Pesquisadores de Harvard simularam uma cidade lunar de um milhão de habitantes e, ao abrir as torneiras, esvaziaram a água da Lua em um século
Cidade lunar de 1 milhão de habitantes esgota a água da Lua em um século, calculam dois astrofísicos
Uma cidade lunar de um milhão de pessoas esgotaria a água da Lua em cerca de um século
Dois astrofísicos do Centro de Astrofísica Harvard e Smithsonian fizeram a conta mais ingrata do momento. Eles estimaram quanto duraria a água da Lua se uma cidade grande abrisse as torneiras por lá. A resposta ficou em cerca de cem anos, e apenas no cenário mais generoso.
O que exatamente os pesquisadores calcularam?
O tempo de vida de uma reserva de água diante de populações de tamanhos diferentes. O consumo considerado inclui bebida, higiene, agricultura, ar respirável e até combustível de foguete.
Martin Elvis e Jonathan McDowell partiram de uma estimativa deliberadamente otimista, de 1 bilhão de toneladas de gelo de água. Sem qualquer reaproveitamento, 1 milhão de moradores zerariam essa reserva em menos de dois anos e meio.
Com reciclagem de 98%, patamar já alcançado na Estação Espacial Internacional, o prazo sobe para cerca de um século. Os números foram publicados em um artigo científico e detalhados em reportagem da CNN.
O ponto de partida do estudo não é a Lua real, e sim uma Lua favorável ao projeto. A escolha é deliberada, para que o resultado não pareça pessimista por causa das premissas.

Por que a premissa do modelo muda tanto o resultado?
Porque quase tudo no cálculo depende de suposições escolhidas pelos autores. Troque o tamanho da população ou a taxa de reciclagem e o horizonte salta de anos para séculos.
O carrossel reúne os números que sustentam o estudo. Arraste para ver cada premissa em separado.
💧
1 bilhão de t
Estimativa generosa de gelo de água usada como ponto de partida.
⏱️
2,5 anos
É o que duraria a reserva com 1 milhão de pessoas e nenhuma reciclagem.
♻️
98%
Taxa de reaproveitamento da ISS, que estica o prazo para cerca de 100 anos.
🏘️
1.000 anos
Duração estimada para um assentamento de cerca de 100 mil habitantes.
🕳️
34 milhões de t
Água estimada nas oito maiores crateras, bem abaixo da premissa inicial.
Fonte: Elvis e McDowell, Centro de Astrofísica Harvard e Smithsonian
👉 Arraste para o lado
O que o estudo não prova sobre colônias na Lua?
Não prova que a Lua tenha, de fato, 1 bilhão de toneladas de água disponível. Esse número é uma hipótese escolhida pelos autores, e a reserva realmente acessível pode ser bem menor.
Outros limites ajudam a ler o resultado com cuidado. Veja o que fica de fora do cálculo.
- O trabalho não descarta bases pequenas, que aparecem como bem mais sustentáveis.
- O gargalo apontado é a água, e não a energia disponível na superfície.
- A distribuição do gelo é desigual, concentrada em crateras permanentemente sombreadas.
- O estudo não resolve quem teria direito de explorar essas reservas.
- Tecnologias futuras de mineração ou importação não entram como garantia.
O contraste entre as premissas aparece no próprio material. A reserva de 1 bilhão de toneladas é otimista, enquanto as oito maiores crateras somariam cerca de 34 milhões de toneladas.
Quais saídas os autores colocam sobre a mesa?
Quatro caminhos, todos com seus próprios problemas. Nenhum deles resolve o impasse sozinho, e o mais lembrado pelo público é justamente o mais caro.
A lista abaixo segue a ordem de viabilidade sugerida pelos pesquisadores. Repare no peso da agricultura nesse balanço.
- Reciclar ainda melhor, indo além da marca já alcançada em órbita.
- Consumir menos, sobretudo na produção de alimentos, maior consumidora de água.
- Trazer água de asteroides, alternativa ainda distante da prática.
- Encontrar mais gelo, ampliando a busca além das grandes crateras.
- Regular o acesso, em vez de deixar valer a lógica de quem chegar primeiro.
Importar água da Terra é a opção menos realista da lista. Nas contas dos autores, uma cidade de 1 milhão de pessoas precisaria receber 10 milhões de toneladas por ano. Isso daria cerca de 27 pousos de cargueiros por dia, todos os dias.
Centro de Astrofísica Harvard e Smithsonian
A Lua comporta mesmo uma cidade do tamanho de uma capital?
Pelos números apresentados, não por muito tempo. O estudo é um exercício de ordem de grandeza, feito com premissas favoráveis, e serve mais para calibrar expectativas do que para cravar um futuro. Me conta nos comentários se você aposta em uma cidade lunar ainda neste século.
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