretamente por mergulhadores.

Quais lugares ajudam a testar essa nova interpretação?
Os pesquisadores escolheram ambientes muito diferentes para verificar se o método funciona além de um único tipo de costa. Cesareia apresenta estruturas erodidas e submersas; Terracina possui setores soterrados por sedimentos; Port-Vendres conserva evidências de ancoragem externa; e o mar da Galileia oferece um caso lacustre onde mudanças no nível da água expõem antigas instalações.
Essa variedade é importante porque nenhum porto permanece estático por dois mil anos. Erosão, terremotos, sedimentação, elevação ou subsidência costeira podem apagar ou esconder partes fundamentais do sistema original. Reconstruir o passado exige separar a paisagem antiga daquela observada atualmente.
Por que essa revisão muda a escala do comércio mediterrâneo?
Se a capacidade dos portos antigos era maior do que indicam apenas as bacias construídas, algumas cidades poderiam receber simultaneamente mais embarcações do que estimativas anteriores sugeriam. Isso afeta modelos sobre circulação de mercadorias, abastecimento urbano e intensidade das conexões marítimas entre diferentes regiões.
Os autores não afirmam que todos os portos foram drasticamente subestimados. A proposta é metodológica: cada sistema precisa ser reconstruído incluindo águas externas comprovadamente utilizadas. A arqueologia submarina, portanto, não apenas encontra estruturas perdidas; ela pode mudar as contas usadas para interpretar a economia marítima do Mediterrâneo antigo.
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