Oito parentes humanos deixaram pegadas lado a lado há 1,4 milhão de anos e alguns eram maiores do que se imaginava
Vinte e uma pegadas no Quênia registram oito hominínios em uma antiga margem de lago e sugerem indivíduos surpreendentemente grandes
Vinte e uma pegadas preservadas às margens do antigo Lago Turkana, no norte do Quênia, registraram oito hominínios atravessando o mesmo terreno há cerca de 1,43 milhão de anos. A análise publicada na Proceedings of the National Academy of Sciences indica que as marcas são mais compatíveis com Paranthropus boisei, um parente humano conhecido principalmente por crânios e dentes. Algumas pegadas sugerem indivíduos com até aproximadamente 1,8 metro e 75 quilos, dimensões maiores do que estimativas anteriores baseadas em seus raros ossos pós-cranianos.
Por que as pegadas foram atribuídas a Paranthropus boisei?
O sítio GaJi10 está na Formação Koobi Fora, região onde fósseis de P. boisei e Homo erectus aparecem em depósitos do Pleistoceno Inferior. Para distinguir possíveis autores, os pesquisadores analisaram características internas das pegadas, como formato do arco plantar, posição do dedão e distribuição da pressão durante a passada.
As marcas de GaJi10 se aproximam de outras pegadas anteriormente atribuídas a P. boisei e apresentam diferenças em relação ao padrão mais semelhante ao humano moderno associado a H. erectus. A atribuição, porém, não é absoluta: como algumas pegadas são excepcionalmente grandes, os próprios autores reconhecem que H. erectus permanece como possibilidade alternativa.
Como oito indivíduos ficaram registrados no mesmo chão?
GaJi10 preserva 21 pegadas atribuídas provisoriamente a oito indivíduos. A maioria segue aproximadamente para oeste, enquanto uma sequência aponta para leste. A proximidade espacial e as condições de preservação indicam que as marcas foram produzidas dentro de uma janela curta, oferecendo algo raro no registro fóssil: um possível episódio de deslocamento coletivo.
A superfície também contém dezenas de rastros de outros animais. O cenário era uma margem de lago com sedimento úmido e água rasa, posteriormente recoberta por material fino antes que as pegadas fossem destruídas. Cinzas vulcânicas nas camadas geológicas permitiram situar o conjunto em aproximadamente 1,43 milhão de anos atrás.
- 21 pegadas de hominínios;
- Oito indivíduos identificados;
- Marcas de hipopótamos e bovídeos;
- Sedimento de antiga margem lacustre;
- Cerca de 1,43 milhão de anos.
Este vídeo do Smithsonian explica descobertas de pegadas de Paranthropus e Homo na região do Lago Turkana.
O que Paranthropus boisei revela sobre o tamanho desses hominínios?
Estimativas anteriores, baseadas em fósseis corporais escassos, sugeriam indivíduos geralmente menores. Nas novas pegadas, porém, quatro produtores podem ter ultrapassado a maior estimativa de estatura anteriormente publicada para P. boisei. Dependendo das proporções corporais adotadas, os cálculos chegaram a aproximadamente 1,81 metro.
Os maiores indivíduos poderiam atingir cerca de 75 quilos, aproximando-se das dimensões atribuídas a alguns H. erectus contemporâneos. Isso altera a imagem tradicional de uma diferença corporal clara entre os dois grupos, mas permanece dependente da identificação das pegadas e dos modelos usados para converter dimensões dos pés em massa e estatura.
O grupo realmente caminhava junto há 1,4 milhão de anos?
A disposição das marcas sugere que vários indivíduos passaram pela superfície aproximadamente no mesmo período e na mesma direção. Os pesquisadores consideram provável que fossem majoritariamente adultos, possivelmente machos. Essa interpretação abriu a hipótese de grupos compostos por machos tolerando a presença uns dos outros durante deslocamentos.
No estudo publicado na PNAS, os autores tratam essa reconstrução com cautela. Pegadas podem mostrar proximidade e direção, mas não revelam relações familiares nem permitem provar uma estrutura social semelhante à de gorilas ou outros primatas atuais.

Como Paranthropus boisei dividia a paisagem com outros hominínios?
East Turkana já havia fornecido evidências de pegadas atribuídas tanto a P. boisei quanto a Homo erectus. Conjuntos encontrados em diferentes camadas mostram que os dois tipos de hominínio utilizaram ambientes próximos às margens do lago durante um intervalo superior a 100 mil anos.
Isso não prova interação direta entre eles, mas demonstra sobreposição ecológica. Ambos precisavam acessar água, vegetação, alimentos e outros recursos naquela paisagem, ao mesmo tempo que conviviam com hipopótamos, grandes herbívoros, crocodilos e outros animais.
| Registro | Estimativa |
|---|---|
| Idade | Cerca de 1,43 milhão de anos |
| Pegadas | 21 marcas |
| Indivíduos | Oito |
| Maior porte estimado | Até ~1,8 m e ~75 kg |
Por que pegadas contam uma história diferente da contada pelos ossos?
Esqueletos revelam anatomia detalhada, mas normalmente representam indivíduos isolados. Pegadas preservam comportamento em uma escala de segundos ou minutos: mostram direção, proximidade, modo de caminhar e presença simultânea de vários organismos em uma superfície.
GaJi10 é especialmente importante porque P. boisei possui um registro corporal muito incompleto fora do crânio. As novas marcas não encerram a discussão sobre seu tamanho ou vida social, mas mostram que esse parente humano provavelmente apresentava maior diversidade corporal e comportamental do que os poucos ossos conhecidos permitiam imaginar.
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