Depois de 130 anos, esta espécie volta a ocupar áreas da América Latina e sua expansão começa a surpreender pesquisadores
Reintroduções na Argentina e um registro raro no sul do Brasil mostram como uma população pode voltar a alcançar territórios perdidos.
Um animal que havia desaparecido do Rio Grande do Sul por cerca de 130 anos voltou a ser registrado no extremo oeste do estado. O tamanduá-bandeira reapareceu no Parque Estadual do Espinilho, enquanto populações restauradas na Argentina mostram capacidade de avançar para além das áreas onde foram reintroduzidas.
Qual espécie voltou a aparecer depois de 130 anos?
Trata-se do tamanduá-bandeira, ou Myrmecophaga tridactyla, maior espécie viva de tamanduá. O mamífero é reconhecido pelo focinho alongado, pelas garras dianteiras fortes e pela grande cauda coberta por pelos.
No Rio Grande do Sul, a espécie era considerada extinta havia aproximadamente 130 anos. O primeiro registro recente ocorreu em 2023, por meio de uma armadilha fotográfica instalada no Parque Estadual do Espinilho, em Barra do Quaraí.

Como a recuperação começou do outro lado da fronteira?
Uma parte importante dessa história começou nos Esteros del Iberá, na província argentina de Corrientes. Em 2007, um projeto de reintrodução soltou o primeiro casal em uma região onde o tamanduá-bandeira havia desaparecido décadas antes.
Com o tempo, animais reabilitados e filhotes nascidos em liberdade formaram diferentes núcleos. A espécie passou a ocupar áreas além dos pontos originais de soltura, sinal de que parte da população já consegue sobreviver e se dispersar sem depender de novas liberações.
Alguns marcos ajudam a entender esse processo:
O registro no Brasil prova que já existe uma nova população?
Ainda não. O registro confirma a presença recente do animal, mas não prova sozinho que exista uma população estabelecida no Pampa gaúcho. Depois do primeiro flagrante, novas imagens foram obtidas no mesmo parque, sem que os pesquisadores conseguissem determinar quantos indivíduos estavam envolvidos.
A origem argentina também é tratada como hipótese forte, não como certeza genética. Pesquisadores relacionaram o aparecimento à expansão de animais de Corrientes porque o parque fica próximo da fronteira e a população de Iberá já demonstra capacidade de dispersão.
Até onde esses tamanduás conseguem se deslocar?
O tamanduá-bandeira utiliza áreas extensas e pode atravessar diferentes tipos de paisagem em busca de alimento e território. Na Argentina, há registros de indivíduos que se afastaram muitos quilômetros dos locais de reintrodução e passaram a aparecer em propriedades vizinhas.
Esse comportamento ajuda a explicar por que a recuperação depende de conectividade entre habitats. Uma reserva isolada pode sustentar animais, mas a expansão para áreas antigas exige caminhos com alimento, abrigo e níveis de risco que permitam atravessar a paisagem.
O que favorece e o que ameaça essa expansão?
Áreas protegidas, campos nativos e corredores ecológicos aumentam a chance de dispersão. Ao mesmo tempo, indivíduos que deixam as reservas ficam expostos a estradas, incêndios, cães, caça e perda de vegetação, ameaças que continuam relevantes para a espécie.
O tamanduá-bandeira permanece classificado como Vulnerável na lista nacional de espécies ameaçadas. Portanto, o reaparecimento em uma região não significa que os problemas de conservação estejam resolvidos.
O contraste entre avanço e risco fica mais claro em três pontos:
Por que esse retorno chama tanta atenção dos pesquisadores?
A importância está em observar uma espécie voltar a aparecer além do lugar onde o trabalho de reintrodução começou. A Secretaria do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul confirmou que o tamanduá-bandeira era considerado extinto no estado havia 130 anos.
Isso não representa uma expansão uniforme por toda a América Latina. O caso documentado é uma recuperação regional, ligando principalmente Corrientes ao oeste gaúcho. Ele mostra que reintrodução, reprodução e dispersão podem devolver uma espécie a partes de sua área histórica quando ainda existe habitat conectado.
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